<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588</id><updated>2012-02-16T01:52:51.224-08:00</updated><title type='text'>Paulino Tarraf Conto Romances</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>20</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-111780388271162084</id><published>2008-01-01T04:23:00.000-08:00</published><updated>2008-01-02T16:20:19.373-08:00</updated><title type='text'>Arquivo 09Nona</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Conto Romances Arquivo 09&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nona&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheço minhas gravatas e o nó que num laço faço. &lt;br /&gt;As mulheres, nenhum mistério para mim. Deploro que não haja algum. &lt;br /&gt;Minhas gravatas, seda pura. A ponta um pouco abaixo do umbigo. O nó. Casulo de precisão. Algodão que fosse; não está na seda pura o segredo do nó: na ponta de meus dedos, ágil virar, torcer, ajeitar, e o triângulo encastela-se preciosa gema na gola entreabertos lábios ao fundo oculto botão.&lt;br /&gt;As mulheres. Qualquer mistério. Haja um, e fico feliz. &lt;br /&gt;Nem na lua, mistérios há. Houve tempos de se olhar para ela, lua de baça luz halo prata acolchoada em nuvens, e cismar; abraços namorados; místico sonhar. Chamaram-na Rainha da noite, ingênua reinou; Senhora das marés, nos mares mirou-se. Prata e solitária distante num céu de breu; fria e majestosa envolta em manto estelar. A lua, ébria de poesia, ignorou ser do sol o luzir de seu luar. Um dia, homens, passearemos nela nossos astronautas pés. Nem lunático posso ser.&lt;br /&gt;Crédulas. Você e a lua, mulher.&lt;br /&gt;Nem misteriosa ela, nem você.&lt;br /&gt;Elisa. Atadas as mãos, mordaça, vejo-me em seus olhos de terror. &lt;br /&gt;Desato o nó. E no colarinho dobrado, estreito sulco, alisa-se a seda em vai-e-vem e a quentura adivinhada acaricia-me o pescoço e gosto do perfume que se desloca no ar dos movimentos meus. &lt;br /&gt;Mulher, mistério nenhum.&lt;br /&gt;Em lugar algum. Alhures o comum. &lt;br /&gt;Elisa, a mordaça, acaricia o silêncio o profundo de minha voz.&lt;br /&gt;Aguarda-nos Beethoven, núncio dos Elísios, morada do mistério. &lt;br /&gt;Ligo a victorola. O braço pousa mecânico, a agulha desce no sulco certo. 78 voltas por minuto jorram a sinfonia coral do Beethoven morto há século e tanto e se a esse surdo ouvimos agora é a eletricidade sem mistérios quem nos traz o som. Distorcido, embora. Quem garante ter sido assim outrora concebida quanto agora executada. A qual cantor barítono ou tenor devota você sua atenção e a qual soprano devoto eu e não ouvimos no mesmo tono, principalmente você inundada de tal Pavor.&lt;br /&gt;Ré menor.&lt;br /&gt;Ódio maior.&lt;br /&gt;À Alegria. &lt;br /&gt;Elisa. Se mistério inda algum persiste desvendo agora. Para Elisa. Mistério continuará para mim. &lt;br /&gt;Você crédula mas não eu. &lt;br /&gt;Gira Beethoven tuttipotente orquestral. &lt;br /&gt;A massa sonora freia seu frenesi. Címbalos tímpanos e tambor abrem parêntesis para o cantor que barítono ordena cessar todo antigo som: O Freunde, nicht diese Töne. E conclama os amigos, milhares de milhões, cantarem irmãos a Alegria. &lt;br /&gt;Não faço parte dessa confraternidade. Não eu, Elisa crédula.&lt;br /&gt;Heróis vitoriosos. Sob o manto estrelado todos flutuam irmãos nas suaves asas do maravilhoso. Crédula Elisa. Eu não. Orquestrados eles, a batuta vai Beethoven e os violinos indagam sutis em sibilante espiral suspensa nas cordas mais grossas, cellos e violas para o céu. Retesados os arcos disparam frechas metais tambores trovões e centenas de vozes agudas a despencar graves dos campos elísios gritando todos reunidos numa só alma orando numa única canção amigos em amizade, marido fiel da eterna mulher e logo mais Elisa seus gritos sua alma e a deles uma só.&lt;br /&gt;Alegria, Filha de Eliseu, Alegria. Esses seus olhos de susto nascem de mim. Nascem de minha fúria, Elisa, meu desamor.&lt;br /&gt;É num último sopro que a alma entra no mistério. E dele compartem outras almas, dadas as mãos esperam desatadas as suas, você num grito deixará o mistério só para mim. &lt;br /&gt;Eu comando os laços. E o momento certo decidem meus dedos ágeis espertos a virar e torcer os nós e seus apertos.&lt;br /&gt;Desfaço a mordaça sufoco que a impede de gritar. Mas somente no clímax orquestral coro de milhares de milhões de almas a conclamar por sua alma irmã, filha de Elísio, livre da mordaça agudo dó de peito gritará ascendente aos céus.&lt;br /&gt;Refaço o laço. &lt;br /&gt;Veja, Elisa, a ponta um pouco abaixo do umbigo. A seda sustem a beleza do nó. A maestria é da ponta de meus dedos. Veja a grandeza dos meus gestos, o volteio de minhas mãos e a seda sibila excitada por segundos excitada você, entre sustos não sabe ao certo se no círculo majestoso desse entra e saí um nó de perfeição retangular beijará entre os lábios do colarinho a delicadeza do botão. Confessa, Elisa, é magistral. &lt;br /&gt;Agradecidos seremos um para o outro nesse momento solene. &lt;br /&gt;Incrédulo, eu. &lt;br /&gt;De qualquer paixão. &lt;br /&gt;Sentimentos bons paralelas intenções. Desconfio do amoroso par. Sócios anônimos conjugam-se silenciosos no amoroso par. Eu, meus dedos, minhas mãos. &lt;br /&gt;A ponta um pouco abaixo do umbigo e reta move-se discreta à mais leve torção de meu dorso grácil cetim minhas mãos a sabedoria de meus dedos o nó. &lt;br /&gt;Crédula Elisa. &lt;br /&gt;Mulher, mistério. E você, crédula sempre, sempre ouviu e gostou de mistério ser. E ter: colo de cisne, em pele de alabastro, boca rubi dentes fieira de pérolas carnudos lábios sempre úmidos promessa de delícias e você acreditou ser mulher mistério de cabelos negros como a noite céu picado de diamantino pó descendente em caracóis cada curva um segredo anelado emoldurando insinuantes seios níveos que mal se adivinham sob a camisa de cambraia a descobrir umbigo centro do mundo que malmequer desvertebrado verme expulso desse círculo bem-aventurado onde eleitos cantam Alegria radiante brilho divino. &lt;br /&gt;Crédula Elisa. &lt;br /&gt;Ouça a música e goze a entrada passo a passo nesse Santuário morada do Senhor. &lt;br /&gt;Freude, schöner Götterfunken. &lt;br /&gt;Olhos de Terror. Custa-me crer que são esses os olhos que você devolve à minha fraternal intenção. &lt;br /&gt;Refaço a mordaça.&lt;br /&gt;Desfaço o nó.&lt;br /&gt;A gravata, de meu pescoço para o seu, alabastro cisne e meus dedos ágeis e sábios conhecem o nó de que essa seda é capaz. &lt;br /&gt;Os violinos indagam em pianíssimo suspenso. &lt;br /&gt;Esperemos que o coro esgoele Millionem no esboço orquestral e afrouxo a mordaça para que você grite também. &lt;br /&gt;Agora! &lt;br /&gt;Frenesi. &lt;br /&gt;Grita. Grita mais. Junta a sua à voz de crédulos milhares de milhões. &lt;br /&gt;Novamente o suspenso, amordaço novamente. &lt;br /&gt;Freude, schöner Götterfunken. &lt;br /&gt;Além das estrelas a morada do Senhor. &lt;br /&gt;Não vejo em seus olhos a felicidade radiante. &lt;br /&gt;Meu corpo nu junto ao seu. &lt;br /&gt;O nó corredio na alvura desse colo busca desfazer o mistério que mistério continuará em mim. &lt;br /&gt;Entre meus dedos abrem-se os campos elisianos, confino da Terra, planície do rio oceano. Morada dos deuses, regaço de heróis. É à força que verme entro e tomo posse. &lt;br /&gt;Crédula Elisa. &lt;br /&gt;Ouça a música e contorça o corpo em terror para o gozo meu. Eu, alijado de entre os homens de bem, mas o único para quem o mundo guarda dos mistérios apenas um. Eu sei a ilusão morna que mantém vivos esses heróis e meu gozo é viver no desprazer que todos negam ter. &lt;br /&gt;Se não desfaço a mordaça, apertado o laço, sem a liberdade de seus suspiros será pelas lágrimas o escorrer de sua alma. &lt;br /&gt;Elisa, Beethoven chega ao fim com seus enlevos musicais, mentiras em harmonia. Grandiloqüência suprestelar, é nossa vez, e agora uníssonos a seus desamordaçados gritos a dança circular garante coral sermos todos irmãos. &lt;br /&gt;O laço. &lt;br /&gt;Canta mais. &lt;br /&gt;Silente mistério. &lt;br /&gt;Desliza &lt;br /&gt;o nó.&lt;br /&gt;Há Deus, Elisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gertrudes acorda assustada, procura por Vina em seus pensamentos, limpa o suor filho do sonhoterror e, apressada, a porta do quarto descerrada no leito Vina, como sempre loira e linda, ressona o sono das almas gentis e puras: somente eu tenho em mim a morte para quem amo tanto, pergunta Gertrudes para Julieta decepcionada. &lt;br /&gt;Arquivo 001 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão 01/01/2008 &lt;br /&gt;Versões anteriores &lt;br /&gt;05/03/1999&lt;br /&gt;25/05/1993&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-111780388271162084?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/111780388271162084/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=111780388271162084' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/111780388271162084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/111780388271162084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2008/01/conto-romances-arquivo-09.html' title='Arquivo 09&lt;strong&gt;Nona&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-7983943962169820507</id><published>2007-12-01T12:25:00.001-08:00</published><updated>2007-12-09T03:00:00.378-08:00</updated><title type='text'>023 Aos pés das virgens. </title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 023 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos pés das virgens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Post partum, Virgo, inviolata permansisti. Dei genitrix, intercede pro nobis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Donata a grinalda virginal, o corpo estendidos braços como quem repousa em paz nos benefícios da oração, jaz Donata Santa em redoma de vidro e, particularmente ela, receberá a visita de Gertrudes hoje porque Vina, entregue ao sono reparador de sabeDeus qual trelosa aventura, não pretenderá outra escapada tão breve, presume a Ama por retorno da Menina nesta madrugada sem se preocupar em ser silenciosa: como sempre não dará satisfação de onde foi e nem pergunto mais cuidando de minhas coisas com o esmero de sempre que para isto fui contratada não por amor. E basta! Nem preciso me conte, da minha parte sei, sem ver. E pronto! &lt;br /&gt;Da soleira do palacete à esquerda ruma Gertrudes direto a Santa Cecília rever suas virgens Cecília orago, Luzia Inês Adelaide Catarina coadjuvantes virtudes fazem-lhe companhia, branco mármore olhos aos céus voltados em prece, para sempre, parece. &lt;br /&gt;De trem, diz Damastor no fluir do memorial em noite fria de junho vim de trem do interior: Aqui cheguei no alvor do século, sem saber, no mesmo dia em que Donata virgem mártir dos romanos pagãos chegaram seus santos ossos em relíquia oferecidos aos fiéis para veneração. Num vapor. Ela veio num vapor de Roma, doada pelo Santo Santo Padre Pio e no amparo do Arcebispo aconchegada em caixote, aqui chegaram em desarrumo vértebras costelas fêmures, e o que mais da ossatura pares e singulares compunham o arcabouço necessário para a envergadura à espera da cera ligá-los como se carne fosse. A caveira incluso, creio, veio também, faltos caninos e incisivos embora. Com a pompa religiosa de então fora feito traslado do Palácio Episcopal ao santuário das virgens, no qual São José, o Casto, ocupa honroso altar lateral destituído entanto de ser orago junto a Cecília, como no Império fora; apenas de vésperas Gertrudes soubera do traslado feito há décadas, narrativa de Damastor Belmonte em serão recheado de memórias. Autênticas, o quanto permite o tempo passado há tanto. &lt;br /&gt;Os ossos na cera plasmada em forma perfeita do corpo, andor de vidro, festivo féretro, ao traslado, quem assistiu jamais esqueceu, Damastor Belmonte esqueceria jamais o dia em que conheceu Jacintho batido de vento o cabelo em gomafix e sólida amizade erigida: a grandiosa procissão na lentidão do andar do povo praticante e devoto com lágrimas contrictas e no andor com entrelaçados lyrios e amaranthos Santa Cecília veio anfitriã buscar sua nova virgem, Santa Donata em Caixão Aberto solenemente carregada nos ombros fiéis para a derradeira morada, a cera feito branca neve não derrete no entardecer e nem do céu caiu a chuva por milagre sequer garoa, dele apenas a beleza das pétalas das desfeitas rosas em lenta queda sobre a multidão emocionada. Ao longe o Filho do Prefeito em companhia da Filha do Conde, de famílias cerealistas a ele por Jacintho apresentadas. &lt;br /&gt;Vai Gertrudes hoje para especial busca em Donata Santa: quando em plasta cera modelado teria o artista dado trato de refazer os relevos de minuciosa anatomia, pergunta ela às mãos de luvas desnudas, ou apenas recobriria o esqueleto de tecidos panos é dúvida sussurrada ao chapéu da aba curta, reservaria a plastia aos contornos da face expressividade das mãos, os pés dentro de sapatilhas bordadas, vai Gertrudes pensando com suas vestes simples na roupa melhor de Vina no armário recolhida, ela agora recolhida Julieta no armário, exposta Gertrudes mal vestida pelas ruas. &lt;br /&gt;Naquele dia do traslado começara Damastor Belmonte a firmar riqueza, milagre da santa testemunha no relato do serão arriçado de inverno, perto de sua orada fez morada reputa agradecido, neste bairro simples dos menos abastados; e lá esconder Vina dos olhos cúpidos rebate Gertrudes em pensamentos, mal sabe ele quem de quem esconde as peraltices, que hoje sei. &lt;br /&gt;Joanna dos Anjos entre suas arrudas não duvidava selados nos escritos superiores a encarnação de Malvina dar-se no exato dia da procissão e neste dia estar Damastor na Capital pela vez primeira reunirem-se seus destinos de cuidar Damastor da Menina como um pai cuidoso de uma filha, ele mesmo guiado pelas Elevadas Luzes conheceu os homens bem postos nos altos escalões sociais, filhos de condes e netos de barões duques da cidade, e Jacintho, novos caminhos para quem conhecia estreitas veredas quisesse mais e não sabia existentes; Raphael e Olga mais científicos tinham certeza das almas de Damastor e Vina terem encontro marcado nesta vida, porém desta mesma vida o percurso traçar-se na capacidade deles frente ao meio adverso lutarem para a redenção dos desvirtuados feitos do passado; novas oportunidades em virtuosas ações, os condes duques e barões se ajudaram Damastor Belmonte o esforço foi dele, de mais ninguém! &lt;br /&gt;Gertrudes pensa, com os calos rendimentos do sofrimento, ser a vida melhor gozada pelos astutos que dela tiram proveito, tortos sejam os caminhos firam os pedregulhos a sola dos pés as poças pocilgas respinguem ao acaso, tomem os viventes o atalho queiram tomar, a vida faz ela mesma roteiro a bel prazer transviada em trívios quadrívios torturas esburacadas abismos repentinos, os espertos aprendem e saem-se bem: eu por melhor aluna seja de nascença virgem até morrer. &lt;br /&gt;Divergem as doutas respostas quanto à reencarnação; se tanto há; havendo, dizem uns, dá-se imediatamente durante o ato fecundante, outros afirmam instalar-se o espírito escolhido no soltar-se o primeiro choro, entra oportunista pela dor do violento ar violar pulmões a claridade ferir os olhos. Assim quando pela vez primeira veio Damastor à Capital, era Vina recém-nada portanto, se tanto. &lt;br /&gt;Tímido pára num moquiço, próximo aluga-se quarto visto em papelão inscrito e, do Bom Retiro hóspede fica, vez primeira e última. Outras vindas e tive melhores albergues em requintada vizinhança, até construir casa própria aqui em Santa Cecília, por louvor à Santa sossegado bairro e uso prático de não ser perto mas não ser longe do que preciso aqui. Ofereceram as francesas lolas para seu corpo gigante a fragilidade aloirada do amor venéreo, recusadas por medo de a syphilis encurtar-lhe a vida que se prometia larga comprida afortunada. Não contou da recusa, sequer a oferta citou, mas entre chávenas de chá no arrepio da noite nada mais escondeu: &lt;br /&gt;Maravilhou-o a majestosa Cidade desde na Ferroviária ter apeado seus pouco viajados pés. A Luz frescor de inaugurada, beladama inglesa na forma e os regulares tijolos, acomoda sua elegantina arquitetura no vizinho jardim botânico, luz brilho intenso a refletir-se no nome de batismo, embora da Luz fosse o convento secular ao lado, no resfolego da locomotiva o céu tinge-se com a fumaça das fornalhas pela chaminé soprada obediente aos apitos de partida, turbilhão de faíscas arranco demorado, e vai! a macchina atrelados vagões de volta a unir as cidades e as serras, planícies e planaltos, plantios e virgem mata. &lt;br /&gt;Maravilhou-o a ronquidão do motor dos muitos carros na explosão da gasolina e as buzinas, variados altura e timbres, a jogar para a lateral das ruas as bestas atreladas às viaturas, nunca tantas e tão apressadas gentes indiferentes a quem indiferente por elas passam viu as temerosas gentes nas calçadas espremidas por um Fiat ou um Daimler potentes a virar numa esquina dezenas de cavalos, inusitada força filha do século a raiar. Monsieur Dumont conductor com enormes vidros a proteger-lhe óculos, noutro as mãos enluvadas na direção o Filho do Prefeito sporthista, cônjuge da Filha do Conde que paris conhece e reverencia. Ou conductores fossem os abonados filhos famílias dos donos das Indústrias nascentes na república adolescente. É a civilização, disse-lhe Jacintho quando apresentados percorriam a pé o Trianon de cercas altas, a cidade veremos ao longe daqui de cima do Espigão: céu e terra proclamam a modernidade: no céu o emaranhado dos fios carregados com o conforto da electricidade domada, o telephone redutor de léguas aproxima vozes no arrulhar amante no vocíferar desafeto, o telegrapho tictacqueia a rússia na manhã de frescas notícias, a radiophonia faz do jazz o bailar universal de nossos pés, o phonographo aprisiona o som que antes desordenado ao vento agora é simphonia a desgustar-se repousado nas salas não de concerto mas no prosaico lar: no subsolo gazes e fezes escorrem por esconsos canos, o progresso conduzido em ordem como positivos encaramos agigantar-se o mundo. &lt;br /&gt;Maravilhou-o a procissão. O andor caixão balouça e nele os ossos de Donata Santa, entre o orfeão de desencontradas vozes uma irreverência desviara a atenção de Damastor para um senhor vestido no rigor da elegância: se o Matte Real é saboroso o Bromil cura tosse, que remédios trará esta Milagrosa ao corpo roto dos aflitos. A um dado mal o certeiro produto. No mister em que a Igreja em passos de gigante Milenar pratica: um santo para cada anseio clamam cruzes tangem sinos pelos ares; o Comércio engatinha: nos bondes circula nas paredes ostenta nos tetos impressos anúncios prometem curas da indústria advindas; no caminho certo ela vai, entanto é parca a eficiência ainda. Muito prazer, Jacintho seu criado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A banda ataca: &lt;br /&gt;Viva o Papa &lt;br /&gt;Deus o proteja &lt;br /&gt;O Pastor da SantIgreja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Palácio Episcopal arde-se em luminárias, bandeiras ao vento, fitas verdes entre laçadas amarelas e a banda no repique das caixas, trombones contrapõem fagotes, estridentes clarins atacam surdos a bumbar, sob o pálio paramentado o Arcebispo protege ao peito o ostensório envolto em xailemanta, os Marianos vestem azul as filhas de Maria branco virginal, os velhos dos sagrados corações de Jesus cercado de espinhos da Virgem trespassado por espada ambos a sangrar caminham decididos a morrer por Vosso amor; e o povo a uma voz fiel repetia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viva o Papa &lt;br /&gt;Deus o proteja &lt;br /&gt;O Pastor da SantIgreja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a cruzada infantil de meias trêsquartos o cabelo ao meio repartido dispostos a lutar contra o Infiel, em fila vela acesa humilde cortejo afiança estar o divino entre nós. &lt;br /&gt;O Filho do Prefeito exímio porte phísico, sporthista na roupa descontraído colete polainas brancas gravata plastrão de braço conjugado com a Filha do Conde, mangas bufantes beija o chão discreta saia a rodar a sombrinha colorida seda no céu, enxuga uma lágrima emotiva discrição de elegância ela, que paris a conhece reverente, curva-se à singeleza da Santa pelo Papa doada. &lt;br /&gt;Em lentipassos pela São Luiz ruela nova seguem Santa Donata em adamascado caixão desordenados, mas cordeiros, os mais simples de mãos estendidas buscam tocar as fitas que do andor pendependem; ciosos do melhoramento da vida nesta vida e, se não! ao menos, ganharem paraíso no eterno colo paterno, quando levados forem pela beatrix virgem martirizada em Roma hóspede nossa, anseio do povo carregado de temor, o temor! não o amor transforma homens em crentes, diz Jacintho sem cavo na voz. &lt;br /&gt;Os fogos, chispas e fumaças odor de pólvora ardentes velas, estrondos e uníssonos cantos, o caixão contorna a Praça da República, refeita adornada com lagunas pontes jardim sem grades como queria o Prefeito Prado afim a usasse o povo por coisa pública, e desce pelo Arouche largo e rua, ruelas transpostas praça à vista o campanário clama alvíssaras, as Virgens da Igreja abrem o átrio desdobradas portas à santa novata: duas dezenas de anos depois entra Gertrudes, contrariada por não poder andar de passeio pelo Triângulo vestida de Julieta, consolada de entre as virgens proclamar-se mártir também da voluntariedade de Malvina, sua má-menina. &lt;br /&gt;Dezenas passadas Santa Donata, o olho de vidro desorbita contra a pálida cera que premida cede, num canto à esquerda de soslaio vígil, anônima entre as cinco virgens majestades em branco mármore esculpidas &lt;br /&gt;Ignês Luzia Adelaide Catarina &lt;br /&gt;cercas gentis &lt;br /&gt;invioladas damas &lt;br /&gt;de honra &lt;br /&gt;pareiam Cecília. &lt;br /&gt;Música em simphonia poliphonicos jograis recitadas odes ritmados passos, Cecília ao centro reina-mor no altar principal. &lt;br /&gt;Nas paredes à volta, feito tapeçaria mas em óleo sobre tela, pinturas contam história de martírios: o casamento que não se consuma no degradado ato carnal recebendo do ArcAnjo entrelaçados lírios e amaranthos. O marido, pagão convertido, propõe-se casto como casto se resignara Sanctus Joseph permanecer por mais estonteante fosse a beleza da virgem. &lt;br /&gt;Esculpido bronze da cor do damasco adelgaça o sangrento da narrativa. &lt;br /&gt;Consentido martírio. Ao chão jaz Cecília, a degola interrompida pela mão trêmula do verdugo em repentina piedade, sangra três dias abandonada na masmorra, os dedos unidos indicador médio e anular testemunham a trindade divina, crença cristã entre desalmados pagãos de muitos deuses. &lt;br /&gt;Gertrudes ajoelha-se mas não reza. &lt;br /&gt;O chão coalhado de vermelho vivo a circundar o bronze esverdeado: só poderia ter sido assim se, por três dias, fabricasse aquele corpo tanta vida quanto a luta contra a morte requeria. Dar o sangue. Diziam os colonos da Borboleta, ao limparem o suor da testa escorrido e novamente orvalhado por entre pó da terra e carvão da fumiflamante queimada de abril outonal a tórrido dezembro para a cana, o podão em punho. Derrubar a mata até então inviolada não importa qual mês registre a folhinha, a cinza aduba garantem os mais velhos que no solo virgem faz-se o carvão forragem para o plantio, revirar a terra lançar a semente enquanto