021TempoModerno

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TempoModerno


Os arcos retorcidos do aço inglês na platibanda em brilho prata, floritura metálica de quase-flor a brotar em fieira, lançam-se em vão do Mosteiro para Santa Ifigênia, o bonde no estrídulo da roda nos carris, acima o céu celagem rosa embaixo Anhangabaú, filete d´água em canal coberto, luta para não morrer.
TempoModerno os andarilhos pés, conforme o bonde rilha nos trilhos o zurro dos burros o clangor das buzinas o clamor dos pedintes a indiferença das gentes, compassam dança na tarde livre de garoa do dia quente. Tanto faz se o pespega chuva, nem muda os passos nem evita as poças, se calor o pilha não despe o casaco de lã grossa de preto sujo do frio. Algumas roupas gastaram-nas o uso, conserva contudo por gosto o chapéu colete e bengala das antigas décadas em que aos bondes puxavam os burros por estreitos carreiros e, a linda Menina Cega Florista se o apelidou de TempoModerno, vem daí o apelido.
A pão e água, metam-no a pão e água! Gertrudes, feliz que Vina esteja longe, rumo à rua da Boa Vista exercita seu dia de rica e vai às lojas como quem vai às compras e, compraria, se não estivesse vazia a bolsa de couro caro. Na outra calçada TempoModerno.
Ele não sabe mas seu nome é esse. Ninguém sabe que seu nome é esse. A cidade nem o vê, ou a seu andar desocupado, a bengala ponteiro único de um relógio a girar em sentido anti-horário. Somente pela Florista visto na cega escuridão. Para Gertrudes, dele sabe com a certeza de quem não carece ver ouvir, existe TempoModerno com esse nome.
A ponte leve sobreleva-se viaducto, robustas patas a fincá-la saurópode no arenoso vale, com risco de ser tragada pelo terreno leito no passado de caudaloso rio temem os antigos, obra de altiva engenharia desde que erguida é aqui de TempoModerno a morada.
A pão e água, metam-no a ferros.
TempoModerno desvia-se pela escada lateral desce ao Vale e, vagaroso, percorre as casas que sob o viaducto os donos teimam ter sido ali sempre a nossa morada portanto não mudaremos, pois nem vai a chuva levar-nos de aluvião nem cairá construção de vigoroso aço da Monarcchia Inglesa, por mais que sobre ele em viação transitem bondes e carros e carroças e charretes, viaturas a tração de cavalo de gente vehículo automotriz. TempoModerno concorre com os cães a comida deixada nas soleiras pelas criadas preguiçosas; das sobras quer apenas o sal nelas contido para a sopa de raízes e legumes. Come pouco conquanto muito ande e a cidade sua horta onde cata o de comer: nas andanças pela zona cerealista batatas esquecidas germinam verdes gemas, no mercadinho da São João hortaliças murchas bordas centro de fresca verdura tomate de poupa vermelha sob a pele envelhecida cenoura flácida e mandioca dura comporão caldo grosso com asa de frango e osso de tutano e talhos de carne colhidos no matadouro público da longínqua Villa Mariana onde irados caninos na bocarra imensa tornam os cães de rua tomados pela ofensiva fome quase-feras, mas ele artimanhoso ganha.
Atravessa anhangabaú-recoberto-em-rua, sobe a rampa aos pés do viaducto, sumindo por entre os desvãos da ponte entre as robustas patas, intrincados meandros tortuosos recantos das ordenadas pedras em paredes, acende fogo e na lata velha que de panela serve para janta ferve a feira catada no avanço do dia. Deita-se e dorme, livre de a chuva livre de o vento desarrumarem o justo do sono. O silêncio das horas mortas. Raros transeuntes no leito das ruas, temerosos dos bandidos, se passa um cavalo é disparado, o motor do carro rápido ronco rápido chega rápido parte e fica da gasolina o cheiro em rastro, para espanto do ladrão o guarda-noturno apita a garantia do salário: nada disso a TempoModerno perturba os sonhos, mas no antedia o leiteiro tira do paralelepípedo com a ferradura da mula a cadência que na infância não existia. Acorda e salta para o dia:
A pão e água, metam-no a ferros!
Calendas nonas ou idos, não têm marcas os dias, passam os meses sem nome embora o atraia a palidez da lua; despedem-se do dezenove e festivos saúdam os homens a sonoridade do século vinte pelas tantas luzes de felicidades que cruzarão nossos horizontes e nas marcas dos produtos nos cartazes dos anúncios passadas décadas ainda persistem as alegrias de uma nova era, não mais confirmada. A febre veio um dia em descarnado amarelo e passou como passara a guerra e os tempos em carro de ceifadeiras rodas sobre todos terão passado: beba Caxambu.