aguarda capinar: o algodão promete próspera safra e o café de sete anos de espera cercado de fogo contra a fria geada de certeiro ataque. Damastor vem buscar para benefício a colheita bruta. Do porto de Santos, o mercado estrangeiro é mar singrado a vapor. &lt;br /&gt;No dia em que Damastor veio, milho para pamonha leite para manjar é festa quando Damastor vem, a rês abatida para churrasco, ninguém sabia que no corpo protegido um feto na placenta umbilicado vingava lento. Soubesse alguém, calara-se. Gertrudes vira, a novilha núbil pelo touro montada, se contasse descobririam o que no pasto fazia escondida entre touças. &lt;br /&gt;Cafre! disse Abadiah, os rasgados olhos fechados em horror. Não quero ver! a boca de grandes risadas. &lt;br /&gt;Gertrudes viu. Vida, peso que mata. Sobre o corpo da novilha o touro jogara-se bruto destemperado. O martelo agora desce forte sobre a nuca, a rês desaba. Rápido o cutelo rompe as veias do pescoço, a rês por muito tempo resiste de morrer, na poça as patas mexem-se em vão, o corpo treme, coágulos. Aberto o ventre, para um lado o intestino pleno de verdes, para o outro o feto arremedo das formas que jamais terá; o corpo rosa transparente, olhos fechados globos azuis, o coração mudo. &lt;br /&gt;A pão e água, masmorra! sem som a boca déspota sela o destino do plebeu. Encantados, os olhos projetados na tela coalhada de luz em viva narrativa, o povo do lugar ri e chora conforme no nada drama e comédia em contraponto mentem verdades; Gertrudes, atenta a quantas direções pudessem olhos e ouvidos alcançar, viu e ouviu de Damastor achegar-se com a proposta indecorosa a resposta honrosa de Abadiah que, enquanto mulher de Alberto, contudo, não será de outro homem seu corpo intacto. &lt;br /&gt;Acreditei, então, ser a recusa oferta de fruto proibido, à dificultosa colheita mais apetitoso se pronuncia. Ela calcula para Alberto morte em breve, essa minha crença! &lt;br /&gt;Nunca entendeu Gertrudes com tal clareza por que se recusaria Abadiah a alguém como Damastor, homem da phísica sporthista, jovem belo promissor. Quando o sexo se aquece, não há quem seja feio ou aborrecido lampejados todos por um amor passageiro feito a própria chama, seguida das cinzas do arrependimento. Não se prometera virgem nem para os céus em pressupostas leis ou dos homens quisesse as pretendidas condutas seguir, sequer se reservasse como eu por horror não me entregue enojada embora carregado o corpo de desejo, por feia ou desajeitada nunca seria recusada que era mulher de airoso andar das perfeitas pernas a passear formoso rosto, nos seus rastros profunda admiração e respeito carreava: foi devota do amor. Contudo. &lt;br /&gt;Na época julgara que, à recusa, na intimidade seguisse total entrega ao despudor: enganei-me em minhas malícias. Inteirei-me dos pormenores mais condizentes aos fatos no leito de morte de Abadiah, a quem ouvi como se confessa alguém na hora extrema. Alberto era o motivo, contudo!; e não me arrependi sussurrou ela entre os estertores. Eu, que duvidei, aqui de joelhos me arrependo. &lt;br /&gt;Não era capaz de magicar Abadiah tão contida quem a visse, respostas curtas entre risos cortadas, olhar de brilho rápido boca úmida de ter a presa sempre à espreita para as saciedades impossíveis, os desenvoltos gestos os passos firmes, ir e vir a notável Abadiah, presença requisitada, ausência lamentada. O fogo rege seus atos, como entender a contenção em meio a tantas labaredas. &lt;br /&gt;Contudo Abadia, corpo e alma a Alberto pertencentes. &lt;br /&gt;Porta aberta entram, homens e mulheres fiéis solitários apartados na mesma solidão, cada um à sua maneira órfãos da cidade, buscam acostamento no manto da misericórdia, lento andar desenham a cruz no corpo encolhidos entre as subidas colunas gigantes, uma noutra solidárias testemunhas vermelhas da fé abafam nas alturas os passos e qualquer ruído, houvesse algum, como se oração fosse o suspiro o soluço o gemido os sussurros sem som os lábios em mudo movimento reproduzem a prece em clausura no peito em desalento. As cordoalhas do coração agigantam-se no interior infinito do átrio e, se antes para tão pequeno cavo imensa dor, amansa-se o fervilhar inquieto da vida na certeza de ser curto o sofrimento quanto curta a mesma vida frente ao eterno repouso, promessa contida nos santos a contemplar dos grandes altares a pequenez humana. &lt;br /&gt;Nunca acreditei no amor de Abadiah por Alberto, eu que nunca acreditei no amor. Era para acreditar, voz corrente do povo nunca ter visto feição de desvelo abnegado quanto em Abadiah no dia-a-dia presente. Nada a ver com amor, penso sem conseguir refutar-me, parente próximo do interesse ou parecer orgulhoso de reconhecimento público de estremada bondade. Abadiah, jamais vi em sua boca articularem-se os lábios, conquanto aos olhos sempre quentes, para falar amor fora da frieza de sons convenientes a uma narrativa, palavra presa entre outras num relato bebido pelos ouvintes como maná de uma deusa advindo. Se fala Damastor, amor, é vocábulo sublinhado em cavo profundo, distinto em cores vivas traços firmes. Quando falava Alberto, ainda sadio a bela voz pelo quintal ecoada, a quentura do amor e o hálito saiam do mesmo peito. Também neles nunca acreditei, os homens, culpa deles o mal do mundo sejam os cabeças na pátria sejam reis do lar, o mando não os abandona do berço ao túmulo em proteção disfarçado. &lt;br /&gt;Mas Abadiah cuidou fiel de Alberto, caído em doença desde as bodas comemoradas por todo arraial e, com melhoras festejadas como cura e recaídas tidas como desengano médico, ela reconhecida viúva para novamente ser mulher dele até a seguinte piora. Pelo povo apreensivo das pioras as festejadas melhoras: de Abadiah porém, confesso minhas santas, sempre duvidei por onde as festas e os sobressaltos andariam, se entre melhoras se entre pioras. Contudo Damastor não conseguiu dela aquilo que um homem quer de uma mulher, nem que tenha de casar. &lt;br /&gt;Damastor, quanto Abadiah, bem-vindo o falecimento conductor de novos festejos de casamento. Damastor dizia saber esperar, não teria feito fortuna sem confiança no tempo passando trazer consigo novas realizações, basta não dormir no aguardo de que do céu caiam benesses. Confirmado por Jacintho: pessoas há que convertem os minutos em diminutivo acreditando com isso compactar os ponteiros do relógio; outros colocam o tempo no superlativo, com isso magicam dilatar seu decorrer. Eu dou ao tempo a nobreza de minhas ações. Eu também, completa Damastor. &lt;br /&gt;Tanto que conheceu, na alta sociedade, mulher de fino aparato parcas prendas domésticas mas que paris conhece de photos e colunas sociais presente na moda seu bom gosto para modernidades, uma das primeiras a abandonar as anquinhas e dar às saias centímetros a menos ao calcanhar, maneiras comedidas e sereno riso na propriedade das situações, Damastor seguro de ter a fortuna acrescida e não os beijos de Abadiah o que na vida almejava dando ao tempo seus devidos passos, aconselha-se com Jacintho quanto a casar-se: &lt;br /&gt;Um casamento será melhor afortunado quanto maior as posses das famílias unidas; se não puder como eu permanecer solteiro e bem servido, eu diria que uma mulher sempre ajuda. &lt;br /&gt;Desinteressada de Donata, desgosta-a a pose de morta a fragilidade da cera a corromper-se qual carne aos vermes dada, Gertrudes mantém-se de joelhos junto ao bronze de Cecília como quem reza. &lt;br /&gt;Sou mulher séria e prática, quem magica quem devaneia, imagina pensativa supõe e acredita, cisma e teima quimeriza e sonha, não é comigo tais perdas de tempo: eu só tenho certezas, só acredito no que vejo, e pronto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 023 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;Versão de 07/12/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versões anteriores &lt;br /&gt;05/112/007 &lt;br /&gt;Original de 19/06/2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-7983943962169820507?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/7983943962169820507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=7983943962169820507' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/7983943962169820507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/7983943962169820507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/023-aos-ps-das-virgens.html' title='023 &lt;strong&gt;Aos pés das virgens. &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-7796840521029177323</id><published>2007-12-01T12:22:00.000-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:38.882-08:00</updated><title type='text'>01 Raphael, Olga, seus amores </title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1Xhj15iNrI/AAAAAAAAAFI/Ire1tUuuTZI/s1600-h/olga-v01.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1Xhj15iNrI/AAAAAAAAAFI/Ire1tUuuTZI/s400/olga-v01.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5140262555593356978" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conto Romances Arquivo 01 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Raphael, Olga, seus amores &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raphael, Olga e seus amores cinco descerem pela calçada, eles ternos de esmerado corte tecido de refinado têxtil, ela o esvoaçante vestido na graça do vento, somente em dia muito especial. &lt;br /&gt;Hoje deserta rua, cães vadios amolador de facas vendedor de vassouras raros aqui ali um transeunte, habitual segunda-feira, dia corrido nas rotinas s’esvazia. &lt;br /&gt;Pela calçada a falta de pressa do vendeiro de alface passa, para a rua abre-se a porta verde da alfaiataria, dentro roda a sempre cadenciada vida. Alfaiate na alfaiataria silencioso chuleia e cirze solitário Raphael. Alfaiate sim, mas alfaiataria é nome comprido demais para a estreita fachada e pequeno cômodo de porta entrada única. O Capriccio Italiano na electrola gira, é uma Victor!, sons de doces harmonias, incansáveis pedais o ruidoso rolimãs feito matracas faz cantar a machina de costura, é uma Singer! Ao fundo dois degraus, empós outra porta leva ao umbral da casa. Além, o breu. &lt;br /&gt;Rapahel, afinados ouvidos, no meio da bulha distingue chamado em silvo agudo vindo do fundo: &lt;br /&gt;Sim, Olga!, responde ele ao silvo, a língua no céu da boca alonga a sílaba inicial em Olga. &lt;br /&gt;Alfaiataria, da casa enorme Raphael ficara com a sobra, concessão no corredor de passagem da rua abriga o necessário ao ofício. Prateleira das variadas casimiras da parede pende, guarda-roupa reformado é armário com gavetas para utensílios, antiga mesa é balcão para corte do pano, o cômodo embora estreito acomoda-se a tudo além de, um manequim de provas em alpaca envolto feito saio, face de esbatido rosa os olhos vesgos num ponto fixo; uma victrola não mais de manivela moderna electrola disputa a primazia com a macchina de costura moderna de pedal com rolamento e roldana, não mais manual; a macchina enquanto feroz a sua agulha cose canta canto rival da victrola a girar um disco sonoro ao suave toque da agulha. Movimentos em cadência de Raphael. Algumas cadeiras, para a prosa de visitas, acomodam os mesmos de sempre que à tarde virão. No estreito corredor cabem todos, feito bondoso coração. &lt;br /&gt;Raphael alfaiate, qual numa entretela metido por enruste, de pé atrás do balcão vinca a unha na fazenda preta gola e losango da lapela, risca de giz azul cavalo da calça e cós, recorta tesoura majestosa da manga o cavo; o manequim companheiro, olhos vesgos de jabuticaba verde ainda, vestidos paletós em alinhavos casimira ou linho, recolhe surdo os espaçados suspiros de Raphael em coro com o clarim do Capriccio. Raphael, nem tanto só quando companheiro pelas várias alfaiatarias tem-no seguido o manequim, seu desde antes da guerra englobar o mundo. &lt;br /&gt;Alpaca linho e percal aguardam no balcão risco e corte. &lt;br /&gt;Nem tudo entretelas, nem só o silêncio do chuleio ou o cantarolar esparso do vazio das horas. Seleção matinal meticulosa do fundo musical é o prazer de Raphael compor a ordem das melodias, entre quatro paredes abrir a trilha sonora no tempo e no mundo, várias pátrias variadas épocas: Capriccio italiano entre todos principal, Bolerô de Ravel é passagem, pour La Mer de Trenet vis-a-vis La Mer de Debussy, para a Doce França ao ritmo de La Valse, Ravel de novo convida à dança; modernas gaulesas castanholam sedutoras habaneras feito hespagnolas fossem orquestradas por Bizet; de Verdi triunfal Aida conduz Raphael a falsos orientes onde nascente o sol ilumina a Butterfly de Puccini senhor de sua sina desditosa por ele escrita; hóstias negras de rebrilhante vinil, acariciadas na casimira, aguardam em pilha a vez de rodar no prato giratório, oferenda solene entre os dedos de Raphael sacerdotal. &lt;br /&gt;Giram, companheiros de Raphael. Roldanas e rolamentos no canglor do afã diário. Doçuras musicais. &lt;br /&gt;Cantarola junto, se não assobia um tom abaixo, sempre no compasso, deformada melodia. O Capriccio Italiano, bisado durante o dia, faz parte da história de minha vida repisa sussurrado ao manequim imóvel, que vesgos olhos pousa no tempo desbotado embora, também ele parte repassada da vida. Tantos anos corridos na pressa da ampulheta juntaram amigos e pó. &lt;br /&gt;Raphael feliz. &lt;br /&gt;Agulhas e sons. &lt;br /&gt;O pé no pedal. &lt;br /&gt;De música em música, assim caminha o principal do dia, tesoura no corte ou agulha no cerzido, macio silêncio, só a música imperial. &lt;br /&gt;Acionado o pedal a macchina primadonna introduz, cantora, profana cadência. Percalços para Raphael. A agulha guilhotina o som da agulha rival. &lt;br /&gt;Sua alma, sua palma; diz Raphael, a língua palatal. Se em Olga delonga o ol, gosta de palavras qual alfinete alma espiritual álcool algodoal, nelas a consonantal alvéolo-dental alcança o céu da boca, dito cel bucal, pela língua demoradamente acariciado, como anotara Benedito Rui no rascunho de sua biografia. &lt;br /&gt;Sua alma; e num gesto o dorso da mão direita escorrega a palma da esquerda. Sua palma, era o dorso da esquerda a escorregar a palma da direita. Explica: a alma transparece na palma da mão, o íntimo exposto ao mundo. &lt;br /&gt;Alfaiataria, aqui reina Raphael. Entretela rua e casa. Casa dentro, Olga imperial. Larga em desmedido comprimento. Muitos cômodos. Verdejante quintal. &lt;br /&gt;Luminoso divisor alfaiataria barra, com seus móveis manequins panos victrola e combinados sons, pedal de costura canto solo coral metais quatro cordas piano trio de câmara tutti sinfônico orquestral, a sala em breu. &lt;br /&gt;Isola, nem tanto. &lt;br /&gt;Vizinhos tudo sabem. Se não sabem, sabem a modo vizinho do visível para além das conhecidas dimensões, a oressa que dos corpos sopra e, traz da alma à palma, não só ahúra-masda também coscorão das vidas passadas. E a alma acaba por revelar-se na palma quanto maior seja a barragem entre estas dimensões. &lt;br /&gt;Mais velados os sentidos, mais se aplicam vizinhos no transe das intuições. &lt;br /&gt;Pespontam entremeios nos enredos. Ao cotidiano costuram numa trama épica, revestidos banal e eventual de esplendor, corrigidos no ajuste do cós à amplidão do olhar. Um viso vislumbre indistinto sinal um leve murmúrio fortuito rumor, apuram audição de felinos noturnos aguçam de lince o penetrante sondar e pronto, faz-se platéia permanente do mundo, assíduos, argutos, persistentes. Ocultos nas brechas do lar. Transeuntes eventuais. Vizinhos janelas do saber. &lt;br /&gt;Raro Olga dar-se à vista; quando vista não parece sofrida no algoz de mulher brilhar, na força do escovão palha de aço querosene e cera, o piso; assim como servir almoço e janta. &lt;br /&gt;Mercadinho, venda, farmácia, açougue e padaria jamais receberam de Olga a presença. Fogão, vassoura, tanque, pia, sabão, não macularam a graça de suas mãos. &lt;br /&gt;Ao silvo de Olga: &lt;br /&gt;Sim; molemodula Raphael para o breu voltado. &lt;br /&gt;A voz soprano alteia demorado el: Raphael! &lt;br /&gt;E Olga dá-se à vista. Surge aparição na lâmina aberta sobre o degrau da porta repentino corpo, luminal no breu, um braço acima da cabeça apóia do indicador a unha postiça e vermelha no verde batente, a axila expõe-se azulina sob ombros desnudos pelo decote e outro braço em alça espalma a mão nos quadris envoltos na saia ramada de cintura baixa e pregas largas. &lt;br /&gt;Cabelos curtos presos rentes, ramonas grandes feito pentes e pretas: &lt;br /&gt;: Raphael!, queixo elevado pescoço sem dobras, a quente voz chama. &lt;br /&gt;No rosto untuoso do creme facial as sobrancelhas arcam marrons em risca de lápis: &lt;br /&gt;: Raphael!, cera egípcia no buço, a sussurrada voz. &lt;br /&gt;Repentina Olga, e linda. &lt;br /&gt;: Raphael!, repentino desaparecida chama. &lt;br /&gt;Desaparece para além da alfaiataria, além da sala escura; estética e plástica, brilha Olga entre cristais. &lt;br /&gt;Um dos aposentos, acomodou-o em espelho: paredes e teto, um forro de reflexos. Olga multiplicadamente ali. &lt;br /&gt;A ginástica inicia no espreguiçar-se gracioso alongamento de braços pernas pescoço, cauteloso virar-se inteira para não criar pregas, minucioso trato boca testa pálpebras. O sorriso leve aos lábios não vinca aos olhos sequer ou sulca a testa. Corpo cuidado no dia-a-dia. &lt;br /&gt;Cintura firmes carnes dosadas medidas: umbigo redondil, as coxas, meu orgulho, diria o poeta colunas matemática perfeita do escultor para divinal estátua sustentar. &lt;br /&gt;Glicerina para o coscoro no calcanhar, liso e sedoso ao tato e olhar, umectantes de base uva e as unhas fortificadas em iodo e limão, o esmalte a pincel toque de pintor. Meus pés, meu mimo: graciosos e fortes para os saltos enormemente altos, sapatos abertos em despudor. &lt;br /&gt;O banho imersão em leite de cabra tépido, tonificante lassidão para o suado esforço de estirar, contrair, relaxar. Bórica em algodão embebe o descanso das pálpebras. &lt;br /&gt;Linda!, confirma no espelho o escravo olhar. &lt;br /&gt;Então o café matinal: &lt;br /&gt;Raphael! &lt;br /&gt;Apenas por ele sensível ouvido: &lt;br /&gt;Sim! Moduladamentemole. &lt;br /&gt;É hora! &lt;br /&gt;Raphael silva e da rua o Rapaz da Marmita e Recados corre sentar-se, guardião da alfaiataria, frente ao manequim. Proibido de entrar na casa, se entra não passa do escurobreu. &lt;br /&gt;E nos pomposos acordes iniciais, de Strauss ou von Suppé, Raphael galga os dois degraus para a sala oculta em trevas. Cheiro de café e torrada; e nos acordes finais volta o Rapaz para as bolinhas de vidro, Raphael a sentar-se aciona o pedal e a macchina da capo canta. Brilho da casimira em outra gravação, repouso de Olga. &lt;br /&gt;Um sono leve prepara-a para o almoço de carne magra, folhas verdes e coalhada no meio do dia. O pepino reserva-se para creme facial, fórmula psicografada por meus guias espirituais nem o farmacêutico decifra pois vende, dos componentes básicos, alguns. &lt;br /&gt;: Raphael! &lt;br /&gt;Meio-dia de plena-luz: &lt;br /&gt;Sim; melomodula Raphael. &lt;br /&gt;A agulha espetada e descalço o dedal, descruza as pernas devagar enquanto repousa a casimira na macchina calada e sobre ela os óculos. Dois degraus acima sobe e some no breu. Volta logo e silva. O silvo agudo arranca da molecada da rua o Rapaz da Marmita e Recado, que correndo vem e recebe ordens enérgicas. Obediente sai. Busca na casa da esquina do quarteirão de baixo a Marmita. &lt;br /&gt;De volta posta-se Guardião da Alfaiataria, olhos nos olhos do manequim, vesgo semblante plácido sorriso alegre e colorido, paletó alinhavo branco sem mangas. Raphael espeta a agulha, descalça o dedal, descruza as pernas, repousa o óculos, galga os degraus e some no breu da sala escura. Cheiro de bife e alouradas cebolas. &lt;br /&gt;Silêncio. O vesgo do manequim nos olhos sonolentos do Rapaz. &lt;br /&gt;Olhos do Rapaz nos vesgos do manequim, Silêncio musical, almoça Raphael na solidão de alfaiate, entreaberta a porta para o breu. &lt;br /&gt;Retorna Raphael. &lt;br /&gt;E o pedal, sonora macchina e agulhas sonora victrola. &lt;br /&gt;Bela tarde. Acordeom ou bandoneon, depende de Olga saudosa, cantam estribilhistas Acuña-DelCarrill a Meia Luz canta La Môme o Amor. Mudo escuta Raphael. &lt;br /&gt;A depilação é meticulosa. Não sobram pêlos na sobrancelha. No rosto o lápis arca um marrão maior. As axilas, melhor expostas por não terem dobra nenhuma, azuis. &lt;br /&gt;Aos cabelos cuidado menor. Às perucas, paixão de Olga, maior. E num quarto acomodaram-se prateleiras, mostruários de calvas em porcelana as justapostas cabeleiras de variadas cores e tamanhos a receberem escova e trato como animais de estimação. &lt;br /&gt;Três horas! &lt;br /&gt;Silvo. &lt;br /&gt;Rapaz larga o balança-caixão com a molecada e, olhos nos olhos do manequim vesgo, guarda a alfaiataria vazia, o café perfuma. &lt;br /&gt;Verdi ou Puccini. Traviata ou Bohème. Wagner, eventual, só aos sábados, matinal. &lt;br /&gt;Hoje Rossini, e o fortunadíssimo Barbeiro da alfaiataria uma alegre Sevilha faz. Raphael feliz. &lt;br /&gt;Pérolas, prata, ouro, esmeraldas, brilhantes, rubi: colares, brincos, pulseiras e broches são todos jóias verdadeiras que dentro do espelho Olga combina-os entre si, nua ou vestida com a recente remessa de modistas da Capital. &lt;br /&gt;Crocodilo, antílope, camurça, leopardo, vitela, porco, vicunha, marta e zibelina: cintos, bolsas, sapatos, casacos e estolas. Cômodos no quarto do couro. &lt;br /&gt;Tarde da tarde. Olga apronta-se bela para a noite.&lt;br /&gt;Seis! &lt;br /&gt;Gounot destempera o cravo de Bach. &lt;br /&gt;E, nos rádios vizinhos em uníssono coral, Gabriel Aracangelus saúda Maria. &lt;br /&gt;Até amanhã, seu Raphael. &lt;br /&gt;Se Deus quiser, meu Rapaz. Seja pontual. &lt;br /&gt;O Rapaz desaparece na esquina, de rádio em rádio Ave Maria, som parado no ar. &lt;br /&gt;Raphael cantarola em falsete com o tenor. &lt;br /&gt;O Anjo do Senhor anunciou a Maria, prega em voz solene o locutor. &lt;br /&gt;Allankardecista e como tal espiritualista cordial e caridoso, tem suas ressalvas para com a oração e adoração. Somente a ação acalma a dor, restringe Raphael. Atrás da macchina uma estampa adorna a parede. Robusta mão arranca a dor da palavra Adoração, em minúscula dourada. Abaixo um dístico encarnado: A dor será tirada pela ação. Raphael discorreria horas sobre isso. Mas impossível ficar insensível à audição da saudação do tenor Gabriel mesmo com o cravo soando harpa. &lt;br /&gt;Sou incorrigível romântico, ressalta Raphael. &lt;br /&gt;Entretanto a entreteia. &lt;br /&gt;Eles começam a chegar, os Três. Despontam na esquina. De gravata e paletó, de colete xadrez apenas um. Às vezes juntos, quiçá separados; dois primeiro e o outro após. Passo lento na fresca da tarde engolida pelo olhar entretido dos vizinhos. Nunca faltam, os Vizinhos. Nem os Três. &lt;br /&gt;Uma lâmina da porta fechada. &lt;br /&gt;Entram um a um, ou juntos os Três, sentam-se magros ao redor do manequim. Um deles mulato claro. Outro pálido magro. O mais novo, a pele creme, o colete xadrez a camisa de meia e três botões, o bigode tinto avermelha a boca. &lt;br /&gt;Radialistas, jornalistas, convictos allankardecistas conversam muito, do jornal ao espiritual. &lt;br /&gt;Surgem os Vizinhos, sorrateiros. Vultos moderam o andamento quando fronteiros à porta. Os olhos de viés, no vão aberto verde têm por entretenga adivinhar o passado além. &lt;br /&gt;Vêem o manequim desnudo e Raphael, dedal no indicador, alfinetar alfaiate o paletó no mais robusto, de bigode tinto cabelos de negro pó retirado o colete. &lt;br /&gt;Ouvem Raphael espiritualista alinhavar metafísica enquanto faz alterações na pala, vestido o manequim; um terceiro some pela escada escuro adentro. Para um passe: &lt;br /&gt;Crêem; olhos malícias, ouvidos sátiros, língua mordaz; variações em tom menor para um tema singular. &lt;br /&gt;Uma valsa vai, uma sôfrega polka inda, e some com os outros dois a escada para as luzes; concerto ligeiro a várias mãos, acordam ao final os Vizinhos. Palmas. &lt;br /&gt;Geme o acordeon une chanson française, qualquer chose de rendez-nous nesta noite mon amour. &lt;br /&gt;Raphael dobra os panos, encapa os discos, fecha a macchina, guarda a tesoura, agulhas, linhas, giz, alfinetes e dedal. &lt;br /&gt;Permanece mais um pouco, até o escuro aprumar ortóptico os olhos do manequim. E Raphael completa o verde da porta que falta. &lt;br /&gt;Somem os vizinhos. A Hora do Brasil toma conta do ar. O escuro conta da cidade. Os cochichos dos seroens. &lt;br /&gt;Fala-se em sessão espírita; os cinco de mãos dadas sobre a mesa branca Olga medeia do além mensagens de amor entre os homens. &lt;br /&gt;Duo, terceto, quarteto, quinteto, Olga solista. &lt;br /&gt;Falta para sexteto o Sexto que vem da capital. De quando em vez. A platéia aguarda o principal. &lt;br /&gt;Descerem ela e os quatro pela calçada, fato raro de se ver. &lt;br /&gt;Descerem ela e os cinco pela calçada, quem viu contou vantagem quem não viu jamais se perdoou. &lt;br /&gt;Acontecer suntuoso com aura, início insidioso, ápice monumental. Daí pressurosos os Vizinhos rastearem as advertências do evento, quando!, e postados em esquinas disfarçandos intentos, engraxar portões arrimar cercas levantar muros pintar paredes, visitas delongadas prosas presos à porta, vagaroso deslocar-se de uma a outra casa. &lt;br /&gt;Atentos a feriados, fins de semana prolongados, datas prováveis somam com outros sinais: &lt;br /&gt;Um sinal é paramentar-se o manequim com terno de importada casimira. E, as medidas e ajustes toma-os Raphael em cada um dos Três, entre a Ave-maria e a Hora-do-brasil: para um é perfeito o colete, ao outro a calça veste bem no cós embora curtas pernas, e o paletó é no terceiro o caimento da cintura contudo os ombros caídos exigem perícia no corte e ajustes no enchimento; reservada a manga para o exato braço de Raphael, dentre eles o de extensão maior: é o Sexto agigantado de corretas proporções, distribuídas desiguais entre os Três e Raphael. Nenhum deles, nessas primícias, some na escada para o breu, antes dos outros. &lt;br /&gt;Vizinhança atenta nota e novos sinais coleta: Folga do Rapaz é certeza da vinda próxima. &lt;br /&gt;Raphael silva e comunica ao Rapaz não venha a partir de amanhã. O Rapaz cambalhota e as marmitas suspensas por três dias. Suspensos vizinhos desde então. &lt;br /&gt;Chegam os despachos. Por via férrea caixotes de tamanho vário, diferentes dias, endereço certo. Alfaiataria. A cada entrega os Três radialistas não apenas chegam juntos, mais cedo chegam. Uma lâmina verde fechada, ajudam Raphael desencaixotar uma vitrola nova, acústica perfeita em caixas potentes, alta e fiel em disco vinil; raros alguns. As perucas sapatos saias e vestidos, supostos nos pacotes, Olga ao correr dos dias lento desembrulhará. Sempre surpreendida. &lt;br /&gt;Folga do Rapaz, a marmita suspensa, no manequim a casimira inglesa, o despacho ferroviário: dois dias depois ele chegará. O Sexto. Cognominado Secs pelos Vizinhos. &lt;br /&gt;Chega pela manhã. Discreto, só, direto da estação do trem de leito desde a capital, sem malas desce no ponto do Circular. E sobe o meio quarteirão da esquina à porta verde da alfaiataria, fechada. Tem chave.&lt;br /&gt;Em dia normal Raphael silvaria altíssimo, tão longe se distraía o Rapaz da Marmita a brincar. Hoje dia especial, tão próximo se posta moleque, só não toma o lugar do manequim por ser a folga cabal, inadiável e irreversível: nunca brincou tão perto da alfaiataria. &lt;br /&gt;Criança é distraída quanto brincar é distração. Desatentas a ponto de não darem alvíssaras da chegada. Quem o viu primeiro foi a Crocheteira, idosa de boa vista, que desde a folga do Rapaz da Marmita não mais deixara o portão. &lt;br /&gt;Visto o Sexto, semi-abertas portas janelas amplo-vão, cresce no movimento lentas idas e bem lentas vindas da farmácia à padaria e o retorno à farmácia completa-se com o escolher uma a uma as verduras da quitanda, da quitanda para a venda o cheiro do pão fresco sem pressa a fila coleia a esquina da padaria, se o sol queima o meio dia as árvores derramam sombras nos grupos atentos e vizinhos visitam-se nos beirais de entrada em pé as longas despedidas, a tarde escorre nos sons da vassoura a rascar calçadas, do esmeril amolador de facas, pancadas desamassam tampas e panelas de lata, matraca vende biju, apito sorvete, mariamole flauta, mais intenso ao fim do dia em que foi visto o Sexto. &lt;br /&gt;O Anjo do Senhor Anunciou a Maria no céu estreladiurna alva única no azul vapor entardecido de vermelho a saudação em feitio de oração cantada entre acordes e apertos no coração de abertos olhos para as lâminas da porta em vão. &lt;br /&gt;Ave apenas de vogais sustenutas na gorja do arcanjo-tenor, as notas no ar musical e das gentes o olho na porta aberta em vê, atentos aguardam surja alguém, mas nem no Maria vem. &lt;br /&gt;Gratia plena e surge emoldurada em verde: Olga. &lt;br /&gt;A franja desce até o arco marrão da sobrancelha desmaiada em cinza para os cílios de pesado negror. &lt;br /&gt;O lápis em dois riscos ousados rasga em lagos as pálpebras onde se banham dois globos azulentes-artificiais.&lt;br /&gt;Brincos brilham adamantinos por entre os cabelos negros, impecável pajem acariciando os ombros nus. Brilhantes enroscam-se no pescoço e mantêm na ponta, insinuando afogar-se no seio, um rubi da cor da boca de entreaberto sorrir. &lt;br /&gt;A saia, vaporosa roda de ramagens verdes termina em vermelhas rosas estampadas na blusa presa por tênue fila de esmeraldas em alça falsa, ajusta-se dos quadris para cima e amolda os peitos oferecidos. &lt;br /&gt;Olga anda. Os pés, minúsculos desnudos flutuam soltos no ar ao som dos altos saltos de vidro. A saia balança e cobre balança e descobre maciços carnais, escuros veludos, profundo perfume confunde os cheiros que a tarde ousasse produzir. &lt;br /&gt;Sozinha desce até a esquina. Olha ao léu, e volta, os vidros nos ladrilhos, desaparece no verde umbral. &lt;br /&gt;Ninguém se move: haverá mais. &lt;br /&gt;Agora eles, os cinco, saem. &lt;br /&gt;De terno, corte impecável que o manequim vesgo e sorridente usou, alinhavado, à espera da prova para a magistral confecção. Ficam por ali. Sem pompa, distraídos quase. Um entra, outro sai. Calmos. Ou na esquina nada esperam. Como quem sem pressa espera, mas. &lt;br /&gt;Os vizinhos entr'olham-se guardiões. &lt;br /&gt;O arcanjo-cantor: Ave! Maria! &lt;br /&gt;Em estacato clama tenor:&lt;br /&gt;Maria! Maria!&lt;br /&gt;Perfume. &lt;br /&gt;Olga  porta assoma. &lt;br /&gt;Lentamente sai. &lt;br /&gt;Raphael fecha lâmina a lâmina em chave a verde moldura. &lt;br /&gt;Os quatro aprumam-se, fronteiros. &lt;br /&gt;Sexto, gigante, derradeiro. &lt;br /&gt;Ela primeiro. Destaca-se à frente. &lt;br /&gt;Saltos de vidro saia rodada. &lt;br /&gt;Esvoaça &lt;br /&gt;lento cerimonial, &lt;br /&gt;Noturnália de Divas &lt;br /&gt;com outras estrelas Olga compõe. &lt;br /&gt;No além da esquina, na dobra do tempo, Olga vai. &lt;br /&gt;Dores atrozes. &lt;br /&gt;Em arpejos diluídos &lt;br /&gt;Acorde final &lt;br /&gt;Amém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 01 de Conto Romances &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulino Tarraf&lt;br /&gt;Versão de 31/10/2007&lt;br /&gt;25/03/2005&lt;br /&gt;Ligeiramente modificada de 20/01/03&lt;br /&gt;Versão de 180305 ligeiramente modificada &lt;br /&gt;de 080704 ligeiramente modificada de 20/01/2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-7796840521029177323?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/7796840521029177323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=7796840521029177323' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/7796840521029177323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/7796840521029177323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/01-raphael-olga-seus-amores.html' title='01 &lt;strong&gt;Raphael, Olga, seus amores &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1Xhj15iNrI/AAAAAAAAAFI/Ire1tUuuTZI/s72-c/olga-v01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-6095375596634244547</id><published>2007-12-01T12:21:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T12:22:13.499-08:00</updated><title type='text'>02 Damiano</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 02 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Damiano&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amandio, doce Amandio se come não dorme, dorme não come, nem come nem dorme sem que lhe triture o sossego alguma preocupação. Carrega-se em cuidados para não ser incômodos, perturbações da vida alheia com seus pequeninos desejos, coisinhas de somenos que com um pouco mais de empenho ele mesmo resolve. Passar em branco, depois de querer ser garçon, fora o maior anseio de sua vida. Ser cantor de ópera impossível pelo tanto de espaço a ocupar no reduzido orçamento familiar essa formação tão custosa e seu irmão Damiano ter ido para o seminário tão caro servir a Deus.&lt;br /&gt;E também porque não tinha voz.&lt;br /&gt;E não tinha voz também para pedir o que fosse para si mesmo, como eu pude notar desde o começo embora com um pouco de educação vocal passasse de baixo desafinado que sempre foi para um barítono médio de timbre aveludado. Aveludado na modulação vocal, esse dom de graça deu-lhe Deus. Ao contrário de Damiano, raspador de erres e prolongador de is acentuando cas e tas ao sabor da irritação de não ser atendido no que pedindo ordenasse.&lt;br /&gt;Amandio queria ser garçon, mas não para servir. Era para dar caminho aos outros com torcidas de cintura e corpo equilibrando-se com bandeja transbordando de pratos na mão. Para servir foi ser barbeiro. E Damiano padre, mas para servir a Deus e só a Deus. A navalha afia-se no vai-e-vem do couro esticado ritmada lentidão. Corre o corte na pele ensaboada, espuma e pelo no babador de algodão branco engomado ou no dedo em riste em momentos de maior concentração. Em baixo do nariz, na covinha do queixo, raspa raspa o som de raspar é o mesmo que raspar tem, pedra-pomes amacia e pedra-ume estanca o sangue mas nunca precisou.&lt;br /&gt;Amandio é barbeiro de pouca fala, raridade de dura conquista treinada com sofrimento. Empós reiterados sermões particulares de Damiano: tem de ser, a fala, bastante: o excepto à regra tem melhor servidão. Ouve muito e faz contraponto para a conversa discorrer em maior fluidez. Silêncio absoluto se o freguês ameaça dormir, direito inalienável que a cadeira recostável lhe dá. E o cheirinho mentolado. O fino talco. A tesoura um corte no cabelo dois no ar religiosamente. Metrômano do sono. Por ele, Amandio, falaria muito de seus assuntos, dois, preferidos: ao dedo em riste do irmão, na lembrança, cala-se. &lt;br /&gt;Mas Amandio é barbeiro de navalha, mestre em aparar no cabelo a caída que ele tem de natural.&lt;br /&gt;Desde a morte da mãe continuaram, solteiros, morando juntos. Ele e Damiano. Amandio era casto.&lt;br /&gt;A batina, casimira de lã, lava-a um tintureiro. Meias, camisetas, camisa, calça e cuecas, Amandio encarregava-se delas no tanque. Foi quando lhe ocorreu perguntar a Damiano se sonhar era pecado. Achou melhor não e continuou a lavar a cueca de seu irmão. Esfrega a mancha engomada, oculta do irmão a nódoa jaculada do sonho atrevido.&lt;br /&gt;Acqua mentolada recende por onde Amandio vai. Vinho por onde Damiano vem. Ite missa est e rapidamente o paramento se despe desde quase o altar e na sacristia repousa jogada a estola e a alva de fina renda e prestes o padre para a rua cuidar dos negócios que é de Deus. Aqui uma extrema-unção, ali um viático ao enfermo, a encomenda de um corpo cristão, acqua benta em casa nova entronizados de Jesus e Maria os sagrados corações. O Livro de Horas sempre aberto no caminho ou dedos de prosa com fiéis esclarecendo a palavra de Deus. Tardes em confessionário, casamentos sem fim, batismo com choro e enterro com velas: este não era Damiano. &lt;br /&gt;Damiano a serviço de Deus é a conversão do fiel. A ferro e fogo, pulso e garra, pau e porrete se é que assim se pode dizer. No grito e no berro talvez fosse melhor. Embora da primeira forma fosse mais real. Métodos próprios, práticos e convincentes: chantagens emocionais, promessas de céus ameaças de fogo, lucros e penalidades. &lt;br /&gt;A memória de Damiano era-lhe útil como confessor. Não que fosse necessária nessa prática sacerdotal. Mas para Damiano enquanto confessor. Ótimo fisionomista, na penumbra do confessionário distinguia o fiel pelo timbre da voz. E nos retornos queria saber notícias do pecado anterior. Terror das crianças que tinham nele um calendário do uso das mãos. E um calendário para as adúlteras com o número de vezes para o marido contrapondo ao número de vezes do sedutor. Resolveram, por questões práticas que Amandio o teria como confessor. Barbeiro, por profissão o dia todo de pé, queimavam-lhe as varizes. Assim comerá o fogo do inferno, pelos pés, aqueles que não andarem certo na vida. Foi o que Amandio ouviu calado após queixar-se pela primeira e única vez da queimação.&lt;br /&gt;Amandio era seu mais fiel entre os fieis. Não por temor a Deus, ao qual considerava incomensuravelmente bom. Mas para servir ao irmão a quem, quando nos dias de melhor humor, fazia a barba e a tonsura com presteza matemática, o círculo perfeito traçado a navalha a lâmina numa ponta, a ponta do dedo como ponta seca a girar e raspar compassadamente. Apuro abaixo do nariz, esmero na cova do mento: sulcos de intocado pelame. Costeleta bem passada. Tesourinha rápida e carinhosa a liberar com cosquinhas os pelicos das narinas e do trago auricular. Enquanto Damiano relatava suas últimas conquistas para Deus. Do casal de namorados, ela em ardente paixão ao Senhor, ele ardentemente apaixonado por ela. Protestante mas fazendo dela Deus na terra. Não tive dúvidas, para se casar, tem que se converter, convertido confessar-se. Raspar de erres e navalha, um e outro. Foi uma das mais rápidas conversões. &lt;br /&gt;Deleitoso paraíso, confundas do inferno, padre-nossos penitentes e ave-marias aos convertidos tragados em tentações: a tudo Amandio ouvia atento e paciente, suspiroso nos momentos dramáticos, navalha dum lado pente do outro os braços abertos em cruz a boca em credo. &lt;br /&gt;Nunca teve sócios pois trabalharia para eles com certeza. Nem auxiliares tem mais: a cadeira ficava vazia ao lado enquanto a fila esperava por Amandio e o auxiliar brincava triste com o borrificador, com a escova, o pente, mão, dedos...Trabalhava até altas horas da noite, quase sempre sem almoçar. Não tinha coragem de dispensar o freguês que se entristeceria pensando ser desprezo. O irmão condenava tal ganância, Amandio não se defendia pois Damiano grita sem parar que o pecado só o inferno cobra devidamente se não há convicção e firme propósito de não mais pecar. Vender a barbearia nunca. Recusou ofertas pois interessados tantos havia quanto enorme era o movimento. Amandio não vendia pois vendeu uma vez e a freguesia caiu. E não agüentou de remorsos. Prepara um fluxo de caixa para comprovar que o movimento é grande se algum dia vender e tem pronto o argumento de que a partir daí pode crescer a procura ou decrescer. Nunca mostrou ao frate o Livro Caixa : fatal comparação e a pecha de rezar pelo Livro de Lucros a oração do especulador. Mas já desfia um terço por conta. Revistas para ler na espera, outras que não as dedicadas às famílias católicas são proibidas. Colocou uma vez revistas pentecostais, a pedido de um freguês e, pela capa sugerir tanta piedade cristã. Damiano em furor piedoso ameaçou nunca mais abandonar sua tonsura em tão heréticas mãos. Rasgou a revista rosnando erres raivosos. Retornou à habilidade barbeira do irmão pós redimir-se na reza de um rosário e o confiteor três vezes três dias antes de dormir. Alem da promessa de que qualquer publicação da imprensa protestante, nunca mais.&lt;br /&gt;Tonsura e barba, Amandio ouve calado mas atreve-se pensar o que Damiano fala sem parar. A terra prometida, jardim paraíso das delícias, tranqüilidade em rotina pura, reino de avenças e avires entre os homens todos iguais. O céu é a barbearia dia de domingo, varrida e lavada, talcos enfileirados nas prateleiras de vidro reduplicados no espelho lado a lado lavandas cremes pedras-ume-e-pome pentes fino e grosso escovas e borrificador de água e álcool e pó navalha e máquina-de-cortar-cabelo tesouras e tesourinhas e o amolador de navalhas, sua paixão. Passava horas naquele silêncio iluminado de azul-vitral, luz coada de dia de sol sentado na cadeira de beirais arredondados trabalhada em motivos florais de ferro gusa porcelanizado de branco. As mãos postas, os indicadores amparando os incisivos da boca semi-aberta. Pensativo, olhos inativos na pia onde dançam azuis as vênulas do mármore branco. Quero ir para o céu encontrar minha santa mãezinha. Mas se no céu somos todos iguais como distingui-la de todos os outros mais. Com a navalha raspando a garganta de Damiano atreve-se a perguntar. Alongando is em imbecil, com ênfase no ca em pecado e ta em tapado, raspando todos os erres em burro, Damiano plectórico perora que não ousasse duvidar da sabedoria de Deus e que no céu éramos todos diferentes um do outro conquanto fôssemos iguais. Que sem dúvida alguma no céu conservaria todas as características que na terra lograva possuir. Conviveremos lá nós dois tal qual aqui. Você reencontrará sua mãe. Com a navalha na jugular de Damiano não quis perguntar se veria a mãe menina, recém-casada ou viúva idosa como acabada finara, receoso de que Damiano fosse julgá-lo mal. &lt;br /&gt;Os dois reproduzirem no céu o inferno da terra, não sei se quero pensa Amandio e não fala: a navalha na pele a carne da garganta a vizinha jugular de Damiano. &lt;br /&gt;Nesse dia usou a pedra-ume, carinhosamente pensando como era bom ter um irmão tão esclarecido nas coisas de Deus&lt;br /&gt;Morreram um dia os dois. Damiano foi para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 002&lt;br /&gt;paulino tarraf  modificado em 04/11/2007 sobre uma versão de 04/09/2007 a partir da versão de 14/ 06/ 98&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-6095375596634244547?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/6095375596634244547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=6095375596634244547' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6095375596634244547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6095375596634244547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/02-damiano.html' title='02 &lt;strong&gt;Damiano&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-4401328662029503856</id><published>2007-12-01T12:20:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T12:21:13.824-08:00</updated><title type='text'>03 Prazo e preço fixos</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 03 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prazo e preço fixos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Loja das antigas, antiga de ter dono e nela trabalhar o dono duro e dedicado. &lt;br /&gt;A mão esquerda protege espinha e rim, a direita destranca em solavanco a porta de ferro, enrola-se ela desenrola-se ele ambos para cima, e de dentro amornado bafo desprega-se das fazendas multicoloridas em peça e retalhos alpaca brim seda linho e algodoim ordenadas em prateleiras de madeira o balcão, dispostas miudezas sabonetes enfeites perfumarias e talcos em fiteiros por vidros protegidos, abrem-se à vista para ele. Como todos os dias, nesta Segunda igual. &lt;br /&gt;Entra com orgulho na rotina gostosa laborioso dia: balcão a peroba lustrada, metros medidos tecidos cortados tesoura em punho, ágil sobe escada das prateleiras desce rolos de fazenda nas mãos equilíbrio estável, piaçaba e espanador sorridente se das ruas o carbono insiste moderno escape volátil de gasogênios fordes bate no arabesco do vidro em moldura mogno, ele é, atrás da Registradora entanto, permanente sentinela: &lt;br /&gt;Um tranco e tilinta o troco. &lt;br /&gt;Hipermétrope incipiente e leve astigmático: venderia saúde não fosse a suspeita de alguma novidade nos rins, e fraqueza moderada em reservadas partes. &lt;br /&gt;Uma guerra além mar feito febre influencia o globo ameaçando pelo mar e ar derruir fronteiras, um medo mundial. &lt;br /&gt;Aqui dentro paz imperatriz: aos olhos do dono o dia desenrola-se num tempo fito. &lt;br /&gt;Substituto dos burros lá fora o bonde guincha elétrico, rival dos furgões a buzinar estrídulos entre rolos de fumo, compassadas as charretes faíscam os paralelepípedos de ferraduras e arriscam disputar passageiros a preços menores e conforto de assento. Os burros descansam. &lt;br /&gt;No soquete a lâmpada de quarenta velas, difusa luz. &lt;br /&gt;Outras lojas perdem-se em sociedades anônimas, diversos donos da mesma matriz em filiais dispersas empregados vários. Nelas balconistas de calça azul camisa branca de colarinho duro manga comprida, tesourinha desembainhada do bolso de moedas picota mostras do tecido, sempre na porta prontos a sorridentes servir. &lt;br /&gt;Aqui, não. À porta gentil Manequim de papelão dos ombros cavos ondulada em toga grega a casimira cai macia a beirar o chão, olho azul e rouge rosa namorica o transeunte e, se entra freguês, mesureiro o dono cerimonioso meio sorriso encaminha o bem-vindo até a peroba de rebrilhante uso: desdobra a fazenda aos olhos do freguês em mostra e polimento. &lt;br /&gt;Garante o dono, pela presença, a qualidade da mercadoria. Tem um só empregado. Moço aprendiz, de Balconista chamado. Pontual. Honesto. Limpo. Educado no trato. &lt;br /&gt;Admitido o balconista afastou-se, dono, para trás da Registradora donde nada fala de tudo que vê astigmático e hipermétrope leve. Gosta do Aprendiz acariciar a fazenda com volúpia, olhos fechados, os quadris colados no balcão, suspiro contido; como eu fazia nos meus começos, pensa o Dono compreensivo. &lt;br /&gt;A Registradora, sua nova diversão: no ato do troco a um toque abre a gaveta automática que delicada afaga-lhe a barriga com dois leves sacolejos. Ajeita o ventre estufando-o ao encontro do alcance carinhoso. E pausado, com pequenos socos leves e lentos, devolve a carícia, conta as notas de troco retiradas num repente da mola que as prende no escaninho, as moedas de cobre pelo uso reluzem feito ouro, num sorriso repassa ao freguês, e decidido arremete o ventre fechando a gaveta de vez.