Nunca iguais os dias, embora tenha fronteira seu percurso: não ultrapassa o Arouche desconhecida Santa Cecília e o bairro novo que Elisíos se anuncia e Hygienópolis que a febre ameaçara aos abonados desde os miasmas das inundadas várzeas até finda guerra os ventos de andaluzia influenza nefasta; a Luz é seu limite do norte ao sul não atravessa o largo da Pólvora, o caminho de carro para Santo Amaro pega a pé quando ao matadouro vai na Villa Mariana e volta; o Brás para ele não existem bairros que valham a pena e, se no Carmo não reza, do convento reverencia as grossas pedras da parede calabouço: a ferros! a ferros! No Piques recosta-se ao paredão quando o impele o descanso e mira para onde o vértice do obelisco aponta, banha os pés na bica limpa boca e dentes, enxágua as axilas e, nas horas mortas aproveitando o medo das gentes, demorado lava-se pudico, pouco importa quão, frio ou quente esteja a água, ou o tempo. Não gosta de cheiro de gente, o seu, leva-o águas correntes. A ponta do obelisco no vértice do infinito.
TempoModerno segue andarilho entre as apressadas gentes, muitas pedras das ruas carregam a impressão de seus passos, nem sempre as mesmas pedras conquanto revolvidas para calço dos trilhos, o cheiro dos estrumes mistura-se com a gasolina os relinchos abafam-se nas explosões as ferraduras em trote ritmado nos paralelepípedos descompassam entre roncos e os cavalos desafastam-se para os motores com pressa, a taipa sucumbe à alvenaria as casas aos Palácios, para fora da vista as torres babel tão altas se agigantam que por vingança cairão sobre nossas cabeças de Deus as justificadas iras, vaticinam profetas homens e mulheres do passado século, TempoModerno atento tudo nota sempre sobre nada fala, civilizado aguarda na calçada o sinal do guarda, se a eletricidade toca o bonde nunca entrou num mas sabe do aperto do lado a lado incômodo passageiro fede anônimo, o estalo do chicote a desafinada buzina tilintar de sinos risos e falas, permanentemente presente clamar mendigo dos desvalidos, nunca esmolou se quer roupas pega-as quando esquecidas num varal ou postas fora a desoras entende como suas ali deixadas pelas criadas preguiçosas e, cuida no uso nunca acabe as próprias em casimira o paletó de ultrapassado corte e o amarrotado brim cáqui, cirze com agulha e linha tidas não se lembra desde quando, sem precisar de ninguém com ninguém conversa da própria voz não traz acústica memória, e não se sente solitário com tanta cidade ao derredor, conquanto jamais recebeu um abraço um afago e dele rápido desviam o olhar em pouso por acaso.
Subida a escada lateral ruma pela Boa Vista ao Triângulo, centro de sua circunscrita geografia. Lamenta de progresso é o aburacar das ruas abrir valas soerguer postes cruzados fios assentados trilhos, a cidade nunca pronta para uso cabal, derrubam-se igrejas alargam-se praças onde antes corredor é rua onde rua avenida cavucadas saídas em becos viaductos unem colinas porém, parecendo assim maior, cada vez menor em greis repartida, e tantas vezes mudou TempoModerno seus restritos trajetos tantas novidades barraram-lhe os novos caminhos.
Um mar de gente, expressão preferida de Gertrudes desde que conheceu de Santos o porto e além o mar, atropela-se desconhecida uma da outra; fixos nas lojas os caixeiros, nas mesmas esquinas os mesmos pedintes, varredores de estrumes atrás dos eqüinos, portanto com as lojas com as esquinas com os estrumes varridos confundidos, envelhecendo anônimos desaparecem um dia sem que se lhes sintam a falta como uma fachada pintada de novo uma parede derrubada o carro que passa se movido a burro se tem fumaça. Tudo isso pensaria, se com isso se ocupasse como se ocupa Gertrudes: passeia os pés pelas ruas imperturbável quanto se o molha a chuva ou suor pinga-lhe da testa.
E o Triângulo, se o percorre TempoModerno desocupado de notar mudanças será outra a feição de cada rua que compõe seus lados irregulares para quem às compras vai em religioso fervor, nada devemos a paris diz Gertrudes com orgulho para as luvas apertadas nos dedos grossos. Gertrudes sai às ruas com destino certo quando Vina, como é seu hábito, toma por uns dias ignorados rumos. O destino certo de Gertrudes são as lojas onde tudo apreça e nada compra: vestida nas roupas de Vina a ama-seca da Menina agora-moça sente-se feliz Julieta; mas se acredita a Menina que nada se sabe de sua vida, não há ponto obscuro nos enredos das vidas que para ela Gertrudes engendra dos miúdos conhecidos.
As lojas, abertas as portas delas emana o calor do comércio o apelo das compras, o curtido couro e graxa embelezam sapatos as polainas afinam traços o algodão do brim e brilho da seda acariciam corpos a casimira macia ao tacto basta ver para sentir quanto seria melhor viver neles confortados, reis e rainhas alvos de refinado trato senhores e senhoras entram nos sorrisos perfilados dos caixeiros prontos para servir pouco devemos a londres e suas galerias diz Gertrudes para o broche a brilhar no ufanado peito; nada disso atrai TempoModerno além de um passageiro olhar.