&lt;br /&gt;Empregado, um. Fregueses, muitos. Para varejo e atacado. Antigos, de crédito seguro; novos com recomendação. &lt;br /&gt;Abastados fazendeiros do interior, com suas manteúdas, para compras milionárias. Cabelos d'ouro e dentes madrepérolas esgarçadas, sopram gritos finos satisfeitas da vida por mostrarem-se em público com seu amor de meia-idade. Encandeiam-nas o reluzir nos mostruários protegidos de vidro perfulgentes pares de brinco, pulseiras entrelaçadas a colares de várias voltas de pérolas gigantes a rivalizarem falsas com o vermelho rubi da jóia rara nas pedras incrustada em aros baratos de caros anéis. Seda chinesa, pintada à mão no Brás. Tudo meu, tudo meu dizem a boca de bâton às criadas discretas. Sabonetes de paris cheiram perfume nos estojos esmaltados, o pó de arroz impresso francês na redonda caixa renomada marca. &lt;br /&gt;Também do interior os libaneses, mascates de bigodes turcos. Pois a loja tem, com orgulho e satisfação, preços módicos e ofertas de ocasião. Na peroba lustrosa descansa o metro de pau amarelo, vizinho da tesoura gigante. A escolha recai sobre os retalhos. Brim cáqui sanforizado, chita e chitão de cores firmes em padrão original, garantias de não encolher, certeza de não desbotar, arrematados pelos beduínos das verdes roças do sertão, deixarão o cheiro da fazenda nas salas de chão batido de terra e bancos de pau. Entram em caravanas de patrícios. É questão de preferência serem, as compras, feitas aqui e não na Vinte-e-Cinco de Março e imediações dos primos entre si. Malas em corcovas nas costas carregam dedais agulhas linhas correntes e retrós, espelhinhos com redondos retratos de jovens enamorados os cabelos em ondas cercadura de rosas ou ovalados com estampas da Senhora Aparecida em manto infinito de estrelas brasidas, os brincos e colares de menor qualidade para mascatear e, nômades sem oásis, abastecer de belezas a vida roceira dos longes daqui. &lt;br /&gt;Dos bairros, as donas de casa ou suas domesticas, freguesas dos trocados, levam outros miúdos e dedos de prosa. Botões. Colchetes. Ramonas. Alfinetes. Murmúrios. &lt;br /&gt;Mas advogados; e até médicos; gravata e linho ingleses. Chapéu, especialidade da casa desde quando, porta para armarinhos, recém casado herdou do pai e fez crescer, bom filho, o negócio nas marcas prado ou cury tanto faz desde serem de qualidade superior. Sua dedicada mulher, então, sentada agulhas em ágeis movimentos, preparava o enxoval do filho que, desígnio de Deus, não tivemos. Ainda hoje rara vez vem senta tricota e conversa. Freguesas, de chapéu e luva estufada nos grossos dedos de prosa rala . &lt;br /&gt;A guerra d´além mar lançara, nos tempos antigos, estilhaços de crise porta roliça adentro. Sofrera aborrecimentos. Noites de sono perdido. A crise da Guerra explodiu Carestia sem igual. Faltaram farinhas, faltara pão. Açúcar e óleos racionados. Câmbio Negro. Em suspeitos armazéns comerciantes escondiam sacarias à espera de preço melhor. &lt;br /&gt;Ganha-se dinheiro na crise quem sabe trabalhar; sussurrava, em bigode retorcido, um primo irmão de seu pai. &lt;br /&gt;Rareados os fregueses, o Dono duvida saber trabalhar. E sofre. Sem sociedade anônima com quem dividir a dor e o desgosto. &lt;br /&gt;Os filhos que Deus não deu, agora se alivia de não ter. Deus é sábio. &lt;br /&gt;Envergonhado de empobrecer, são reais demais as noites de insônia. A dedicada mulher, carregada de preocupação, levantava-se pronta a servir-lhe chá, a ele que detesta chá: bebe que faz bem! Bebia e dormia, pouco e mal. Selecionou melhor a freguesia: vendas a prazo só para os de reconhecida reputação. Preço e prazo fixos: noites sossegadas e melhor dormidas. Mas a crise ronda. Quando não as febres as bombas dos italianos anarquistas e a cidade furada a balas por militares revoltosos. &lt;br /&gt;E os roncos da Dedicada. Mantidos mesmo após os golpes de cotovelo. Ela caso acorde e, rápida com a chaleira, perdesse ele o sono servido, volta a roncar. &lt;br /&gt;Acostumara-se com Dedicada, difusa na malha do dia-a-dia tecido de certezas. Pasta de dentes à esquerda, no armário, ao alcance sonolento da mão. Guarda-chuva na chapeleira chapéu no cabideiro. Chinela ao pé da cama, ao lado do urinol. Dedicada para o necessário. &lt;br /&gt;Se ronda a crise, o cotidiano nas costumeiras acalma-se. &lt;br /&gt;Tome chá. &lt;br /&gt;Cinema aos sábados, no Centro Velho, para onde os levavam os calmos pés. &lt;br /&gt;Pelo Chá. &lt;br /&gt;Viaduto de orgulho cidadão. Dele olha o perfil metálico do Santa Ifigênia lindo e necessário caminho inglês a ligar o velho ao novo, os Campos Elísios dos palacetes ricos e assobradados. &lt;br /&gt;Deliciosa noite fresca, dizia ela na ida, os olhos no firmamento, onde reinam silêncios do futuro. &lt;br /&gt;Filme lindo um pouco triste dizia ela, emocionado olhar no vago firmamento onde reina o silêncio das telas e fátuo-fogueiam Ator Atriz aos beijos de lábios fechados. &lt;br /&gt;Charrete, na volta, as ferraduras faíscam nas pedras. &lt;br /&gt;Abastecido de sonhos, o Dono trocava-se para deitar, os olhos dela cândidos baixavam-se ao peso dele sentando-se na cama, os pés soltos dos chinelos, suspira apaga a lamparina deita suspira. Mas sempre demora um pouco para começar. Devagar as mãos pelos quentes das próprias pernas. Nunca dei nome para o meu querido, agora na palma da mão, pensa com seus pêlos. Os meninos amigos de quintais e baixadas do Itororó, batizavam nomes de zézinhos e joões aos queridos seus, meu querido jamais recebeu nome algum. Meu Querido tem real grandeza. Mas se aprecia o tamanho, desgosta-o a firmeza: acreditava melhor desempenho em passadas ocasiões mas, enevoada lembrança, confundida com a ida ao lupanar na aurora da vida juvenil carregado de medo e, quase no colo da experimentada dama dadeira, ser levado para o quarto escuro de perfume difuso e mofo intenso, cândida oferecido corpo em quenturas abertas à saciedade, enorme prazer e inesperada gonorréia. Sulfa e muito medo levaram-no curado e quase virgem ao casamento. Quiçá a firmeza em seguidos anos de casamento emurcheceu-se no sagrado de todo santo dia e, hoje, sobra pele na verga pressentida no cinema ao ver a luz bailar na tela a loira em trajos de fatal vampira curvar-se à pressão do astro valentino. Pronto! o Meu Querido. Mas Dedicada dorme e, contornados roncos, para ela voltado o corpo de preguiça, acorda-a com pequenos beijos. &lt;br /&gt;Aos sábados, Dono e Meu Querido dormem bem. Leves carícias, beijos de lábios apertados. &lt;br /&gt;Nem tão bem dormir nas noites dos domingos. Segunda, saberá Deus o que vem lá. &lt;br /&gt;Aurora consumada, a porta de aço enrola-se cilíndrica mas, hoje, a segunda-feira não foi igual às outras. Nem a vida. &lt;br /&gt;Segundas de manhã, quem entra rápido olha, rápido sai. &lt;br /&gt;Amortecido tempo. &lt;br /&gt;Atrás da Registradora um suspiro; outro no balcão. Ressoados no vazio. &lt;br /&gt;O Balconista, olhos semicerrados, redobra fazendas no tampo de peroba. Deliciado desliza sobre elas a palma das mãos e, ao ritmo cortado sucedem-se a cócega da renda, a finura da seda, a maciez do algodão. Suspira. Pedaços de melodia recortam-se por entre a electrostática do rádio; o habitual. &lt;br /&gt;Locutor de grossa voz dá o prefixo das ondas longas em megahertz. &lt;br /&gt;A válvula cheira o tango em bandoneon, romântico comparsa da estática atmosférica, chia o canto em baritonado tom. &lt;br /&gt;Entra a freguesa dos tostões: Dois botões, de diferentes tons. Grampos pretos meia dúzia, nada mais além de conversar: sem ter com quem sai. &lt;br /&gt;Um solavanco, tilinta o sacolejo. &lt;br /&gt;Pausa.&lt;br /&gt;Aberta a porta de vidro para nova vida. &lt;br /&gt;O tédio da Segunda finda. &lt;br /&gt;Ela entra. &lt;br /&gt;Não me deu Deus todo o tempo do mundo, nem me impediu de deliciar novas vistas. &lt;br /&gt;O linho branco da saia roda riscas, o ar remoinha-se espiral e o perfume junto. &lt;br /&gt;Sorridente vem. &lt;br /&gt;O Dono, por trás da Registradora, meus pés encharcam-se prisioneiros dos sapatos entre cheiros envelhecidos grudam-se os dedos, o intestino ruida ressôos pelas prateleiras, dois redondos de suor no covo dos braços, vem para mim sorridente vermelho a boca linda, gagueio vago bons-dias perpassado de hálito ruim, da Registradora para trás do Balcão, lento vai, o chão não ruir o assoalho não ranger sob o couro ressequido de meus malpassos, tomei meu banho matinal lembro-me bem mas as ceroulas com certeza não troquei. Ou trocou? Trocou, como todos os dias por dedicação sua mulher não faz menos, e as meias brancas em liga esticadas, perfumado talco, glostorados cabelos nem tanto negros nem tanto gris. &lt;br /&gt;Solícito servidor, o Dono atrás do balcão os grudados quadris, as mãos percorrem abertas da renda à seda, os olhos fecham dentro deles o sorriso vermelho cílios lindos, o enchimento dos ombros os vazios da blusa, escorrem lisos cabelos em pontas de permanentes ondas, o colar de bolas brancas roçando a pinta na curva redonda do seio fonte de perfumes. &lt;br /&gt;Anna, dois enes. &lt;br /&gt;Anna Ennes? &lt;br /&gt;Olhos nos olhos ardem a repentina mútua paixão. &lt;br /&gt;Os botões de madrepérola sob a pressão das unhas esmaltadas deixam ver mais que a pinta permitida, além da curva redondos e perfumados, macios nas mãos os lábios encontram delicados o arfar oferecido da carne feito verbo amar. &lt;br /&gt;A loja fecha para almoço: assim que Anna Ennes a cada dia volta, por benevolência de Deus, pão de minha vida, Aurora Minha com Crepúsculo marcado. &lt;br /&gt;Deu férias para o Balconista, única desde empregado. Três meses consecutivos. Daria outros trimestres, daria muitos mais. Não fosse esse o tempo exíguo que Deus lhe permitiu ser feliz. &lt;br /&gt;E um santuário s´erige na loja profana. De um acanhado quarto até então sem serventia que ser despejo de caixotes de papelão escada quebrada torto balcão desusada escrivaninha registradora antiga, muito mofo e aranhol sem janela e caiado tem uma porta aberta agora para o amor. Entre beijos aos poucos pelos dois retocado, permanece intacto o quarto do desejo como Anna Ennes o deixou, quando se fez crepúsculo certo a inesperada aurora. &lt;br /&gt;Um vaso azul, flores de organdi verde e rosa em arame armado ramilhete. Oferenda para a Senhora da Conceição, a proteger-nos de distraída concepção. Do oratório lamparina derrama vermelhos, pendente do céu de crépon. &lt;br /&gt;Tenda árabe, dos cortes de tecido desfraldados de cima abaixo, entrecruzados de parede a parede amontoam-se qual almofadas sobre o balcão, sedas do rosa ao maravilha, o calor da casimira o frescor do cetim, rendas emolduram de flores os beijos e na pele tatuam asperezas à espera de carinhos, chita chitão e algodoim aparam os líquidos do amor. &lt;br /&gt;Um espelho. Toalha. Bacia. Uma cama patente, rearrumadas molas de rangentes alegrias, de solteiro cabem os dois. O rádio é contraponto, à música sublinha o ranger compassado das molas, cantores fazem duo com o sax, e o cheiro quente da válvula retoca os odores do amor. Mais seria desnecessário, o tamanho é do céu. A eternidade vivida a cada momento, o pêndulo é foice a somar inverso os minutos dos contados Três Meses, prazo fixo pela benevolência de Deus. &lt;br /&gt;Se Anna pouco fala, os olhos em branco e preto a carvão acentuado, expressivos lêem o escuro de minha alma. &lt;br /&gt;Encontros mudos, poesia onde as rimas se beijam o ritmo carícias em métricas desiguais. &lt;br /&gt;Dedicada entende o marido distante os pensamentos colados na guerra dos mundos, de manhã a Luz o encontra entre os canteiros do Jardim a correr que faz bem para o coração, o peito robusto o porte ereto, as maçãs coradas os olhos acesos perdidos entre as árvores, a moral mantida apesar da Crise, ruína dos desavisados. &lt;br /&gt;Sábados sem cinema. Almoços não mais. Chega tarde para o jantar. Dedicado, aguarda-o paciente chá. Só estranha não ter ele perdido o sono, mas Dedicada sabe, a insônia chegará o mais tardar. É assim para um comerciante: não apenas entre trincheiras as baixas ocorrem. A insônia virá; se a insônia não veio já. &lt;br /&gt;A noite que passou acordado foi em Santos. Anna Ennes, voluntária da Cruz Vermelha. Chamam-na os ferimentos de Guerra em Áfricas distantes. Nunca mentiu permanência eterna: eterno só o amor que a você devoto de coração; desde o primeiro dia sabia a data de minha partida em navio americano; e nos primeiros beijos entre lágrimas esse foi o sal de nosso amor. Amor com começo e fim. Intenso e sem promessa. Sem outro crédito além da paixão, nascida e reforçada entre beijos essa paixão encurtou os três meses que pareciam tão longe de um dia chegar. &lt;br /&gt;Deus dá. Deu, tirará. &lt;br /&gt;A dor da partida, o preço a perder de vista. &lt;br /&gt;Descem a Serra e pensa quão difícil seria subir quando outrora não existia o Caminho do Mar. &lt;br /&gt;Cais. Os estivadores, os músculos parados, esperam os Mercantes que não atracam. Nos tempos modernos, a moderna pobreza. Outra cara, na fome a mesma dor. Sorria, mas as lágrimas escorrem perdidas entre a compaixão e a despedida. &lt;br /&gt;Pista de dança ao beiral das ondas. &lt;br /&gt;Anna, à luz do azul mortiço de lâmpadas veladas, para sempre será linda assim, dolorosa despedida. &lt;br /&gt;Pouco falta para a aurora subir em ramilhetes de maravilhas e rosas. &lt;br /&gt;Hálito perfumado de rhum. &lt;br /&gt;Tangos em compasso de adeus. Garçon de pés machucados no bico fino e punho ao peso de copos e garrafas, a cintura ágil nos desvios dos casais a dançar, corações trespassados. &lt;br /&gt;Rosto colado em redondo suor, mãos entrededos enlaçadas. &lt;br /&gt;Amanhece entristecido azul. A luz guilhotina da noite o dia. O coração parte em navio na imensidão do mar, a Serra, quão difícil subir levando no peito a massa negra onde bate a solidão. &lt;br /&gt;Chá. &lt;br /&gt;E muita dedicação. &lt;br /&gt;Aos poucos, retoma e tece o todo-dia nunca mais igual. &lt;br /&gt;Se retornou a alegria e o tilintar do troco, aos sábados fitas de Guerra, e tudo reaparecia entretecido nas malhas do sempre igual, por benevolência de Deus jamais perdeu, Meu Querido, a Firmeza reconquistada, para gosto de Dedicada, o Abusão.&lt;br /&gt;Toma chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 03 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;Data 30/09/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a versão de 24/07/2007&lt;br /&gt;Sobre a Versão de 03/06/2006 paulinotarraf&lt;br /&gt;Sobre a Versão de 07/12/2004&lt;br /&gt;Original_12/06/1993&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-4401328662029503856?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/4401328662029503856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=4401328662029503856' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/4401328662029503856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/4401328662029503856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/03-prazo-e-preo-fixos.html' title='03 &lt;strong&gt;Prazo e preço fixos&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-5507467694058312168</id><published>2007-12-01T12:19:00.001-08:00</published><updated>2007-12-01T12:19:55.829-08:00</updated><title type='text'>04 São José, das botas</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 04 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;São José, das botas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade. &lt;br /&gt;Os bairros, ela no centro. Os bairros têm nome, mas pouco indicam os nomes que têm. Dito um de Boa Vista, infere-se de boa vista fora em tempos outros; quiçá?, descortinava beleza de encher os olhos, quando uma colina defronte a outra não se entediava na monotonia do branco sujo de casas caiadas e quintais de chão desnudo. &lt;br /&gt;Mas é de Cidade apelidado o centro. E por Cidade atende desde quando povoado crescia cidadã e dos sítios vizinhos lá longe se vinham às compras, aos ladridos os cães voam soltos os quero-queros rasantes em barulhento ataque como se guardicães fossem dos pastos separados por porteira, o carril marcado na areia pelas carroças os bois pesados adiante, excitados na vinda os homens no lombo cansado do cavalo na volta sonolentos da pinga.  &lt;br /&gt;É Cidade. Já foi selva. Relvas cercam-na, agora. &lt;br /&gt;São córregos os rios caudais d´outrora. &lt;br /&gt;Só dentro dos sonhos de Amandio tanta água em tal fluir, dentro dos rios as pirogas a pendepender dentro delas o bugre rema desconhecido o porvir a sonhar. Nos sonhos de Amandio esse rio obedece o apelido cristão de Piedade deslembrado o verdadeiro nome esvanecido com o derradeiro suspiro por onde a alma pagã do último bugre soltou-se, empós o bacamarte descarregar nele o chumbo da conquista. Vive ainda o Piedade, perdido entre os outros que a custo se arrastam córregos colados nas margens, carregados de detritos. &lt;br /&gt;Boa Vista e Cidade, uma colina olha outra e se de boa vista foram, magica Amandio fossem copadas floridas, ondulantes coqueiros, entrelaçadas trepadeiras nas árvores esguias que se via: separam-nas um córrego Heborá, leito de água e mel. Heborá, pelo nome tapuia, testemunha ter ali existido a alegria dos bugres, deduz Amandio piscando os olhos descolorido azul. &lt;br /&gt;Lera em almanaque que falar Heborá significa dizer: Mel cabaú pinga do oco dos troncos, saburá de gosto doce amarelo na cor, não duvidava o bugre ter jataí entre as grossas cascas, se tem urucu se tem guarupu tem mel se tem abelha de tarjas pretas riscado de ouro nas patas cabeça e peito; escorre o mel feito regato nascente para o rio a circundar a colina onde menina crescia a cidade. Assim nos sonhos de Amandio era caudaloso o rio e hidromel divino em seu cântaro corria, Heborá escansão. &lt;br /&gt;Ladeando a colina, no oposto do Heborá, cópia d'aguas é Canela um rio que se chama assim de batismo pelo cheiro talvez pela cor quem sabe o gosto. &lt;br /&gt;E mesopotâmica ela nasceu. &lt;br /&gt;Despejam-se vassalos Canela e Heborá num rio maior, que nome não tem tanto é vária a cor se chove muito chamam-no Pardo, Claro em manhãs d'estio a ele se referem, Azul refletido o céu das tardes Verde tinto espelho das matas se dele se enamora um poeta: Preto no mor das vezes, esta sua sina. Saberá Deus? escandescido pelo turbilhão dos peixes rio grande nomeavam-no reverentes os tapuias na inocência de acreditá-lo eterno. &lt;br /&gt;Paralelo a esse rio preto tem a Boa Vista uma Boiadeira. &lt;br /&gt;Boiadeira rua, tráfego de gado a mudar de dono, ou de vida em matadouro. Qual as outras ruas é descalça a boiadeira, terra dura leito de areia. Sempre verão, tardes soltas, o melhor da chuva são as ruas viradas em rios que dão pé. Nas testeiras das casas cascatas a despencar, no enxurro da chuva finda navegam barcos de papel. Diques de gravetos e pedras, barragem d´água barrenta. &lt;br /&gt;Ali na Boiadeira os pés descalços do Meninico conheceram areia quente, estrepe agudo, caco de vidro; áspero muro farpas da cerca, varar vigilância tomar de assalto os quintais; casca grossa do tronco da mangueira arcada de ouro doce de chupar. A pedrada derrubadas despencadas de madura, amarelas de sol caídas verdes de vez, mangas delícia sem par mesmo se agraz. &lt;br /&gt;As ruas desembocam nos rios. &lt;br /&gt;Mas Meninico não foi tão longe quanto curioso se impelia. Assim, missa na Aparecida da Boa Vista o mais remoto sítio visitado. Do oriente seus pais vieram de trem. &lt;br /&gt;Em casa os filhos são a língua viva da mãe. Os ouvidos, quando para a rua vão, voltam carregados de palavras novas. Há sempre um verbo complicado de conjugar; futuros complicam-se no passado irregular. E pelos quarteirões quadrados de casas esparsas de porta em porta vai pelas mãos da mãe, sabonetes espelhos e pentes ramonas e alfinetes, a vender miúdos e garantir a mesa. &lt;br /&gt;No almoço não falta a coalhada mansa da vaca criada em cercado, azeitonas pretas d'Hespanha, refrescantes pepinos perfumados de verde hortelã, doce alface de mistura ao agre almeirão, vermelhos tomates da horta em quintal não faltam. &lt;br /&gt;Hoje o pai não almoçará: &lt;br /&gt;O Pai. Os pés pelo sertão, atalhados plantios cambaleia em pinguelas sendas torcidas na mata a mala nas costas fere a carne dos ombros o couro cru, males de uma viagem sem fim de ofertar de sua mala as miudezas abrandamentos da vida dura do colono italiano que, plantado na terra prometida de um viver melhor, roça sem fim. Solitárias manhãs, tardes de ensolarada indecisão, fecha-se o céu chuvas em anteparos taperas de beira-estrada, abertas nuvens, os pés na lama onde antes areão e pó. Na mala o futuro. A mala, dentro os miúdos, é toda riqueza resumida. Giro para o futuro arruinado: Se molha. Se desbota. Se roubada for. &lt;br /&gt;Se, negror que interrompe o sono, irrompem sonhos pesados de interrogações atiradas na noite de denso horror: Se?: &lt;br /&gt;Minha Terra, que será dos meus! &lt;br /&gt;Meus Pais, que será de mim! &lt;br /&gt;Lá no oriente pesava a lavoura. A mala pesa aqui. Neve ou areia, lá ou aqui, o mesmo futuro deserto e frio. &lt;br /&gt;Terra de meus Filhos, que será de nós! &lt;br /&gt;Nas noites árabes mil e um desencantos, quando não o vergão da guerra os gafanhotos a devorar os sonhos, tão rapinas gafanhotos de enfurecida fome furam o chão e desmiolam as batatas plantio em duro labor, livre o solo das pedras sangrantes unhas, o arado na terra a mulher puxa feito mula o homem empurra feitor, num raio de tempo o inseto coriácea guerra devasta. Aqui, sem o lavor da língua não brilham os oásis na sonhada promissão. Se? &lt;br /&gt;Lhes, a mala nas costas, estradas sem fim. Dia inteiro sem água de beber, deserto feito pelo medo de nos regatos venenosa ser apesar do prometido frescor entre pedras corredeira, repulsiva nos casebres por infecta da pobreza suja apesar de gentil oferta em pote aberto retida; dias sem comer até s´achegasse nas terras dos Comar, alemães de origem, a limpeza com feição de saúde recupera nele a confiança. Não falassem a língua de minha terra, entendiam ao menos meus sinais: palhas no paiol para dormir, água de filtro em caneca de lata, banana e um pedaço de pão. No paiol espigas de milho, grãos nem tão duros assim. &lt;br /&gt;Lhes, imigrante do padecer. Lá e aqui, o mesmo aperto na vida, não há como fugir apenas trocar o lugar da dor a se enfrentar. &lt;br /&gt;Primeiro o mar em navio negroreiro porão onde feito gado de segunda classe convivem na disputa por lugar, alfândega e quarentena na migração, rechaçam-nos olhares oblíquos como se a peste aportassem ratos, o linguajar estranho fere os ouvidos sem tradução; depois a longa subida de trem estrada de ferro a fugir do mar a íngreme serra e se há belezas floridas entre os trilhos e entre escarpadas pedras o azul do céu nas verdes águas era aflito o choro da filha era desmedido o medo da chegada era o negror senhor de suas pálpebras a invadir a alma como se? &lt;br /&gt;O trem chega na estação sem que a viagem chegue ao fim. Baldeação. Mar de gente, perdidos sem saber ler, ouvintes surdos falar sem se fazerem compreender, no vagão sentados resta o desamparo de qual estrada aguarda-os no fim, se fim houver algum. &lt;br /&gt;Os trilhos de ferro agora buscam no planalto o sertão, novidade e terror, se há surpresa na imensa planura onde vales ondulam nuvens ondulam os trilhos nas curvas o apito de ondulados sons, chacoalham os vagões e o trem fumaça, na fumaça faísca, queima a faísca na pele a fumaça arde as narinas; e fede. Minha Terra tão longe meus irmãos e meus pais nas montanhas nevadas entre cedros sagrados, o cansaço e o sono dormido acordado sonha males negrumes sem fim. Se.