Passa TempoModerno, os dançantes passos uma gardênia na lapela, em Gertrudes não esbarra tal o asco lhe causaria o contato com as gentes em ninguém esbarra. Gertrudes lembra-se dele, que no Largo do Curro lançava à Florista olhar enamorado; e pronto volta a convicção de que outra não é a Florista de linda voz senão Minha Menina Vina disfarçada e, tenho certeza desde criança a fingir-se Muda para iludir Damastor, o Rico dos Cereais. A Menina, fora há três dias, quem sabe TempoModerno caminha para a Sé cair de fascínio por ela, em pobre Florista travestida. Com certeza, a certeza de minha intuição, mancomunada com algum mandrião pretende Vina que ele roube, sensibilizado pela cegueira da bela, o dinheiro necessário para a cirurgia. Vina, se me enganou um dia, esperta que sou muirto mais esperta teria de ser ela, não mais me engana quanto os anos em mim acumularam sabedoria.
Não vi, não preciso ver para ter certeza! Primeiro o atraíra a voz a oferecer gardênias, senhor senhora precursora da primavera; dos sons o mais lindo a voz humana, fora como se ouvisse pela vez primeira, ar modulado em melodia, inspira profundo para desde então nunca ter mais o mesmo ser. Não à gardênia dirigira o olhar, mas à branca tez sedosa coma, uma rosa pudica empresta-lhe cor às faces, os olhos impérvios à luz doces ao dia que os alumia; as plantas enfeitam-se com flores várias cores, as folhas esmaecem verdes em amarelo rendilhado ocre e assim os enfeites diversos cantam as belezas do universo, TempoModerno vê beleza pela vez primeira ao vê-la.
Pomo proibido é a Florista desejado mimo.
A Sé doravante paraíso e, se eram estreitas na cidade suas fronteiras, o infinito instalou-se num ponto do quadrado da praça.
Não desprega da calçada o olhar, experimentado à cata de toco de cigarro caça perdidos vinténs por algum descuidado e, lamentando os cobres vistos outrora desprezados por desnecessários, junta fortuna em réis para comprar uma gardênia. Fixa na lapela na lapela murcha mantém-se seca até se despetale.
Bela e cega. Ao reconhecer insensível às luzes da cidade os amendoados olhos, se compartiu a dor por ela, regozija não ser visto nos andrajos pobres assim entre as gentes tão rebaixada classe; presente dos céus! corajoso agora aproxima-se dela e mudo compra o perfume vago a falsa compleição da branca rosa, o direito de sonhar ser amado de sonhos alimentar-se, conhecer na insônia audaciosos devaneios, ser o corpo desejo de outro corpo; clareia o dia e ao largo da Sé corre para, em reservada distância, confiante na cegueira das apressadas gentes como sempre não ser visto nem por ela.
Mas nada escapa de Gertrudes, ávidolhar. Era sonho, sozinha, ir às compras no Triângulo Comercial, sem coragem de acordada lançar-se à aventura. Longe do Arouche, além da Barão atravessado o Chá. Uma senhora desacompanhada na europa da cidade. Atreveu-se quando brilhante iluminou-se a idéia de usar o broche, um cavalo de cara diamante olhos rubi crina esmeralda, na lapela do casaquinho. Melhor companhia não há, que uma jóia rara reforça a dignidade estampada em minhas feições gestos elegantes observações inteligentes. O casaquinho esconde os grandes alfinetes compensadores de sua cintura centímetros a mais na saia de Vina.
O Triângulo, se não é preciosa pedra estrangeira engastada na mesmice nacioanal: Au Printemps. Au Louvre. Au Palais Royal. La Pendule Suisse, La Grande Duchesse, coiffure. Ali não entraria, quão caro sairia seus cabelos duros em delicadas mãos: revelariam a origem humilde a custo ocultada. Mas não perdeu oportunidade de provar vestidos, luvas para todas as estações, jóias e relógios; o experimentar sai barato, o cavalo brilhante passaporte e montaria.
Maravilhou-se no Werbendoefer, impressionada com o forro de vidro por telhado o céu azul acima da cabeça tange rebanhos de nuvens sem ventos nos cabelos o gracioso chapéu de Vina firme permanecer enxuta se chovesse: atravessada a Galeria descortina-se a Boa Vista: desinteressada de ver paisagens, em Borboleta tão lindo o horizonte amplo tão estreita perspectiva da vida quer, de volta para a Quinze, extremo ousar no Grande Hotel de La Rotisserie Sportsman um demorado lunch comer entre trabalhadas vidrarias, estremece: O broche desapareceu! Tenho certeza, roubou-o TempoModerno, na intenção de pagar cirurgia para Vina pressuposto muda e agora por fingimento cega.
Prendam-no!
A pão e água metam-no a ferros.
Quando Gertrudes reencontrou o broche engastalhado nas dobras da roupa já era tarde: nas mãos de dois soldados a liberdade fugira dos pés de TempoModerno.


Arquivo 021 de Conto Romances
PaulinoTarraf

17*02*2007

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