&lt;br /&gt;Lhes, o Pai. Quando volta do sertão, é o silêncio dos filhos. Até o caçula se chora, tuge. Engatinha miúdo, os olhos cheios de boiada, berrante e aboio mugidos e pó na rua descalça. Os meninos varam quintais, para longe da corda inquerideira da mala com que podem apanhar impedidos do solto brincar brigar xingar e de alegria gritar. &lt;br /&gt;Dos filhos, um mais destravado. Nasceu de olhos abertos, respirou dos ares a vida oferecida sem chorar, do peito de amor o leite oferecido sem nunca chorar mamou. Jamais apanhou. &lt;br /&gt;Suspensórios, duas alças num só botão preso ao cós, Meninico, a cabeça coberta os olhos vão em busca de novos trilhos nas estradas diferentes margens em novos rios, aprendiz de jamais esquecer, nas lembranças somar e mais aprender. &lt;br /&gt;Arbatacho! &lt;br /&gt;No chão o canivete aberto para a ferrugem. &lt;br /&gt;Rabatacho! &lt;br /&gt;Beirando o rio, hoje preto de águas pelo chumbo do céu, o mais longe que foram de casa. Meninico feliz; anônimos assentam os ferros prolongando a estrada de trilhos, e o rio, fendas para o sertão. Meus pais vieram do oriente, de trem. &lt;br /&gt;Um canivete perdido no chão. &lt;br /&gt;Todos os Meninos Vizinhos puseram no canivete os olhos, mas só dois puseram as mãos: Garnisé, o irmão mais velho de Meninico, e um menino qualquer de nome chamado Zinho. O Zinho qualquer dizia que era dele o canivete no chão. O Garnisé não abre a mão. Os dois de quatro, a quatro mãos, pares de olhos às dezenas sobre a rinha do Garnisé e qualquerZinho brigões. &lt;br /&gt;Garnisé, teimoso, não solta a cobiçada prenda. &lt;br /&gt;Larga! &lt;br /&gt;A boca fechada em lábios finos, uns dentinhos, os olhos teimosos as mãos mais. &lt;br /&gt;Larga! Grita o Zinho: Larga, turco rabatacho! &lt;br /&gt;Meninico conhece esse irmão garnisé; apanha mas não pede perdão, perde mas não cede: turro fungando, ele e o canivete um só. &lt;br /&gt;Larga! Larga, roubatacho, turco preto ladrão! &lt;br /&gt;Meninico conhecendo esse irmão garnisé prepara-se para o pior. &lt;br /&gt;Garnisé, a mão abre do canivete e fecha em soco direto no queixo do Vizinho. &lt;br /&gt;ZinhoQualquer armado de ódio gira o braço e o canivete desce. &lt;br /&gt;Rápido salto, Meninico permeio. O canivete ferrugem vem. Um rasgão na camisa ferido peito sangra Meninico. Mas não há dor que o atalhe. Arranca do Zinho o canivete ferrugem de sangue marcado. Um soco e um chute, soco em cima chute em baixo, um urro ganido. Um calço rasteiro e Zinho vai ao chão; tomba sobre ele o Meninico, o canivete a prumo pronto para matar. Pendepende o canivete suspenso. Arranca-se na carreira o Meninico, o canivete nas mãos, os choros deixados para trás. &lt;br /&gt;A rua desemboca no rio. Dentro jacarés. São deles as couraças fingidos troncos. Cobras, delas os rabos finos simulam-se raízes ribeirinhas. Bocas, não é remoinho de vento n'água a gula aberta do dragão. Franças d'árvores no espelho invertidas, na verdade entes das profundas soltas vastas cabeleiras: eis que o Heborá só é rio amigo dos bugres pelo homem abatidos. &lt;br /&gt;Eu, assassim. Matei o Zinho, a camisa dele manchados de sangue ela e o canivete. &lt;br /&gt;Corre margeando o Heborá, e uma ponte sobre o rio aparecida liga a Boa Vista à Cidade; e ele à liberdade. &lt;br /&gt;Ponte e Cidade desconhecidas. A colina aponta para o céu. As profundas é lugar de assassim. Dor no peito, inchado de sangue o coração, é assim assim que se morre se uma faca fura de fora. Não volto para casa, conheço meu pai e a corda que me castigará pecador. &lt;br /&gt;Meninico apalpa o peito apalpa o rasgo a doer e alivia na alma a dor que desnecessária sente. O sangue na camisa de Zinho é meu sangue vertido do peito que, ferida a carne, dela derramou-se nódoa no derrotado inimigo. Inocente. Não peco, se defensor do irmão. Aguarda-me o céu, campos elísios do guerreiro no colo da Virgem repousar dos combates. &lt;br /&gt;Resta meu pai: é deixar o tempo correr, chego manso e peço perdão paizinho. O Garnisé, esse meu irmão teima e apanha, apanha e teima e agora tanto apanha que sobre ele se atira a mãe para desviar da corda a carne do filho teimoso e sobra para ela a dor do vergão. Não volto já. &lt;br /&gt;No alto da colina a igreja em construção. Encantado Meninico vai. &lt;br /&gt;Anônimos vão em direção à Praça da Matriz para a igreja em construção de orago São José; serventes de pedreiro saídos da roça opilados caminham amarelões, fortes apesar de empambados. descalços brim desbotado remendos de per si rasgados, enxadas nos ombros não vão os Anônimos raspar o capim sequer dos plantios enfrutados proceder colheita mas, amassado barro medido ao prumo, tijolo a tijolo em Catedral erguem a nova igreja. Mais encantado ficou Meninico que encantado veio: &lt;br /&gt;Eis a Cidade, paralelepípedo no leito das ruas ladrilhadas as testeiras das casas niveladas, meada de fios equilibra os postes de luz e as lojas em fila expõem-se comerciais, a buzina passa e o carro se aproxima, o cavalo relincha o burro empaca. Na janela olha a mulher envelhecida. Um pedinte na calçada esmola. &lt;br /&gt;Os tecidos expostos sobre suportes peças de linhos e cortes de casimiras desfraldados porta afora pelo vento, bandeiras do comércio. Em cabide, prego na parede, um guarda-pó e sob a gola lenços coloridos também ao vento saúdam os que pensativos passam. Ringe a polaina, olhos abotoados no peito dos sapatos, o senhor faz tripé na bengala. A senhora passa e o perfume fica. De comistão ao sopro da roupa cheirando nova nas prateleiras fixas. O bafo do caporal que passa fica. De comistão à queima da gasolina deliciosa. Ao ronco do motor o som dos saltos nos ladrilhos, nas pedras trisca a ferradura, vagas vozes no ar s´evolam. &lt;br /&gt;O padre Damiano louva Jesus Cristo. Louvado seja, retribuído por Jaime farmacêutico, que surpreendido fica: &lt;br /&gt;É sangue no rasgão da camisa desse meninico? pergunta agarrando-o pelos ombros, ao tentar fugir. &lt;br /&gt;A farmácia é adocicada bala. De alcaçuz, diz Jaime ao dar-lhe uma dentre as pastilhas, confecção do aprendiz do farmacêutico. &lt;br /&gt;Com aroma de vinícola entra renque  pautado de sorriso claro os limpos padres vestidos pretos, allius post allium, seguindo Damiano. A tonsura repete-se brancura em nacarada gola e os dentes perfeita dentadura. Louvado seja Nosso Senhor, barítonas vozes ecoam corais de todas as partes: a farmácia uma nave laica. Iluminada do sol feito estilhaços tais vitrais os vidros variegados dentro cheiros cativos dos eméticos vermífugos emolientes e estípticos sob rótulos manuscritos em gótico antíquo, da janela a catedral pronta quase é estampa no tempo imóvel. &lt;br /&gt;Ordenados tabuleiros, brancas e pretas tábulas, prontos para o jogo das damas os padres na calorenta manhã. A cada gesto desprende-se o odor de vinho de comistura ao adocicado alcaçuz; destampado o frasco embebe-se o ar do'spírito d'álcool e a mão do farmacêutico em lavabo d'assepsia pronta está para o sacrifício do Meninico. Gritar eu não grito que de nada adianta. Na branca nave o vozerio em rosário de risos clericais levanta-se do chumaço negror de batinas a comer as damas e no algodão um milagre de transformação d'água em pura rosa espuma oxígenogerada explica Jaime o farmacêutico, a mesma substância a lavar das feridas suas pestilências: isso pacifica a alma do Meninico. &lt;br /&gt;Silêncio. &lt;br /&gt;Graças damos ao Senhor: &lt;br /&gt;Comidas as damas e as serviçais branca ou negra, comprazem-se os padres vestidos pretos, num pós-prândio sonambúlico, em olhar a catedral perfeita, sua torre ainda a meio céu erguida. Vista postal da farmácia. Pronta será nosso cartão de visita, repetem todos cidadãos. &lt;br /&gt;Emocionado silêncio, a pouco e pouco preenchido pelas barítonas vozes elevando-se devagar com ridentes comentários que pronto, o altar-mor, aguarda em seu nicho o São José, orago. O farmacêutico, pincelando mercúrio cromo na ferida, quis saber por que não ocupa ainda o orago seu lugar honorífico. Argumenta Jaime: Amargou, o Casto Protetor, secular esquecimento em choça de bárbaro bugre no aguardo do resgate cristão. O luxo de um nicho, entre luzes fluorescentes flores de corolas lâmpadas de piscar colorido recebendo o resplendor do ostensório ao deixar sagrada a hóstia o recato do sacrário, seria condicente moradia. &lt;br /&gt;A causa são as botas; sentenciam os padres em curta sermoa. &lt;br /&gt;Já encomendamos uma linda imagem de serena beleza as vestimentas com bordas ourejadas em grega composta. O das Botas ficará na lateral direita sobre estrado de madeira, qual relíquia antiqua. &lt;br /&gt;Meninico olha o peito, tinta em vermelho a ferida; de relance vê transpassada a face de dor do farmacêutico, que apela indagativo e indignado: &lt;br /&gt;Pelas botas! &lt;br /&gt;Não só. O todo merece reparos. Entoam coro coral os curas: em privado concílio decidimos, e decidido está: outra imagem ocupará o nicho mor, o das botas o lateral. &lt;br /&gt;A ferida esquecida, o farmacêutico empunha parada no ar pinça feito lança na ponta chumaço vermelho de onde o mercúrio a prestes gotejar: &lt;br /&gt;As botas, protetoras da cidade!; profere a boca pecada qual fruto seco, imbecil beiço em queda quase-cuspo chupado de volta, o céptico farmacêutico, a gota do mercúrio cai não cai. &lt;br /&gt;Botas nada protegem, atalha padre Damiano, corifeu entre os coreutas. Erudito prossegue: são as botas um arranjo popular, gosto barroco de medievos artesãos. Se não vejamos:&lt;br /&gt;Túnica curta, roupagem de carpinteiro, era esse o santo José da Idade Média, bastão recurvo no severo Gótico que se alindou de flores no Renascimento. Na fuga para o Egito trajos de viajor sobressaindo-se capa turbante esvoaçada ao vento ou chapéu de abas largas caídas em sombreado semblante, filho da preocupação. Botas, nunca. &lt;br /&gt;Outrossim outros santos: &lt;br /&gt;São Matias substitui Judas como discípulo de Jesus; vestido qual demais discípulos de pálio e túnica suas imagens se vestem. Nele difere pender de seu pescoço corda de enforcado, suplício de mártir que por vezes carrega nas mãos. Mas a partir de séculos dez e anos quinhentos mais, a Matias santo troca-se a corda por uma lança quando não por um cutelo. Nem nos protege a corda, nem lança ou cutelo protegem ninguém; sendo sim essas armas gosto do artesão. Nada implicativo com Matias. &lt;br /&gt;Corifeu recita padre Damiano o nome de santos outros. Coristas os demais nomeiam, em responso, vestes adornos atributos, cada qual em diferentes alturas de som a duas vozes ou três por vez em cantochão à maneira de ladainha. Jaime farmacêutico escuta; da pinça o mercúrio goteja sanguíneo no ladrilho branco da farmácia feito capela: &lt;br /&gt;São Benedito, franciscano siciliano filho d'escravos africanos, é marron o hábito, branco o cíngulo e, se flores na esquerda o artesão esculpe no lugar da cruz então será Benedito Santo das Flores a poesia que no altar veneramos nós. &lt;br /&gt;Sanctus Benedictus, pai dos padres bentos, cruz peitoral sobre a cogula, u'a mão lança bendição d´outra pende o báculo abacial e, quer imberbe quer barba traga na face por variação, diversifica também o popular artífice esculpir junto dele um cálice com serpente entrelaçada ou um corvo prendendo pedaço de pão no bico calado. Atributos do Silêncio, Regra da Ordem, nada a ver com proteção. &lt;br /&gt;Santo Elesbão, rei etíope. Significa Abençoado seu nome Elesbão no pais da Etiópia. Convertido, além de igrejas tantas em seu reino levantar, a Jerusalém envia sua Coroa embrechada de pedras variadas na espécie inúmeras cores elevado valor: eis porquê numa das mãos é uma igreja o atributo de freqüência maior em suas imagens. Rei sem coroa, exposta a tonsura circular. &lt;br /&gt;Santa Bárbara, senhora dos raios, no batuque confundidos fanatismo e religião abstida fica a Igreja de manifestar-se. Mas a palma nas mãos, não é a palma e sim a santa quem dos raios nos livra da electrificação. &lt;br /&gt;São Miguel, um demônio aos pés sujigado ou pesando das almas sua sujidade. Estátua ou estampa, nelas assim se configura: lança ou balança nas mãos, é a preciosidade do artesão quem dita. O Santo Núncio, anjo que é, as asas diferenciam-no de São Jorge, romanos os dois nas vestes guerreiras e São Jorge eqüinomontado, que tem a ver o cavalo com a Fé? Quem nos protege, São José ou as botas? &lt;br /&gt;Grave pontifica Damiano: Vida de santo e santa paz em vida não se conjugam como caminho para Deus. Ensinam-nos os beatíficos que, para a felicidade perfeita no eterno, somente a dor é seguro guia. &lt;br /&gt;Uma pincelada desatenta desenha no peito do Meninico uma chaga aberta a escorrer mercúrio que, enfático barroco, berra nas cores o martírio. &lt;br /&gt;Coristas, os padres sopesam: nos sertões do tempo, época de intensa barbárie vem o conquistador, no seu comércio beduíno de bando armado com ferocidade mamaruca, pondo mataria abaixo sob calcar das botas, aos vencidos se prisioneiros não escravizam matam: o mamaruco sangue híbrido carrega n´alma ferocidades somadas. &lt;br /&gt;Corifeu, Damiano pondera: e o bugre recém convertido, ou aceita o baptismo como penhor da Fé ou é lupina ira revestida de pele cordial a subverter com subtilezas os valores da superbíssima Madre amada Igreja. &lt;br /&gt;E grave Damiano monodia, intercalados apartes dos outros padres, confirmando em baixo contínuo: &lt;br /&gt;Além das botas, as feições. O artesão, que de São José talhou a imagem, talvez fosse um recém convertido bugre. &lt;br /&gt;E o São José não só calça botas, atributo do conquistador, como marca o artesão o próprio rosto no ocre da pele nos malares pontudos na testa corcova no cabelo grosso lisa barba rala as origens de conquistado. &lt;br /&gt;Corifeu e coristas: São José das Botas, misto de vencedor e vencido.&lt;br /&gt;Corifeu: Merece o altar-mor, à altura da Cidade de civilização em grau elevado, merece a Cidade um São José de finas feições talhado, amarelo pálio de gregas pregas ombreando túnica em roxo desmaiado, e nas mãos o lírio da castidade nos braços o Menino filho seu por Santo Espírito gerado, ondulados cachos cabelo e barba, paternal sobriedade.&lt;br /&gt;Ao São José das Botas, o museu de um altar ao lado. &lt;br /&gt;Damos graças.&lt;br /&gt;Quero ser aprendiz de farmácia. Se. &lt;br /&gt;Apenas doeu a injeção. Meninico volta para casa, o irmão já terá apanhado, o pai mais calmo, se! &lt;br /&gt;Atravessa o Heborá. As mãos nas traves da ponte. A seus pés corre a rabeira do tempo feito águas do rio. Não há trem para a coragem dos homens. A pé na mata intrincada de clareiras falsas em sonhos escuros, a coragem empurra os homens para dentro do horror. No Heborá mães brincavam com seus filhinhos, desatentas ao perigo do iminente ataque. Sem piedade. Pólvora contra curabi, a frechervada. &lt;br /&gt;Resta um rio onde despejam os afluentes suas águas variegadas, se chove muito Pardo, Claro em manhãs d'estio, Azul refletido o céu das tardes, Verde tinto espelho das matas, Preto no mor das vezes, Rio Vermelho agora pelo cruor derramado; e numa choça recém talhado resta um São José, testemunha dos sonhos comidos pelo Negror da Noite, onde aguarda envergonhado o museu de amanhã. Se. &lt;br /&gt;Depressa meu filho, a mãe ainda não preocupada, toma banho, troca a roupa, calça as botas. Você vai com seu pai, às compras, na Capital. &lt;br /&gt;A mão acarinha a chaga: &lt;br /&gt;Você menino de valor, disse a mãe, você meus olhos. &lt;br /&gt;O trem rumo ao oriente. &lt;br /&gt;Rápida a paisagem solta-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Arquivo número 004 de Conto Romances&lt;br /&gt;Paulino Tarraf&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão de 17/08/2007  sobre Versão de 01/06/1999&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-5507467694058312168?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/5507467694058312168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=5507467694058312168' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5507467694058312168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5507467694058312168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/04-so-jos-das-botas.html' title='04 &lt;strong&gt;São José, das botas&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-8551413972612839980</id><published>2007-12-01T12:18:00.001-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:39.123-08:00</updated><title type='text'>05 Olhos nas Penas</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GvQ4UIJI/AAAAAAAAABk/xvuL9ih76Ms/s1600-h/olhos_nas_penas.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GvQ4UIJI/AAAAAAAAABk/xvuL9ih76Ms/s320/olhos_nas_penas.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5124681572537344146" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Conto Romances Arquivo 05&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Olhos nas Penas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pés, lamelares imbricam-se répteis escamas amarelas feito ouro opaco guardadas por espora córnea penetrante para horrendo corte, vacilam passos suposto donaire, lenta cautela é oval o corpo empenado, e majestosa a cauda abertas plumas de muitos olhos vigilantes da inveja que o vistoso de seu porte pavão engendrará. Tiara repete da cauda o ornato. Solene vira-se de novo em círculo passeia a formosura pelo quintal. &lt;br /&gt;Triste tarde de Domingo. &lt;br /&gt;Raphael de nascença sensível. Pretendia Joanna dos Anjos, sua mãe, balizá-lo Rivail ou Denizard, Álvaro quiçá imposto pelo claro da pele, Raphael nome archanjo ficou. Contempla a beleza pavão passageira: solene formosura altivo alternar dos passos, repente se vira, e o leque de olhos passeia, falsa indiferença, pelo arroubo que na cena aberto causa. &lt;br /&gt;Alberga-se Raphael da calma vesperal sob caramanchel de madressilvas, as sombras ao balanceio da brisa. Assovio fininho alinha em colcheias o Capriccio Italiano nota por nota. Inexistentes senhos amores. Cai o seu desemparceirado amor no vão dessa triste domingueira. &lt;br /&gt;Raphael, ourado Álvaro, sensível Rivail, escuta. O som sutil gemer e sorver, o jabuticabal suscita e Raphael quase Denizard escuta; a mais ninguém fere o som do pomar fluente. &lt;br /&gt;As famílias, tantas, em busca da paz do recanto por eles devorada. Ruidosa molecada. Desordenada falação. &lt;br /&gt;As jabuticabeiras, centenas delas crespas de vesículas pretas seivassugas a sorver sem parar os troncos gemidos de dor abafados pelos gritos dos moleques índios soltos na pradaria do quintal, em guerra machadinha de graveto na mão galopadas em pêlo de cavalos de pau, contra eles mocinhos valerosos cavaleiros, revólveres espoucam balas sem fim nem som feito cinematographia, bando tormento nas mães cuidosas de se não machucarem os filhos andam à roda aflitas, tumefacto pescoço estendido feito peru a gorgulhar vermelhidões. Raphael aguça o espírito. Afina cordas n'alma em busca do ulular transido de aléns: das bocas o chuchurreio sem parar o tronco a gemer. &lt;br /&gt;: Aqui. &lt;br /&gt;Entra a família. &lt;br /&gt;: Aqui; disse a Mãe aos filhos. &lt;br /&gt;O Pai vem lentos passos, afastado como a sonhar. Ao lado dele o filho dito teimoso garnisé distraído e o outro filho Meninico, mal chega, fixo olhar nos olhos emparelhados do Pavão na cauda e uma pena promete soltar-se. &lt;br /&gt;: Aqui, a chacra dos Bertazzos; diz a Mãe rindo-se do que em árabe chacra pomar não quer dizer. Voz cristalina, dela as luzes se não entende o que diz é poesia o som. O bebê caçula ao colo, a mais velha com a irmã menor, de lado atarracada na cintura. &lt;br /&gt;Não escapa de Raphael aura de evidente bravura iridescente na mulher que chega. Triste tarde de Domingo, na chácara Raphael à sombra das madressilvas, de frente ao jabuticabal, o pavão de alegres penas, contempla Raphael nas famílias que chegam a própria solidão. &lt;br /&gt;Os Domingos, nas folhinhas marcados números em vermelho, domingos dos passeios depois do almoço de macarrão e carne, alface repolho e hortelã na salada de pão azeite e vinagre, o domingo é dia inteiro de vermelha alegria: rumo à chacra dos Bertazzos. Terão muito de andar, acostumados embora. &lt;br /&gt;Trancou a porta? Mil trancas houvesse. &lt;br /&gt;Sumidos da vista na virada da rua descida. Ninguém olha para trás. &lt;br /&gt;Às caladas uma mulher. Posta-se frente à casa. Nada podem trancas de madeira contra a maldade. A mão levantada contra o céu reza maldições. Lança em cruz desbenedita terrorões de solos mortos sobre o telhado, portas e laterais. Um punhado do chão aos céus, pelas abominações. Da esquerda para a direita, pelas tinhas e podridões. Amém sobre a porta, clama miséria por gerações. Retira-se, a casa trancada. De hoje a sete dias aguardará calada. &lt;br /&gt;O Pai na frente os outros atrás, chapéu na cabeça o sol por nuvem negra em cruz reversa coberto, descem até findar a Boiadeira, atravessa o rio ponte quase pinguela de muitos troncos e varetas amarradas de corda, muito mato ao derredor. Onde quem sabe a guabiroba é mais perto que as jabuticabas, de graça, apanho no pé e dou para todos teima o Garnizé. Anda moleque, a voz tremenda do Pai. Um tapa armado perde-se no ar. &lt;br /&gt;Em corredeira mansa o rio, preto fluir, já fluiu verdes águas, pardo, claro azul. &lt;br /&gt;Safanão certeiro em Teimoso por chacoalhar-se na pinguela e Meninico a salvo de apanhar, apesar de autor da brincadeira, mantida a prudente distância como sempre escapa dos tapas da corda do castigo. &lt;br /&gt;Além da Adamasceno, colina gêmea da Boa Vista, subida inteira é a longe chácara das maduras jabuticabas, os donos Bertazzos são ricos de dinheiro embaixo dos colchões. &lt;br /&gt;Na subida o Pai na frente, a Mãe logo atrás. Apressa o filho distraído. Teimoso ficaria por ali no mato enfiado à cata de guabiroba, não importa se azedas chupar quantas queira no pé. &lt;br /&gt;Ninguém olha para trás. Da subida vê-se a torre da Catedral, na Cidade, tijolo a tijolo buscar o céu. &lt;br /&gt;: Aqui, chegamos; diz a Mãe, o melhor vestido preto de sair, tinha bordado em folha de uva de vinho colorida, as miçangas brilhantes sobre o colo que há mais de anos cinco amamenta sem parar, filho filhos após. &lt;br /&gt;Aura notável, não se cansa Raphael de bendizer. Os olhos dela passeiam maravilhados pela multidão de gentes a falar, todos ao mesmo tempo, a língua que mal compreende. Dá ao caçula o peito retirado debaixo da folha de uva com a experiente mão. &lt;br /&gt;Os Bertazzos quando podem comem a própria carne, as unhas ao menos, pensa Raphael demorar esta chácara longínqua à caridade: Jabuticabas só em canecas, sem permissão de catar no pé; insistência é teima burra, não adianta tentar. &lt;br /&gt;A filha mais velha, seu nome Querida, na fila canecas na mão descansa as costas de carregar a irmã menor, começando andar. &lt;br /&gt;As confinadas jabuticabeiras, arame rico em farpas sem vãos. Jabuticabas, a família Bertazzo vende! murchem nos pés para alegria dos pássaros, apodreçam no chão para tristezas dos pobres: nem comem: nem dão. &lt;br /&gt;Pretas brilham no tronco, se frutas para uns, martirizantes seivassugas sussurros de dor feridos n’alma de Raphael; as folhas ao vento sinfonia universal. &lt;br /&gt;Meninico, onde vai o Pavão e a pena quase a soltar-se enamorado olho, lento caminha ele atrás. E atrás segue polícia um dos Bertazzos, velho andrajo vestido disfarça andar. Cada pena vale fortuna, na contabilidade da penúria renovo da usura. Pensa Raphael. &lt;br /&gt;Sentada à sombra do caramanchel de madressilvas perfumado, a Mãe dá-se à boca rósea do filho menor. Tenta e Raphael não entende a longa explicação: &lt;br /&gt;Vieram de longe, M’lhes e M’lia nossos nomes, viemos do além mar de navio, de trem subiram a serra e da Capital muitas horas a mais viajores, M’lhes mascate as malas nas costas meses pelas roças, quando escasso o dinar vendo bugigangas de porta em porta para o comer do dia-a-dia. Raphael interessa-se em comprar. &lt;br /&gt;Arame farpas alfinetam brilhos ao sol e a cerca, e nela Prohibido Passar veta a delícia de arrancar do pé a jabuticaba preta. Lamentam Meninico e Garnisé dito teimoso e distraído, para quem delícias são as guabirobas azedas doces veludos carícias no céu da boca ao estalo da casca. &lt;br /&gt;Quieto Meninico estuda na cerca uma fenda por onde o paraíso inicia seu chão. Mas contrasta a cerca sólido tapigo, com a casa tapera desabrigo. Demorada em sovinice construída. A miséria reforma rachaduras com amarradas de arame em estacas apoiadas paredes, telhado cobertos por retalhos de zinco e lata reinam os vãos, as janelas onde vidros agora papelão, a porta tábuas remendam tábuas, dentro quem viu enojou-se dos catres palha sobre estrado ensebados lençóis outrora vestidos e camisas alinhavados, bambos caixotes mesa ou cadeiras conforme convém, almoço sobra para o jantar em latão feito prato ou caneca, o cheiro condiz percevejos e as galinhas soltas pela sala além das lêndeas piolhos e o solo em chão batido por ali defecam cães urinam gatos. Rebrilha renovada cerca ao sol, no portão é fresca a tinta onde aguarde em fila escreve a sanha dos Bertazzos para quem usura precede usar. &lt;br /&gt;Meninico não desiste, um olho na cerca outro no Pavão; nele meninico grudados os velhos olhos bertazzos andrajos vestidos. E Meninico doce, pensa alto que um pequeno puxão ajuda a cair o que a natureza vai daqui a pouco derrubar. Moleque, nem pensar; esfarrapada e rouca sentencia Velha Voz: se você arranca a pluma do Pavão ele morre de penar. Quando de uma se desfaz é que nova pronta já desponta como o definitivo ao dente de leite ocupa o lugar. &lt;br /&gt;Então espero cair, de pronto pensa e cala o Meninico, pois já sabe que dessa Rouca Voz apenas senões há por vir. &lt;br /&gt;Num quérulo sibilam as folhas das jabuticabeiras. Só Raphael escuta, e aura suave por elas não perpassa, antes circunda-as e alta veste as franças do arvoredo maior de ouro fluido rubi pó de prata e minutas vibrações assoviam de volta o Capriccio. Jabuticabal ninho da usura. Dizem dele esconder no antro de seu putrefeito solo em arca de flandres o dinheiro alimentado da miséria dos Bertazzos. E com o quérulo desprende-se saturno miasma resíduo das lágrimas que dos troncos deslizam, e maceradas no chão molhado as frutas rompidas cascas nos pisões são olhos que de dentro saltam. &lt;br /&gt;Alheio vozerio. Dos moços em namorisco as moças rubejas, ronda o amor de sinais trocados rápido piscar lábios mordiscados e dedos mal se tocam consentidos. Disfarça Raphael o solitário coração a escutar das folhas o murmurejo gaio não fosse o baixo contínuo flente dos espoliados troncos: val lacrimal. &lt;br /&gt;Alguém, à victrola manivela, amante da música faz descer das nuvens novos sons e anjos negros sopram trombetas convites para os braços aos céus elevarem-se em profana prece, clarins sinuosos serpenteiam cinturas e os tambores continuam-se nos pés, em tuti a orquestra ataca sincopado para o mundo bailar o jazz. &lt;br /&gt;Névoa de pó na estrada rósea, reluzente carro a céu aberto a buzina solta os gritos de alegria, e lindas moças frágeis melindres, descem os joelhos à mostra, e numa delas a blusa cobre reta os seios delicadas saliências entre elas o colar falsas pérolas é jóia verdadeira a balouçar:&lt;br /&gt;Olga. &lt;br /&gt;Cessam os sons. Que: as crianças que até agora brincavam a cabra cega, brincam ainda. As bocas melindrosas abrem-se para sorriso de riso nenhum. Sem ruídos no cascalho arranhado das botinas. Os meninos, em doida cavalaria, seus revólveres soltam fumaça muda de tiros; e tombam os índios silenciosa morte para horror das mães as camisas sujas e os lábios movem veemente repreensão como os gestos o cenho de carregada ira cessados sons; para Raphael porquê: &lt;br /&gt;Olga. &lt;br /&gt;Scenacinema. Paralisados atos. Na tela da tarde, somente ela, calorosa, move-se estrela vespertina.&lt;br /&gt;Olga. &lt;br /&gt;Abre-se o riso, brilho e aragem, acena delicada mão. Perfumada boca. Reveste a pele finíssimo vapor. Talvez dela se desprendesse a aura, que linda nas árvores mais altas iluminadas cores sussurra para Raphael ser Olga casta carne alma espelho da sua, sendas solidões. &lt;br /&gt;Gaios rapazes três, solícitos palheta na mão acorrem à sua chegada, e prontos para a corte esmerado servir doces sorrisos, nada falte à beleza que chega, mas o Pavão! &lt;br /&gt;Meninico aguarda o presente do Paraíso em Plumas, mil olhos em multicor aberto leque. E os olhos das penas devolvem iridescentes os olhares maravilhados das gentes. Bertazzo de guarda. Airoso move-se avis rara na passadeira do fascínio. &lt;br /&gt;: Ave da Fortuna; Olga encantada ouve Raphael. Aprendiz de alfaiate logo terá oficina própria; pois macchina das mais modernas que o século produziu, já tem. Fortuna é futuro construído de boas ações. &lt;br /&gt;: Pavão de remoto oriente o uiramembi de mato grosso é pavó longínqua cópia. &lt;br /&gt;Brilha esverdeado capuz feito saio a cair penugem pescoço abaixo. Nuança violeta. Laivos pretos. Lento move coroada cabeça a penugem feito saio leve roda: íris em arco acaricia a vista. Meninico no compasso de seu cadenciado andar. Vigilante Bertazzo vê sua propriedade ameaçada. &lt;br /&gt;: Useiros e vezeiros da usura, diz Raphael. &lt;br /&gt;A velha Bertazzo guardiã da cerca. Compradores em fila. Os filhos dela vão e voltam do jabuticabal, canecas cheias canecas vazias, os dedos ressequidos da velha conferem os tostões, soltos na caneca um por um a tilintar, a fala do ouro calmo som aninhado nas cavernas do ouvido. &lt;br /&gt;Diz Raphael. Olga encantada: Jabuticabas a canecas, contadas cinqüentas ou quantas caibam sem chorar pelas bordas. Bertazzo pai Bertazzo mãe, Bertazzo um filho duas filhas Bertazzo. Paridos na mesma penúria. Vestidos em trapo com trapos remendados. Velho e velha entre si alinhavados os filhos envilecidos. Sua alma sua palma. Encarquilhada pele, pálpebras abertas de esgares vígeis, os lábios contam recontam passam perpassam a mealha de tostões, moedas desgrudadas por infindas matemáticas mussitadas. Ricos, tanto guardam quanto nada têm. A miséria vivida. Padecem esquecidos da fortuna. Pagas de passadas vidas. Enterrados seus ouros em cavos fundos no pomar úmido das lágrimas dos espoliados, são os troncos ossos que do solo afloram, braços feito galhos que aos céus erguidos por justiça inda hoje passadas vidas o sumo de suas almas preenchem os tostões, doce mel aprisionado em coriácea casca. &lt;br /&gt;Mordida escorre sumo de mole frialdade; Olga retira-a rápida da boca e da fenda um olho esvaziado exibe indecisa pupila. Vai ao chão, pavimentado de folhas, companhia de muitas outras cascas rompidas. &lt;br /&gt;Sobre esse tapete desfila o Pavão. Meninico imita gracioso o passo'a'passo. Acena-lhe a pena prestes a dar-se. &lt;br /&gt;Olga espanta-se num quase-grito: Horrendos pés. &lt;br /&gt;O Pavão, perfurados olhos, suas unhas bebem-se nos humores hialinos. &lt;br /&gt;: Envergonha-se o pavão à morte, dono de tanta beleza construída sobre aleijão; deliciado discorre Raphael, Olga num trejeito de nojo estudado, escuta: Um monumento faz jus a uma base larga e sólida. Assim, se lhe deve Deus os pés, em seu lugar esculpiu uma base de pedras incultas. &lt;br /&gt;É pavão estátua viva da própria beleza em pedestal feito garras. &lt;br /&gt;Olga ri, e gira ao som do cascalhar. Giram juntos os falsos brilhos tantas voltas seu colar ciranda de pérolas desconhecidas do mar. Seguem seus meneios passos de valsa; não os cabelos curtos como no cinema em ondas marcados; não a saia do vestido justo como no cinema usam-no chinês abertos, para o escândalo, de lado; apenas os pés em valsar passeado delicados sapatos de salto em vidro Olga solta no ar. &lt;br /&gt;Para o pavão é próprio ser agradável de ouvir o canto de quem belas plumas são colírios, diz Raphael e Olga fita o Pavão movimentos lentos. Fascínio a caminhar sobre pedestal ele vem glissando olhos. Ensaia corrida e corre e vôo baixo pousa-o solene divo em tronco de cortiça dourada contínuo de gorovinhas a subir até penugens prenúncio da beleza qu'estendida em arcos sucessivos tem na mata e horizontes por limite o céu em celagem monumental: abre o bico e o encanto se desfaz. &lt;br /&gt;Bruto canto, rudo poema é estrídulo grito, malho em bigorna desafinado apito, risco de prego em granito. Fere tímpanos rasga semblantes té então extasiados em pedaços de caraças e facetados cenhos. &lt;br /&gt;Ele não sabe que desagrada? indaga Olga, unhas cintilantes a premir as têmporas, franjas em arabescos na testa sem franzir, a boca escuro bâton como nas telas estrelas arfam desejos ela estala ui em bico. &lt;br /&gt;Não, prossegue Raphael professoral: ele fecha os olhos para melhor encantar-se de que Deus a ele nada fez faltar; e não vê o nojo nas caras ouvintes estampado. &lt;br /&gt;Olga de novo ri-se. &lt;br /&gt;A seu riso retribui um sorriso a Mãe a fitar Querida na fila de canecas, cinco filhos não me queixo, diz ouvindo o canto do pavão. &lt;br /&gt;Findo o canto, um choro de dor e susto. Aprendendo a andar, curiosa do mundo, a filha mais nova aproxima-se do fogo que entre pedras água s'aferventa em bolhas, e sobre seus pés derrama-se fervura. &lt;br /&gt;Grita horrendo o Pavão, e salto brusco finca os dedos num tronco: é o susto que lhe desdobra a cauda. De pavor arvoredo recua um passo atrás. &lt;br /&gt;Do alto reversa cruz de negra nuvem ao azul esfuma. &lt;br /&gt;Não mais se desprende aura leve brisa do cimo das árvores copadas, sim desinquieta ventania; e ao grito do Pavão continua-se o choro a custo do caçula. Em sobressalto a Mãe Aflita guarda o peito sob a parra. Assopra do filho a boca, úmida e rosa da mamada, agora um filete de azulado afogamento afina os lábios. Cessa a pieira mas resta choramingo enjoado. Não é mais o mesmo filho, pressente a Mãe, confirma sensitivo Raphael, malfeitoria a revelar-se no arvoredo revolto, no odor pútrido do solo alevantado, nas jabuticabas esbulhadas de seus sucos eviscerados olhos rompida casca brilham as iniqüidades; e o Pavão recolhe as penas num chumaço protetor por saber-se fraco frente a tanta ira deflagrada. &lt;br /&gt;Dá pé-de-vento. O chapéu no remoinho. &lt;br /&gt;Coça-se o Pai, primeiro nos braços, esfoliam pele ressequida as desobedientes unhas, estrias sanguinas rasteiros caminhos do desepero, e pênfigos levantam-se bolhosos para rebentados soltarem viscosa molha. Tudo no silêncio cochichado de perguntar à Mãe, meu Deus M'hlia, que será de mim? Um inseto talvez, M'lhes, abelha do mato selvagem ferrão, cura com álcool e logo passa. &lt;br /&gt;Não sabe a Mãe a que acudir: no menor desfigurado o choro, no Pai dolorido a vermelhidão coçeira dos braços atinge o pescoço e levantam-se furúnculos, na menina menor as queimaduras. Raphael presencia com horror a ruína na aura da Mãe as cores antes nítidas geometrias império de borrões, enxame de abomináveis da soledade advindos, malfeito invocado, a crespa do mal pelo vento soprada terra de cemitério e o Pai a crosta pele em arranhões, choraminga o caçula pressentem Raphael e a Mãe, a família não mais a mesma. &lt;br /&gt;Olga, sua calma minha alma, gêmea encarnação de meus anseios. &lt;br /&gt;Do jabuticabal agora pântano lodoso arrebentam-se bolhas trazidas das profundas os vapores fétidos dos que se recusaram invejosos deixar para os vivos as delícias de ter na boca o mel acetinado que Meninico procura, olho na pena da fortuna olho na cerca da fartura a fenda por onde seu corpo de menino cabe entrar. Ao meninico não afeta o miasma asfixia de todos. Corre alegre comunicar ao mais velho a descoberta do tesouro:&lt;br /&gt;Zégarnisé; sussurra, a cerca não é só arame. Mais abaixo hibiscos fazem cerca viva. Para além da bela-emília. Vamos lá. &lt;br /&gt;Zé cuidadoso do irmão não sabe precedê-lo a teimosia por fama. Hoje como nunca sua pele a dor irá sentir, surra de corda para aprender, pagará , &lt;br /&gt;: Você não, que é muito meninico. Se não houver perigo venho buscar você. &lt;br /&gt;E foi, antes devagar saiu cuidadoso, mais distraído menos teimoso, e maravilhado entre as jabuticabas pretas pavonáceas de bugalhos sacados a sonhada guabirobas no pé verdes ao ponto fez valer a surra de corda à noite cada vergão o veludo no palatável; deixou-se ficar. &lt;br /&gt;: Vamos embora; entrecortada voz diz a Mãe. Reúne todos e sumido garnisé: Joseph! chama o teimoso; mas ninguém sabe que onde ele está é um pomar de delícias a prendê-lo distraído sempre um pouco mais. &lt;br /&gt;Alvoroço na chacra. Todos colocam-se em busca, a chamar. Os Bertazzos, apreensivos que afundado no pomar, incalculável prejuízo, quebram a vigilância da cerca e das penas. E assim, invade o povo a passagem prohibida para alegria maior das almas sofridas garante Raphael, as jabuticabeiras aliviadas de suas seivassugas incitam por aveludadas doçuras fiquem todos sempre um pouco mais. &lt;br /&gt;Coração partido a Mãe quer de volta o filho. O Pai promete, na volta, corda no lombo sentida. &lt;br /&gt;Esquecidos, o Pavão e Meninico entendem-se à maravilha. Num giro de graciosa precisão exibe-se só para ele em belíssimo nunca visto, uma pena destacada da outra rejunta-se em farfalhar de seda, um canto único de afinada carícia e tátil melodia. Solta-se um pena, e ao som cadenciado das plumas flutua fortuna aos pés descalços de Meninico agradecido: &lt;br /&gt;— Para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 05 de Conto Romances&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulino Tarraf&lt;br /&gt;Versão de 30/10/2007 sobre a versão de 04/08/2007 sobre a versão de 07/07/2004 sobre versão de 02/01/2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-8551413972612839980?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/8551413972612839980/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=8551413972612839980' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/8551413972612839980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/8551413972612839980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/05-olhos-nas-penas.html' title='05 &lt;strong&gt;Olhos nas Penas&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GvQ4UIJI/AAAAAAAAABk/xvuL9ih76Ms/s72-c/olhos_nas_penas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-2826951312270770560</id><published>2007-12-01T12:17:00.001-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:39.279-08:00</updated><title type='text'>06 BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1XiHl5iNsI/AAAAAAAAAFQ/bJWxUfNHflA/s1600-h/bebedaniels-v01.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1XiHl5iNsI/AAAAAAAAAFQ/bJWxUfNHflA/s400/bebedaniels-v01.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5140263169773680322" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;Conto Romances Arquivo 06&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinema. Baixos da Boa Vista. &lt;br /&gt;Raphael no saguão de entrada assobia-cantábile o Capricho Italiano; Peixoto virá, espera. Andante com passo retardo, entre os suportes dos cartazes dos filmes para breve, de furtivo viés a menina admira o bico de esforço do silvo e as bochechas que inflam e desinflam no glissar da melodia. &lt;br /&gt;Raphael aprendiz de alfaiate, ainda. Sibilo em desafino. A mãe, Joanna dos Anjos, queria seu nome chamado Álvaro, tanto branca a pele, mas lindo que era de cabelos em cachos Raphael, qual archanjo, em registro de cartório firmou-se. Pausa os passos frente a cada cartaz e o melódico Capricho muda em sincopados diversos conforme seja drama comédia ou ação o gênero anunciado; para diferentes filmes alterna o fundo musical; a menina segue no compasso dele, divertida. &lt;br /&gt;Da algibeira retira benigno bexiga murcha, sopra forte e o vermelho de brilhante bola é regalo aos olhos da menina. Oferece ele, de pronto recusa ela, dados dois passos atrás: a mãe alertara contra presentes de estranhos, o corvo é bom de bico o morcego quando sanguessuga finge soprar, a vítima somos nós. Querida é o nome da menina, na língua da mãe é azize Querida. &lt;br /&gt;Raphael com paciência espera suba o Peixoto do porão, para encontro marcado.&lt;br /&gt;Para além da Entrada a porta de vidro, para além do vidro a sala de espera, ainda além a platéia no vazio das cadeiras em fileira espera venham os espectadores, além do além na boca do palco tal branca vela a tela espera oculta no veludo da cortina vinho faça-se luz das estrelas. Um piano aguarda partituras. Mudo ao lado da tela. &lt;br /&gt;Abaixo do palco o porão onde o esperado Peixoto, distraído das horas, trabalha compenetrado. &lt;br /&gt;Prohibida entrada de gente e do sol, a luz é eléctrica mortiça amarela de lâmpada fraca em quarenta incandescentes velas. Peixoto regala-se no prazer de sua vida. Os cartazes dos filmes: à frente uma prancha coberta de feltro, a página em branco de seu engenho e arte. Distribui sobre ela sorrisos abertos dramáticos gestos ao acaso, photos constelam luminosas scenas mudas de bocas próximas em quase-beijo olhos em sombras destacados enormemente bem fechados, mundéu de estrelas com gosto geométrico Peixoto rearranja-as com se reordena ao caos, firmamento em tachas no fundo bordeaux, passa por tudo cordonnet amarelo no madeiro lamé e lentejoulas aos borrifos brilham estrelas de cinco pontas, confecção dos cartazes é o ofício a cada manhã reiterado prazer de passar por suas mãos a próxima atração em Breve Luxuosa Estréia. &lt;br /&gt;Do rádio estalidos retalham arrancos de acordeón, tango cumparsito, canta argentina voz reversos da vida traições de amor navalha na carne em noites sujas dos perdidos no arrabalde. &lt;br /&gt;Na parede miscelânea de homenagem, tal pantalha em mosaico dividida luminosas faces íntimas queridas de todos nós, imortais por estrelas Divas e Divos brilham firmemente. Suspiroso Peixoto, suave paixão, fixara no céu das deusas de infinito fundo, e de pérolas vestida a Grandiva, ela pérola especial, a boca preto coração encena beijo num sopro frexa, ombro redondo apoio do queixo querubim. &lt;br /&gt;Nas ondas curtas radiofônicas a cantante implora argentina ao amado confesse o amor escondido. Dimealoído; guardarei segredo, telojuroporti, entre estalidos. &lt;br /&gt;Peixoto no melhor da sua comedida vida, pudesse a manhã no eterno mergulhar-se, os passamanes nos dedos cuidosos contornam os astros, Peixoto busca adivinhar das poses congeladas as scenas de sonho à espera de furar com luz em preto o branco da tela, adivinhar do imóvel das photos do filme o roteiro dos movimentos e, divertido travesso, traça na prancha nova ordem de inversa seqüência. Meticulosamente. &lt;br /&gt;A cantante cala-se; e o locutor em voz grave e melodiosa ondulação emite da rádio potência e prefixo: caros ouvintes, anunciamos nossa próxima audição. &lt;br /&gt;Pronta a prancha por Peixoto soerguido estandarte, carga frágil qual delicado cristal em suas mãos feito adeso fido a conduzir andor, caminha os passos de suspeitoso tigre no sobreaviso de caçador, do porão à platéia uma escada subida, à sala de espera em seguida, em suporte de cimo redondo colunas de pesadas bases incrusta-a feito jóia rara lapidada, passos dois afasta-se a mirar o encanto final: artista à minha maneira na minha matéria sou. Não vê Raphael. &lt;br /&gt;A Menina, aprendendo a ler: &lt;br /&gt;Macho&amp;Fêmea. &lt;br /&gt;Fatal. Felino. &lt;br /&gt;E na cartaz, o que vê, não precisa ler: os olhos do tigre nos olhos da mulher é verde no verde no preto da photo, colunas babilônicas estátuas de assurbanipales montado em pedra papelão o gigantesco scenário, odaliscas aos pés do pharaó entre as longas onduladas barbas a boca ordena silêncios de ouro. &lt;br /&gt;Raphael, molto expressivo eleva a língua ao palato: Peixoto, almejo ter sido pontual; educado saúda e na cadência estende a palma da mão. &lt;br /&gt;Peixoto, arrancado do êxtase de artista contemplar-se, estende a sua: &lt;br /&gt;A quem devo? inquire surpreso. &lt;br /&gt;O pianista sou, Raphael seu criado. Para o fundo musical. &lt;br /&gt;Ah! Sim! diz ele surpreeendido e contente: &lt;br /&gt;necessito quem ao piano sublinhe marcados dramas leves risos, enquanto a scena muda na tela alterne sons musicais segundo diferentes emoções: &lt;br /&gt;aqui!; com o dedo aponta a photo do cartaz, aqui os amigos dançam antes da tempestade e a musica fala do enlevo social e sutil prenuncia o trágico; aqui o vento torpedeia a nau e requer do músico melodie acordes fortes em clima de febril dissonância com moderna influência; aqui no cartaz maior desfalecida a Atriz nos braços do Ator protetor prenuncia um drama musical de românticas inflexões; infindo mar no limite a ilha serena harmonia apaziguados ânimos. Náufragos, cicia Peixoto. &lt;br /&gt;Náufragos, pensa a menina, preciso ensinar à minha mãe o que náufrago quer dizer; minha mãe que veio do mar, em vapor de terceira classe, e no mar o vapor não se afundou. Veio depois no embalo do trem noite inteira e meio dia corajosa sem saber onde chegar e, aqui cada vez mais longe do mar, chegou, sem parar de trabalhar. &lt;br /&gt;Em boa hora se apresenta o senhor, correto e pontual; estou no momento sem músico nem partitura musical, desregrado sucumbiu da thysica o antigo pianista, curta vida levada em bebida e mulher. &lt;br /&gt;Na vida somos passageiros todos ao soprar dos sobreventos, o corpo mera carga de tribulações: Grave e lento acrescenta Raphael: a morte é porto de embarque para nova carga novos portos justo a purificada luz, além: &lt;br /&gt;Sim, sou espiritualista kardecista afirma Raphael encarnado olhar. &lt;br /&gt;Titubeia Peixoto frente ao testemunho de Rapahel candidato a músico. Católico praticante do seminário egresso por arder na carne tentadora paixão, Peixoto muda a conversa e demora os pensamentos em submersa dúvida entre ter mudo piano cinema sem som e contratar espírita: teme! de um lado o padre e de outro o patrão. Se Damiano confessor condena-me para os longínquos infernos futuro próximo, o patrão mais prático ameaçam-me desemprego e fome próximos no presente. Explica: &lt;br /&gt;Macho e Fêmea. É enredo de náufragos ricos, salvos pelo mordomo criado em agruras afeito às dificuldades da vida; desconversa Peixoto para ganhar tempo; o dedo aponta o casal em negro contorno recortado no céu do cartaz, ele dominando a cena, ela em seus braços corpo que cai suspenso. O mordomo dos ricos equipado para arrostar agrestes, madame arrogante enamora-se dele salvador. Ator e Atriz. &lt;br /&gt;Minha mãe é mulher forte firme contra a rústica vida, pensa a menina na boléia da conversa dos dois; vapor de terceira classe é navio de luxo escada acima; escada abaixo é porão que requer carpintaria, ludibriar a fome no caldo de carne em água de batata bóia fria a verdura cozida, em prato de flandres duro pescoço aos fiapos sobrenada. &lt;br /&gt;Verdes folhas lavadas de alface, hortelã picados tomates e trigo azeite e sal e limão, a vida melhor agora, espera-me em casa o balanço embaixo da mangueira, cordiformes frutos céu azul e sol. Querida, assim o nome azize diz querida nos montes olíbano perfumados da mãe, e querida a menina é aprendiz de rebater aparas no áspero da vida. Cuida dos irmãos, e sonha muitos filhos seus. &lt;br /&gt;Para o filme não vieram as partituras, será no improviso o frasear musical. Continua Peixoto, tentado a contratar debalde credo e temor à fome imediata, dos infernos cuidará depois.  &lt;br /&gt;Se todo mal fosse esse; alegre vivaz fala Raphael entre risos; a menina ouve aprendiz. E guarda para repetir como adágios futuros. &lt;br /&gt;Viria pela estrada de ferro a partitura, junto com as latas contendo em rolo as fitas; mas na estação de trem entre fumaças e o apitar do foguista restaram eu e meu desaponto. Fala Peixoto entrecortes. &lt;br /&gt;Se o jazz não inventou o impromptu, nele sôfrego bebeu; o impreciso é da vida, carregada de temas e cada tema botão de variações; philosopha Raphael. A música é tempo que se não aprisiona, ilusão das partituras filhas da soberba humana; estamos aqui de passagem, contornos de arabescos variam ritmo e compasso, tonalidade modo harmonia variam nuvem e fumaça no firme azul estampa falsa do infinito; nas telas do museu o quadro imóvel, no cinema não. &lt;br /&gt;Peixoto gosta. &lt;br /&gt;Assim, partitura sim e não. O senhor invente. E passa Peixoto a falar com paixão, contar das fitas o enredo, atores e direção. Scenário e produção. Enciclopédico, sobrepuja Raphael com seu religioso filosofar. Espera, ao menos: &lt;br /&gt;luxuosamente encenada, magistralmente regida. &lt;br /&gt;Macho e Fêmea, a fita; dentro do filme um sonho dentro do sonho outro filme.&lt;br /&gt;Mescla o passado no presente, a Madame sonha no filme um sonho enredo para novo filme: reproduz a pompa de outras eras, Babilônia retorna real como a vida foi. &lt;br /&gt;A história é talvez. &lt;br /&gt;Era talvez um reipharaó babilônico assurbanipal sem barba mas roupas de metal lavrado ouro de lata, sentado em trono à sua volta a Preferida, de pérolas revestida. &lt;br /&gt;DiligenteMordomo é Reipharaó factotum &lt;br /&gt;LadyMadame, a dona do sonho, refaz-se da realidade náufraga em banheira de mármore onde leite de cabra carícia na pele promessa de mel em melhores dias &lt;br /&gt;a repudiada LadyMadame Atriz. &lt;br /&gt;reipharaó Mordomo Ator. &lt;br /&gt;porém, &lt;br /&gt;a coadjuvante na fita é dele preferida no enredo. &lt;br /&gt;E confesso, minha preferida também: &lt;br /&gt;E, como não: Lábios feitio de coração. Touca de nobrespedras, penas de branco pavão arco aberto de estrelas olhos em suave scintilar, pérolas quantas engranzam as voltas tantas do colar. Divaga Peixoto, os olhos perdidos na tela da mente: A Coadjuvante, em seu colo a cabeça manso repousa felino pensar-se fera &lt;br /&gt;guerra e doçura &lt;br /&gt;tranças do Amor.&lt;br /&gt;Enamora-me olhar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;seus lábios rosas a desabrochar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se falasse teria &lt;br /&gt;tom de voz símile cristal &lt;br /&gt;que de leve tange &lt;br /&gt;meu pensar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor da novela será Kardecista, talvez,ensaia Raphael mais interessado nas dimensões do tempo cruzadas do que no namoro anêmico de Peixoto pela Atriz. E, filosofa espírita: Madame sonha a vida passada em outra vida, no luxo da Babilônia outrora reipharaó paga nesta vida o carma passando a ser mordomo da mulher que humilhou, tempestuosos males frágeis nas vidas quando numa senhores escravos voltamos arcados pela chibata, tome cuidado a LadyMadame quem sabe no sonho um aviso de na vida futura não adiar a mocsa prolongado samsara, talvez. Será quiçá o diretor hinduísta, ponteia Raphael divagando agora altos pensamentos. &lt;br /&gt;Peixoto, quase arrependido de sobrepor o piano à religião, a fome ao inferno, oferta como presente foto da preferida AtrizCoadjuvante em tamanho grande, e a Meninaquerida fica no querer sem pedir retrato da moça linda vestida de pavão, lavadas as cores pela avidez do arco-íris resta o cinza para as pérolas e, cinzas assim as pérolas mais brancas enriquecem o colar da memória da vida passageira, olhos em grafite sentinelas. &lt;br /&gt;Despedem-se amigos. &lt;br /&gt;Vai azizeMenina pela rua afora, vai Peixoto platéia adentro e Raphael vai. &lt;br /&gt;E vai azizeMenina pela rua afora, estrada de passa boi passa boiada, curtume do matadouro vizinho viz boiadeira rua oposta, minha mãe sem tempo de sonhar vidas corridas tanto o futuro urge faina desoras, espera-me um balanço de corda à sombra frondosa da mangueira mas não posso balançar-me agora; mãe e filha de porta em porta a vender artigos sortimentos de sabonete ramonas agulhas botões lenços na sacola mascate, para ajudar na despesa da casa enquanto o pai pelas roças oferece cortes de fazenda ou mesmo miudezas para beleza e encomendas da venda em malas mascates há semanas Lhes não volta, a mãe a filha pela mão desde pequena fala português que M´lha não sabe falar. &lt;br /&gt;E vai Peixoto platéia adentro o piano ao canto, comido do remorso de ao devoto sobrepujar a fome, direto prumabaixo porão. Arruma as fotos na prancha pudera assim por rearranjo de pensamentos o peito desopresso calmo respirar. Dispostas preto no branco em diagonal, gosto assim, os letreiros acima escrita sobre estrela estourada em vermelho amarelos estilhaços a palavra breve em gordas letras, abaixo o nome da fita A Favorita de Paris: Esmeralda cigana é salva ao final por Quasimodo um moço sedutor e sineiro da NotreDame, de cabelos valentinos. &lt;br /&gt;Pruir de pecados. Padre Damiano, que não saiba de Raphael espírita por mim contratado o reverente clérigo. Como de costume, em voz solene tutear-me-á como advertência: Começarei a rezar por ti em pecado descaído; a persistires na ofensa um local no porão do inferno aberto espera-te por castigo. Forno de muito fogo, fogo falto de luz, queimará no escuro tua carne venal. &lt;br /&gt;Raphael persiste fato ipsissima verba na memória:&lt;br /&gt;Os dedos pianistas os dedos de alfaiate, os dedos como quem n’agulha enfia a linha ou dedilha voláteis teclas são assim em Peixoto os pensamentos chuleios reversos; rememora feito na mente impresso fato: Raphael, o dorso da mão descansa na palma, enquanto pausa mansa fala revelar a palmatória castigo da alma, rápido um pensamento afiado aço corta as pontas de outros pensamentos e Peixoto s´inquieta inda mais: com certeza irá Raphael kardecista, sobrepondo-se ao pianista, pregar de improviso os versos do evangelho segundo os espíritas, aproveitando-se do enredo metempsicóptico, para provar que os espíritos descarnados em outra vida na matéria instalam-se retornados; jamais Damiano padre me perdoará aflito Peixoto arremata findo: terei sido assassino em pregressa carne e num repente o ímpeto volte cruévil, castigo de contratar quem zomba das rezas, AveMaria peço graças, ilumine Raphael ao piano por Vossa intercessão antes de ele jactar ser sua música um ectoplasma. &lt;br /&gt;Raphael vai pelas ruas assaz moderados passos, os pensamentos prestos movimentos, entreliça liados temas, desde o novo emprego ajudar nos sumptos embora aquém esteja pianista quanto goza n’alma a música e meu repertório é pequeno vizinho do jazz impromptu salvo ter nos dedos mais técnica para agulha e dedal alfaiate de corte e costura se eu pudesse era orquestra tanto sou philharmônico; Raphael pelas ruas diminuendo o entrelaçar dos pensamentos extrai no vivo-aroma suave melodia, Olga Amor Clarão reluz memória qual tela aura de antevisão, fulgor estelar futuro promissor. Para ela deu de presente a Atriz em ampliada photo. E convida-a para o cinema sábado à noite estréia de M&amp;F, quando ele pianista aprendiz de alfaiate dará para o filme a trilha das emoções. &lt;br /&gt;Olga, ao banho vai. Banho de estrelAtriz: num leito de mármore imerso o corpo branca pele de luz esculpida banheira de pés esmaltado ferro e o leite de cabra cinzel do imperfeito abranda ressequidos se por ventura o sol caustica ou o vento severiza. Nada disso o tosco banheiro de Olga tem. &lt;br /&gt;Mas tem na brasa olíbano ascender espiral. &lt;br /&gt;Bacia de verde esmalte se o mármore falta, na água morna ervas a perfumar, se o leite de cabra é para romanas pagãs a indústria garante a beleza na pharmacêutica moderna. Sais tonificam a cútis. Olga sente a água agradecer os contornos de seu corpo. &lt;br /&gt;Cremes acariciam a pele e o pó-de-arroz dá o tom da luz na tela projetada. &lt;br /&gt;Traços de bâton, soprar de beijos. Riscos de lápis pretos, acentuado olhar. Completa seja linda Olga um chuveiro de aljôfar em cada brinco. E o amor que Olga descobre por Raphael. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Si&lt;br /&gt;Yo se que me querés &lt;br /&gt;Yo se que me adorás &lt;br /&gt;Dimeloaloido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o acordeon introduz a orquestra típica e do gramophone invadem sons o quarto perfumado. Gyra gyra o disco e o tango chora sabedorias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nomelodesís &lt;br /&gt;Dimeloaloido &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A photo na parede, estrelAtriz olhar em branco e preto, expressivos na tela seus olhos dispensam letreiros reconhecidas zanga, ternura abrandada pálpebra na surpresa dilatada, correm nela as lágrimas são nossos soluços se ama ou sofre na tela, alegria é riso feito sem som e nossa a gargalhada na platéia. &lt;br /&gt;No grande espelho os olhos refletidos, quer Olga sejam ao olhos as emoções d’alma, neles se retratem pura graça, reflitam no luziluz piscar agitado se gostam muito, não se detenham a fixofitar e corram brincalhões para o viés, esconde-esconde amoitado pelos cílios, prontos para lágrimas se comovidos. Olhos marotos como o amor. &lt;br /&gt;O amor, moleque maroto, não se pode ocultar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qu’El amor es una cosa que no se puede ocultar &lt;br /&gt;Tango &lt;br /&gt;Os trágicos passos da vida: &lt;br /&gt;te amo&lt;br /&gt;Dimeloaloido &lt;br /&gt;Guardaré segredo &lt;br /&gt;Telojuroporti&lt;br /&gt;Telojuropormi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A photo na parede no quarto de Olga, estrelAtriz pérolas entrevistas acariciando a nuca o cabelo curto retorcidas pontas desenham-se na face malícias, florido lenço moldura modelar beleza. &lt;br /&gt;No grande espelhos as pérolas, que Olga não as tem; mas seus dentes tesouro do poeta. Fileira de apuro, no riso a rima dos lábios coração abrindo-se devagar é jóia exposta brilhante gema argentino som. Hoje no cinema homem e mulher desencontros na tela, Raphael ao piano melodiará o amor, o quanto gosta de mi. &lt;br /&gt;Amor, maior do quanto dure a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eterno amor, efêmera vida. &lt;br /&gt;Piano ao cair da tarde eldorada no azul remanente; Solace melodiam os dedos pianistas de Raphael, um ou dois erros díssones que ele nem corrige. Raphael feliz pelo emprego de músico ao pé da tela, Olga amor de minha vida, caso-me com ela de véu e grinalda, construirei nosso ninho, para beijos furtivos roubo tempo do trabalho, na entrada da casa a alfaiataria, qual joão-de-barro arrebate do paraíso. Não pediu para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme; e à sua frente a inspiração é branca tela; não sabe da fita a seqüência, do argumento mal tem ciência; não é ao piano o exímio alfaiate, aprendiz embora; mas precisa do piano para no recorte de seus sonhos construir a alfaiataria. A tarde na janela abre-se indefinida e derruído futuro se indicia. &lt;br /&gt;Palmas no umbral da porta. &lt;br /&gt;Descerradas as cortinas no enquadrado da janela a Menina sorridente como no cinema naquela tarde quente vira. Junto a mãe, numa das mãos a sacola mascate na outra a Menina. Hoje Raphael nada compraria, entreaberta a porta, não fosse relembrar-se da Menina e acreditar no acaso presença da Mão Divina. Olha para a mulher e surpreende, aterrado, estalo na aura antes límpidas cores de ânimo imbatível. &lt;br /&gt;Abre a porta e bondoso diz precisar de um lenço apenas, lenço azul para laço nos cabelos; mas a senhora com certeza sofre amarguras nesta vida. &lt;br /&gt;Ao dó vislumbrado no olhar de Raphael diz a Senhora em português carente: &lt;br /&gt;Não me queixo! &lt;br /&gt;e continua, em vocabulário de línguas misturadas de esgarçado entendimento as palavras órfãs num esforço de contar uma fábula rejuntarem-se das plurais direções dando à seqüência o sentido exato. &lt;br /&gt;A fábula: um homem muito velho, nunca poupado pela vida, tem sustento na lenha que tira da floresta para revenda: o que na juventude era promessa de futuro na velhice mais parece ter sido para essa faina maldito. Assim, pede em queixosos lamentos venha buscá-lo a Morte como fim do sofrimento. A Morte, sempre muito atarefada, num tempo roubado à faina sensibilizada por ele favorecê-lo vem: Aqui estou, entrega a alma e siga-me. &lt;br /&gt;Assustado o homem, a quem a vida dera não apenas sofrimento mas dele fez aprendiz das artimanhas argumenta: A Senhora entendeu mal; quero apenas que me ajude com este feixe, grande demais para minhas forças. E, se conhece algum Anjo, desses bons habitantes da luz, faça-o vir até mim porque quero trocar minha cruz, esta também difícil de carregar e nem foi ela que escolhi, diferente do feixe de lenha que hoje errei no tamanho e peso. &lt;br /&gt;Vem o Anjo e pede-lhe escolha, dentre os vários lenhos de sua reserva de cruzes, o que melhor lhe aprouver: e será a sua cruz. &lt;br /&gt;Desconfortável uma de espinhosas espículas, pesa nas costas descomunal tamanho braços desiguais desajeitado aprumo madeira de mal-cheirosa casca outras, decide por uma pequena leve e cômoda em seus ombros encaixe como côncavo no convexo fecho em fechadura como macho e fêmea a pressão do colchete espiralada rosca em parafuso. Esta! grita contente pelo achado. &lt;br /&gt;E o Anjo sem nenhuma caçoada na voz celeste diz sereno e sábio: esta é a cruz dada por Deus carregada por você durante os anos queixosos de sua vida. &lt;br /&gt;Cada frase várias vezes repetida, decide Raphael juntar nas plurais direções o sentido falto às palavras desgarradas. &lt;br /&gt;Queixumes num rebojo de sons firmeza em outro, são os olhos aos céus voltados a cada vez Allah pronuncia a língua no palato estalada crê Raphael referir-se a Deus reverenciada. &lt;br /&gt;Anjo de coloridas asas quando a Senhora bem para trás abre os braços acima da cabeça e pronuncia djin ele pergunta angim a filha traduz anjo grande assim, falando à maleta ajeita nas costas o corpo curvado a mão cofiando o mento qual longa barba trôpegos passos arrastada voz crespa face por dor e cansaço completa a filha como entretítulo: velho queixoso da vida dura pede venha o Anjo da Morte e complete sua sina. &lt;br /&gt;Aponta um poste com as madeiras travessas, ele entende luz. A filha corrige: cruz. &lt;br /&gt;Vários postes, um após outro assinalado: várias cruzes, ele deduz. &lt;br /&gt;Arqueia as costas, mostra um poste, desarqueia um outro ombreia na seqüência a rua inteira até que do portão as ripas travejados  encaixes mostra e no rosto o alívio estampa-se de icto o pronto riso os dentes lindos em fieira madrepérola. &lt;br /&gt;Na largura da costa e força do ombro a balança e metro da Justiça Divina medem o fardo de cada um. &lt;br /&gt;E conclui para Raphael, que notara sua aura carunchada na possessão maligna: Assim, de todas as cruzes na vida em oferta por Allah, a minha é a menor; portanto não me queixo. &lt;br /&gt;Quer apenas um lenço? termina por dizer. &lt;br /&gt;Mais comprei hoje, valor para toda vida. Responde Raphael, logo empós fora do mero raciocínio resolver nos desencontros da fala o certo sentimento: &lt;br /&gt;O Anjo do Senhor anunciou a um queixoso, se tanto o fazia sofrer a cruz a ele imposta, a liberdade de escolher, dentre as várias num galpão largadas, qual queria carregar. Sopesou diversas, em desconfortos crescentes; eleita a mais leve e menor ouve do Anjo ser contra esta cruz, há muito por ele carregada, seus muitos clamares queixosos.. Quer apenas um lenço? &lt;br /&gt;Ânimo inquebrantável, pensa Raphael a língua no palato do pensamento. &lt;br /&gt;Entretanto entretelas. Na aura da mulher chuviscos de imprecisões. Obsessor, se há, longe está de onde alcança o míope de minha iniciante mediunidade. Estivesse aqui a minha mãe Joana dos Anjos, e ela experiente das runas e rezas veria o mal porvir a essa mulher e prevenir, quiçá. &lt;br /&gt;É da vida sofrer fatalidades; só um lenço? Leve um al-hilâl. &lt;br /&gt;Raphael comprou também um alfinete fantasia. Para Olga prender flores em sua linda boina de veludo. &lt;br /&gt;E a certeza dos malferidos feito flores daninhas sementes das trevas nos campos em luta solitária a brava mulher, que se afasta. Joana dos Anjos, que do quintal a tudo vira, confirmará para o filho os ataques violentos sofridos por seu ânimo inquebrantável; e promete ajuda. &lt;br /&gt;Voltam ao filme suas preocupações, agora com a certeza de poder resolver; se não ajudei a mulher com seus problemas, ela solucionou o meu. &lt;br /&gt;Com esforço ofereceu-me retalhos que a Menina alinhavou; eu costurei. &lt;br /&gt;Não pedira para Juvenal Peixoto gerente mostrar-lhe o filme naquela tarde quente mas não importa: os olhos bem fechados trazem as imagens supostas em suposta tela onde se desenrola película de luz compondo o preto sobre o branco desmaiado em cinza as scenas de cinema. Assim são os filmes: o que se vê numa fita nada difere da outra a ser vista: sucede o apreensivo à calmaria na comédia sugere-se o drama por vir, por momentos a ventura sobrepõe-se à desdita quando em suspenso vigiamos os actos dos heróis; recortes de uma fazenda a se comporem vestimenta de emoções desde que no devido lugar ligados; prepararei eu retalhos musicais para a ordem imprevista dos previsíveis segmentos. Filme é caos calculado, assim meu fundo musical. &lt;br /&gt;Ao piano, dedilhados sons, para quando a família reunida feliz não sabe da provação divina por vir; o mordomo serviçal ninguém o nota apenas aos préstimos seus, tão regulares e transcorridos que da natureza parecem fluir no dia-a-dia. Piano calmo, como numa tarde de longínquos sons em alguém percute o passado; e do fundo cavo surgirem sentimentos, antes impreciso aroma. Para a festa noturna, estranhos na noite visitas mundanas, o sincopado acentuará o ligeiro e, num tango valentino de chuleados passos pelas bordas do salão casais festejam o encontro do corpo, o mordomo a circular entre as gentes sem olhos para ele mas gulosos das oferendas de queijos de França e vinhos, sem dúvida o mais belo dos homens presentes; num repente o temporal e mais um trágico: Raphael dá-se conta de não ter dedos músicos que correspondessem à tormenta do mar. Faz-se branco na mente somem brancas as presumidas scenas o preto em cinza derretido na tela encardidamente. &lt;br /&gt;A tempestade requer sonoridades além das pobrezas que posso do piano retirar, defeito de meus dedos afeitos à agulha e dedal e duros na apojatura. Não tenho orquestra, sequer sou maestro. Grandes massas sonoras nas scenas de intenso drama os motivos fluidos deslocarem-se sons entre ações; a tempestade em branco e preto, o adernar da barcaça as ondas goelas de repentinos dentes de saliva molhados. &lt;br /&gt;Lembra-se da Mulher e o vissungo de português e língua natal acrescidos gestos e timbres de modulada voz, maná de luzes para meu entendimento: Tempos modernos, a victrola faz nascer da cera a música, os discos fontes rica de sons da voz do cantor ao uníssono orquestral: Farei uso da victrola. Que venham Primitivos tambores, as cordas grossas repentinos violinos a tempestade em alto mar, os olhos de enorme susto de LadyMadameAtriz sublinhados pelo clangorejar da natureza contra a soberba humana, o MordomoAtor os pés seguros na agitação desordenada os românticos emprestam-me dos recônditos d´alma a forja subterrânea, e darei cores ao desbotado dimensões terceiras ao chapado. &lt;br /&gt;Peixoto ficará contente do colorido que darei à fita perdida no tempo de ser mudo quando nas ondas do rádio soltos no ar navegam magnéticos eflúvios de meu amor imenso por você Olga quisera eu ser médium receptor com tal clareza transmissor, dizer aos seus ouvidos meus segredos guardados, telojuro pormim. &lt;br /&gt;Vamos-nos casar, até que a morte em outra vida nos reúna num só coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 006  de Conto Romances&lt;br /&gt;Paulino Tarraf&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão de 26/11/2007&lt;br /&gt;Versões anteriores: &lt;br /&gt;29/05/2004&lt;br /&gt;27/12/2002&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-2826951312270770560?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/2826951312270770560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=2826951312270770560' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/2826951312270770560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/2826951312270770560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/06-bebedaniels-renomeado-macho-e-fmea.html' title='06 BebeDaniels renomeado Macho e Fêmea Deus os Criou'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/R1XiHl5iNsI/AAAAAAAAAFQ/bJWxUfNHflA/s72-c/bebedaniels-v01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-395397796260965281</id><published>2007-12-01T12:16:00.001-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:39.575-08:00</updated><title type='text'>07 Fauno de Pedra</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GXg4UIII/AAAAAAAAABc/VekVdvfuddE/s1600-h/fauno-de-pedra-v01.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GXg4UIII/AAAAAAAAABc/VekVdvfuddE/s320/fauno-de-pedra-v01.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5124681164515451010" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conto Romances Arquivo 07&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fauno de Pedra&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perfil, atento entre folhas enverdecido limo, nas mãos a flauta e pés caprinos, o Fauno na fria sombra do úmido jardim, permanente estátua a sugerir busca lúbrica que sua carne de pedra nunca sai do lugar. Fauno não mais, velho guardião apenas amoitado, e somente seu olhar amendoa promessas que seus pés bífidos na pedra fincados nunca fora do mesmo lugar. &lt;br /&gt;Passos rápidos, quase ninfas em flor ainda nas alamedas os moços indiferentes às amêndoas dos olhos de pedra do Fauno, outros ninfas não mais, mãos nos bolsos, disfarçam em duros passos os rápidos olhares quebrados, nem os requebros do andar passam despercebidos por Miro nem o quanto o tédio tamanho arrancou-os de casa no entardecer molhado do Fauno, quase ninfas, passos rápidos entra e sai por entre mofo de folhas mortas lavadas de amoníaco vai e vem no sempre do mesmo lugar, corre a urina solta entre olhares soltos a correrem mesmo se o jato não vem. &lt;br /&gt;Rápida troca de olhares, dirigidos lânguidos para Miro imploram, olhar de pálpebra descaída cansaço enrugado ombros derreados, todos eles mais velhas que Miro flor da idade não olha para ninguém, hoje pelo menos, recheada em músculos salientes as calças justas, a boca de peixe a língua fina, curto ondeado o cabelo curto quase rente, na face rósea cicatriz lateral, sorriso de dentes ralados afoitos mordem o ar, só aceita dinheiro e bem provocado pode matar. Hoje Miro não vem; e, há três dias Miro não vem e ele, se o condenado à morte tem nome chamam-no os Mensageiros da Desdita pelo nome Victor, fina ironia um achado ser Victor belo nome, mesmo nome do escultor renomado autor do Fauno plantado neste decadente jardim, Fauno a lembrar um Moisés, de flauta inconseqüente no lugar das tábuas de instituídas leis. Próprio para o lugar. Victor. Entristecido a cismar negros pensamentos de trazer no sangue o mal da metade do século. Olhos voltados para a morte encarnada em Miro, que não vem. Miro fauno, pupa ainda à flor da idade, caçador de ninfas fenecidas. &lt;br /&gt;Se Miro à espreita das fenecidas ninfas, espreitaram-no os olhos de Victor em busca da destreza de Miro, serrilhados dentes afiado punhal, movido pelo ódio boca de peixe cicatriz em vírgula, em suas mãos a lâmina é mestra em feridas esculpir. &lt;br /&gt;Não tanto velha assim, cansado desde ninfa iniciante, os pés nunca no mesmo lugar e agora não tanto velha assim a morte ameaça horrível repugnância dilacerar seu corpo feito na medida do prazer amado. Não está hoje aqui como há três dias Miro não vem, boca de peixe dentes em lâmina carrega um punhal e bem provocado pode matar alguém que outrora delícias de carne para Victor implorar com olhar descaído seu corpo quente para o desassossego das mãos, um afago distraído, um abraço desigual, algo com que sonhar mas alguém que bem provocado, hoje, pode matar, antes que a morte diluída no sangue apodreça em vida esse corpo feito na medida do prazer de amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém que já matou; Victor sabe de um crime sem solução de notícia nos jornais. Um assassino de reserva para as secretas intenções, testemunha ocular reserva-se de contar com quem assassino a vítima emparelhada a bruma entranhou, hoje como ontem e trasantontem, à espera de acontecer de novo busca entre os verdes úmidos da alameda a boca de peixe em sorriso mordida de dentes ralados reapareça e caminhem parelha os dois, selado o compromisso da quantia a pagar se disponham ao corpo a corpo, um assassino que reservo para mim, pensa Victor nos vagos da mente flui o sangue coalhado do mal moderno, da metade do século ano santo do Senhor, pelas alamedas floridas roséolas a proliferar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Victor viu, não o crime, mas o assassino conquistado. Conhecia a vítima, impossível esquecer o algoz. Tanto sonhou com o gozo prometido no jeito abusado do rapaz de salientes carnes quanto lamentou não terem sido os seus os olhos molhados de triunfo e esperança de ter nas mãos fruto e pecado, a língua raspar-se no quelóide rosa, ser mordido de dentes ralos a sorrir, quem sabe alvo de desprezo em rude trato, machucado para pagar mais que o contrato e dormir jurando nunca mais voltar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um talho a navalha rompida a vida, nos jornais um mistério perfeita em foto a cara amiga, Victor sabe pois viu da conquista o ato e foi dormir sonhando um dia ser misteriosa notícia sem acordar jamais. Receber na carne não a carne dele, mas um punhal. Há muito a morte ronda a mente. Em dias variados, nos últimos mais freqüente, ela vem mortífera e finca-se pedestal sempre no mesmo lugar. E promete-se horrorosa, banquete festivo em apodrecida carne outrora vida em feitio do prazer amado, tornada repulsiva e dilacerada, pedaço a pedaço transposto em flor e flor a flor arrepanhada em ramalhete fétido de carniça viva, a boca em feridas de cândida e branca flor, não mais engolir sem sofrer, seco- e macerado, cabelos raros em tufos despregados, dentes à mostra em sorriso magro, clamar pela morte já vinda em lenta comilança, melhor morrer de vez reservo esse assassino para mim, pensa Victor nos vagos livres da tormenta na mente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai e volta a morte volta e vai. Meu assassino não chega com mãos em ponta de aço para súbito vazar-me do sangue funesto que mata devagar. Vem e volta a morte volta e vem. Há três dias espero, ele não vem, definitivo sorriso ralado em dentes cicatriz lateral saliente e rósea como saliente a carne em rotundas dobras nos panos apertados a cobrir sem velar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fauno de pedra em meio a cipós, os pés de cabra a barba rala pele glabra o torso nu torto em perfil, a boca de peixe o peito talhado em vigor de varão, nas mãos uma flauta quem me dera um punhal, o olhar amendoa prazeres ilícitos, delírios delícias, carne de pedra nunca saiu do lugar. O Fauno, fria pedra verde limo, as ninfas em ciranda de delicados gestos, indecisos passos, vão e voltam ninfas voltam e vêm. O cheiro de urina sapatos em charcos de chuva e suor na meia empapada olhar desfeito de ânsia e cansaço no esforço de ver apressado o jato fingido entre dedos vão e voltam e vêm e vêem. &lt;br /&gt;O matador. &lt;br /&gt;De volta à arena, assassino. &lt;br /&gt;Garoa. Eis, esboçado na névoa redesenha-se molhado no ar, a cicatriz marginal à boca, riso de permanente troça, nas dobras da roupa curvos volumes tensos. Segundos mais, olhar insistente aceno de notas reais, e então perto demais hálito chicletes mascara o podre dos restos de carne comida apressada no jantar, indisfarçável na gentileza forçada do cochicho íntimo, bafo quente do corpo molhado em suor diluído em fragrâncias florais forçado desodor, perto demais latejam pulso e têmporas e o calor do corpo perto do corpo demais a vontade de abandonar à morte a própria morte tarde demais. O assassino, afinal. &lt;br /&gt;Fauno fica aqui. Último olhar. &lt;br /&gt;Amanhã, depois o mais tardar, os jornais. Agora é atar sem dó uma vida desgraçada à gana irritável que ele tem de matar. Puxar conversa, excitar o punhal: &lt;br /&gt;Miro, seu nome?  &lt;br /&gt;Muito próprio um Fauno de fino olhar constante sobre as Ninfas não se sabe quem caça quem caçador na decadente floresta do amor. Você não saber do que estou falando, confirma o que estou falando; você por certo vive aqui uma vida de sucesso de enganos. Brincadeira, sua cicatriz ficou vermelha; é que estou de bom humor, e feliz de conhecer você. Espero que de banho tomado. Desculpe. Não quis referir-me ao seu suor lavado de desodorante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado, não fumo, você também não deveria fumar. Falo para seu bem, nenhum vício é bom, não sei porque eu deveria parar de falar. Você é muito novo para morrer, você é muito novo para se jogar nesse tipo de vida, você deveria parar. Não sei porque eu deveria calar-me, falo para seu bem, tenho idade para ser seu pai; claro que eu não disse que sou seu pai, não quero ofender mas jamais teria um filho como você, é brincadeira não leve a mal; cruzes! como você fácil se ofende; já vai fumar de novo! Não acho que eu deveria fechar essa boca, afinal hoje quem paga sou eu, é brincadeira, não me leve a mal. De novo ofendido. É aqui, vamos entrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na entrada chapeleira com guarda-chuva semi-aberto em latão niquelado. Paredes em veludo camurça verde musgo, folhas de nervuras expostas galhos sinuosos de calibres vários percorrem a parede em geométrica floresta com borboletas gigantes de asas e antenas recurvas em metal douradas. Grande espelho de moldura clássica reflete o gosto espalhado pela sala. Arcas baús oratórios cômodas envelhecidas em cores ocre e verde desbotado. Anjos em gesso prata. Penas de pavão em vasos. Negro escravo de libré esmaltados olhos de espanto brancos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você por certo nunca viu tanto luxo. Apague o cigarro! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta vem, rápida demais. &lt;br /&gt;Num golpe o vigor. Mordaça e amarras. Livres os olhos de espanto rubro seguem o movimento brusco à sua frente que da camurça musgo da parede desprende os galhos de metal flexível.&lt;br /&gt;Retorcido é corda para as pernas nas pernas presas, os pés nos pés, os braços no espaldar da cadeira de vime de pedra, o espelho quadro vivo do imóvel e nudo desamparo, moldura em latão. &lt;br /&gt;Miro tira a roupa lento dobra num canto pousa cuidado, os músculos saltam livres e no espelho em pose, boca de peixe dentes ralados: o banho depois; agora, ao trabalho! &lt;br /&gt;No quarto as gravatas, o rapaz com os olhos separa as de seda macias ao olhar, levará depois do ato, ao qual volta concentrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Asas feito navalha cego vôo das borboletas no dorso esfola a pele arranca pêlos, a mordaça impede o grito, esgarça-se o gemido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cicatriz inchada rosa no esgar de satisfação de raspar: limpeza da carne depravada, preparo da pedra para a arte cinzel, no espelho a tinta vermelhas manchas ao acaso espargidas. &lt;br /&gt;Rápidos e calcados passos, revira gavetas o som de talheres, vão apressados e a cada volta garfos e facas de ponta rombudas exibidos ao modo de circo para o próximo ato, graciosos gestos delicados jeitos, e a ponta fina de aço inox reserva-se para o final. &lt;br /&gt;Impossível desfazer os nós, voltar atrás, quem dera hoje fosse amanhã, daqui a um mês rir. Atados pés, para sempre o mesmo lugar, a morte não estava no sangue, apressado engano, a morte com certeza aqui de fora para dentro come, arrota e ri. Sem retorno. &lt;br /&gt;Miro labora lento. Circunspecto escultor. Um cigarro enquanto pensa. Cuidadoso ornamenta Victor, mármore em busca do cinzel carne por moldar-se efêmera escultura frente ao tempo de ser a morte eterna, lado a lado com galhos e folhas e pedúnculos latão, as antenas das borboletas no nariz retiradas em tempo de devolver a respiração. Fumaça, pensa mais. A asa da borboleta retoca pontos no peito, a faca rombuda aprofunda sulcos, o garfo estrias de tortas geometrias. Para e descansa, acocorado e nu. Retoma, lento ainda. Experimenta nas facas os cortes, pontas e flexidez: a carne de prova amordaçados gritos, gemidos lenta lâmina. Própria para o fígado, ideal para o baço, feita para o pescoço, todas de ponta fina. &lt;br /&gt;Cansado, uma ponta rasga certeira a garganta, e o sangue esguicha do fígado e baço apunhalados. A cabeça pende em perfil, cipoal de folhas gigantes borboletas abertas, olhar esgazeado, pés atados não mais fora do lugar emoldurado em camurça musgo e veludo verde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Banho perfumado. A roupa limpa cigarro aceso, admira demorado, o sangue derradeiras gotas quase coágulos, a obra prima finda. &lt;br /&gt;Pega as gravatas. &lt;br /&gt;Sai. &lt;br /&gt;Fecha a porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 007 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão 28/09/2007&lt;br /&gt;Baseada na versão de 05/02/05 &lt;br /&gt;baseada na versão de 21/03/2004&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-395397796260965281?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/395397796260965281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=395397796260965281' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/395397796260965281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/395397796260965281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/07-fauno-de-pedra.html' title='07 &lt;strong&gt;Fauno de Pedra&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6GXg4UIII/AAAAAAAAABc/VekVdvfuddE/s72-c/fauno-de-pedra-v01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-357915536381521914</id><published>2007-12-01T12:14:00.000-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:39.722-08:00</updated><title type='text'>08 Divas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6FvA4UIGI/AAAAAAAAABM/EAnj84dTTBM/s1600-h/divas-v01.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6FvA4UIGI/AAAAAAAAABM/EAnj84dTTBM/s320/divas-v01.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5124680468730749026" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Conto Romances Arquivo 08&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Divas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Cidade, recolhida das vaidades, mansa entra décadas sucessivas sem Divas. Belas muitas, Diva nenhuma. Em claustro privado dos afazeres diários, serenas e castas do lar, devotas esposas há; mulheres arredias, o dia gasto esmalte acetona algodão a refazer no vário das cores as unhas das mãos à espera do coronel pagador de contas sob trancas e tramelas, há também; aquelas há de vida sofrida sob o explorar obsceno do rufião vadio nos haréns venais; heteras para milionários, rarefactas: mas Diva a Cidade espera por vir. Se! &lt;br /&gt;Quase villa ainda, chamada A Cidade pelos inflados peitos cidadãos, magica-se metrópole. Dedicada a São José das Botas, perpassada de recatos, cresce por ele protegida, sendo já Rainha da Região, conglobo de villas e cidades tendo por patronos santos cadentes na hagiologia frente ao Casto Esposo e Adotivo Pai. Seus pés, banham-nos rio de pretas águas, tão férteis terras. &lt;br /&gt;Escurão subindo vagaroso no céu persistente marinho cede ao clarolunar, e dele mais s´embebem as nuvens sonhadoras dos sopros de luz dos cornos crescentes que as ruas, breus de folhetim, não fossem as lâmpadas feito lamparina turva de fraca luz no torto dos postes. &lt;br /&gt;Quem não dorme boceja despedidas. &lt;br /&gt;Acordados, em derradeira esperança surja feito estrela de primeira grandeza a Mulher em Maiúscula na estúrdia do poeta menor, persistem nas ruas mal luzidas os Noctívagos. Ruas de paralelepípedos molhados, não pela névoa fina que aqui não há, mas pela mesma tontice do poeta insistente, ainda assim românticas ruas quanto o são os Noctívagos, filhos dos abonados da Cidade, em aprendizado de um dia tornarem-se eles abastados chefes por sua vez. &lt;br /&gt;Companheiro deles, o calor. Este, não há brisa que o afugente. &lt;br /&gt;Por enquanto aguardam bata a matriz, Catedral, as onze em seus desafinados sinos, avocação para aventuras mais arriscadas: sem gravidade maior, singela variante nas modalidades do aprendizado. &lt;br /&gt;A Catedral é torre ebúrnea no ébano das madrugadas. Diria o poeta, em tom menor a pastosa voz. &lt;br /&gt;A Cidade tem Catedral. &lt;br /&gt;Majestoso São José, ubíquo no altar mor e no lateral em nicho especial, é dele a morada principal da Cidade, a Matriz Catedral, centro coração de forte pulso a bater regular rumo à eternidade. &lt;br /&gt;A Cidade tem Catedral e praças, e praças tem três alinhadas em reta, dizem os antigos muitas mais teria tido cortado assim o Centro ao meio por um imenso jardim, a Catedral na praça principal. &lt;br /&gt;A Cidade tem Catedral e praças e cinema, armazém de sonhos em latas protegidos; o escurão vagaroso invade a sala ao som do gongo e a cortina abre-se vermelha ainda na penumbra atingida a tela branca pelo jato das fortes emoções desfeitas fronteiras entre sonho e vigília: rediviva e loira, a Diva dá-se ao prazer da vista. Da fita celulóide pela imprecisa luz molemovente bailam na tela o fulgor dos seus cabelos nos ombros desnudos, lábios de bâton recheados beijos selados na palavra fim. Some, repentina, desfeito o escurão. &lt;br /&gt;Hoje, acesas as luzes não se adensa a sensaboria da realidade: ela estava lá: &lt;br /&gt;Divina. &lt;br /&gt;Levanta-se e sai, de braços com o amado, a criada e única amiga ao lado. &lt;br /&gt;Os Noctívagos provam o gosto de sua presença, e a amarga despedida. &lt;br /&gt;Os Noctívagos, a branca pele de amantes da lua, olhos acabados de acordar, sonolento tédio das tardes vagabundas, os Noctívagos a quem a vida se desdobrou fácil, sem desmaios dos sorrisos facultados pela fortuna dos pais abandonam os compromissos dos quais se ocupariam: depois das onze, antes de o dia clarear. A diva, não sabem onde minha vida andará. &lt;br /&gt;Sei o ermo das quase-divas de ferrolhos nas portas destrameladas janelas onde moram; na vida perdidas sei onde ficam as zonas proibidas; desfez-se na luz a Diva que meus braços anseiam dados aos seus permanecer, gemem na noite indormida os Noctívagos, jacinthos pouco adônicos narccisos emurchecidos. &lt;br /&gt;No banco do jardim da praça resolveriam, no tempo dos sonhos em acalentada espera, no palito a conta da cerveja a ser bebida desocupados entre as mulheres no vadio da noite. Buscavam junto delas não mais que o prazer de beber ao som de tangos e guarânias, ojos en el reloj, barco lento das horas; aos da carne reservavam-se exigentes quanto podiam: as mulheres mantidas pelos amantes abonados, os senhores de vida abastada, fazendeiros médicos engenheiros comerciantes conjugando prosperidade. &lt;br /&gt;Noctívagos, madrugada vinda era cúmplice a lua pálida a torná-los todos pardos, cautelosos passos, antes de o claro ressurgir aurora, retirados os senhores abastados diretos para o repouso do Lar, saltavam a janela e serviam-se em leito quente do amor ainda há pouco ressumado. E, nas camas de cetim bordadura em franjas eram o Sol. &lt;br /&gt;Contentavam-se com o brilho menor das mulheres quase-divas. Compraziam-se em ser espertos. Provado pelos olhos a existência do melhor não aceitam o pouco oferecido mesmo que de corpo e alma por amor em graça doados. &lt;br /&gt;Diva, pensamentos vagos sonhos claros. Querem-na de primeira grandeza. &lt;br /&gt;Na lateral da Catedral o jorro da cerveja tomada no bar. &lt;br /&gt;Na Matriz, noite alta a vela tremidas chamas entre as botas de São José padroeiro, do fundo do peito ardente de fé Cônego Damiano impreca dobrados joelhos viva ele ainda longa vida e veja, no lugar da velha igreja onde agora ora, seja ela derrubada e construída imponente catedral; só então morra eu em cumprida missão. &lt;br /&gt;Quero cerquem-na vitrais, laterais furados de luz nossos santos ancestrais em modernos traços, dois átrios numa só igreja em dois pisos separados; num menor e súpero as recolhidas missas e noutro maior e ínfero a missa para multidões. Sem teto, laje de cimento onde estacionem centenas de automóveis filhos do progresso, do longe quantos vierem reverenciarão a obra máxima da arquitetura a serviço do Senhor, meu Senhor! &lt;br /&gt;E uma torre enorme campanário acima dos arranha-céus a vigiar dos viajores os passos; zelar pela tranqüilidade de nossos filhos, virtude de nossas donas. &lt;br /&gt;Se de repente um susto: Tão oneroso seria aos cofres da paróquia edificar a Catedral projetada; salta-lhe na idéia um brilho, salvador: Para construí-la cederemos ao povo jazigos distribuídos em gavetas pelos andares da torre, relicários familiares guarida dos queridos ossos aguardando os clarins da ressurreição. Os cristãos das catacumbas faziam seus locais de oração como nas fitas superproduções de colorida reprodução histórica onde se vêm confrontadas fé e morte; quanto no século passado enterrados junto ao solo santo dos altares ou subsolo deles as criptas os bons dentre os comuns, memórias presentes ainda nos mais velhos viventes. Os jazigos gavetas nas nuvens altos encastelados mais caros por eles pagariam os familiares enlutados. &lt;br /&gt;Um trovão confirma ao Cônego terem os céus ouvidos para suas preces; aos Noctívagos confirma chuva e a raiva de mais cedo se recolherem a casa. &lt;br /&gt;Um dia será atendida a Prece do Cônego. Como hoje, parece vinda dos céus atendidas preces, surgira a Diva verdadeira. &lt;br /&gt;Até então por seu amado oculta dos olhos cobiçosos mantidos fora, altos muros deviam cercá-la flor beleza de cioso culto, vera diva, suaves cores delicado perfume. &lt;br /&gt;E seu amado, que num ermo rincão a mantém escura para ávidolhares, é o dono do novo Cinema, o Senhor Damastor. Do Cinema dono e senhor da Diva, sonho de todos nós. Descobriram isso os Noctívagos, pois foi ele quem com ela se levantou ao final da sessão; e descobertas outras não fizeram por mais sagazes fossem. Retorna sempre nas terças-feiras, no passo justo do recorte do vestido, e o decote, promessas de ser pandora de segredos fatais mas no fundo a felicidade mora, onde mora a Diva descobririam jamais. &lt;br /&gt;Repetem-se múltiplas as terças-feiras. &lt;br /&gt;A última sessão era da Diva. &lt;br /&gt;Luminosa ela ressurge de braços com Damastor, segundos antes do apagar das luzes tanger do gongo entreabrir das cortinas, estrela de total grandeza olhos de resplendentes raios, as carnes seda em seda revestidas e os cabelos de ouro puro embelezam as fitas, empresta brilho às telas, anda ao passo no justo do vestido as promessas de felicidade no fundo, ela vem Diva de sonhadas décadas, no escuro pressentida por descompassados corações: os Noctívagos pelas poltronas distribuídos formam círculo, ela no centro de um lado a criada e única amiga doutro o Senhor Damastor, dono do cinema e dela, amor escondido nas trevas da sala. &lt;br /&gt;Acesas as luzes desvanece a Diva. Longe andará, de braços dados, pressa de namorados. &lt;br /&gt;Desmaia-lhes o sorriso, o corpo faz-se mole. Passam o dia acordados. Reviram-se na cama entre os suores do sol escôo do calor por entre venezianas frinchas para os sons vizinhos de enfadonha repetição, o ardor de tê-la nos braços dados a certeza de não saber onde mora a encarnação de seus desejos. &lt;br /&gt;Mora, quem sabe, para além das telas envolta em cetim, dossel em leitos arredondados, paredes acolchoadas e geometrias impossíveis a decorar as portas abertas para o Senhor Damastor e cerradas para os ressentidos. Nesse cômodo de infinito pé direito a criada, única amiga, arruma com delicado carinho peça por peça as saias e blusas amadas que de combinação com o colar de grossas contas e sapatos de fivelas douradas levá-la-ão passear e à calada pergunta, em qual rua? Podem as sandálias arrastá-la, Diva em luz tecida, para Longe um dia. Repostas mudas, imprecisos delineamentos na mente da criada &lt;br /&gt;São José é indiferente à própria morada por carpinteiro pobre hóspede de estábulo fugitivo no deserto, encontrado outrora em choça de índio nos pés as longas botas feito desbravante abridor de matas, Indiferente à rapidez dos gulosos passos dos séculos deverá atender os pedidos do Cônego Damiano com mais veemência feitos agora no intuito de fustigar da mente os verdes olhos de Olga. &lt;br /&gt;Clero e comércio fecham acordo e ofertam à Cidade sejam renovadas suas feições, mercê dos anos de vida e riqueza amealhada. &lt;br /&gt;Praça e Catedral na mira do progresso. Os corações da Cidade. &lt;br /&gt;A postos escavadeiras e bate-estacas, exército de peões. Canteiros de flores revirados em canteiros de obras; árvores de raízes desgrenhadas aos céus clamam pela igreja violentada: &lt;br /&gt;Catedral qual velha empalhada, desbotado azul na pintura cadente feito rugas enviesadas, desalinho nas vestes um dia celestes a cobrir os murchos restos de sofrida vida terá seus dias contados: &lt;br /&gt;A marreta cairá sobre os vitrais. As delicadas flores das guirlandas aguardam despetalar-se em lágrimas de pó. A clava de ferro arremetendo-se contra a torre, pela última vez tocarão os sinos; desprendidos cairão os tijolos assentados pela esperança de eternidade. &lt;br /&gt;Era uma vez fatal, a estrada de ferro rompeu com o alinhamento das praças e fez das múltiplas sobrarem três, onde era praça pulmão infectas pensões hotéis estação escura charretes de aluguel barracas de frutas cheiros confusos profusão de gente e mala infestam. Para lágrimas do barbeiro Amandio. &lt;br /&gt;Dia virá. O sonho de seu irmão Cônego Damiano acordará na realidade de um pesadelo. &lt;br /&gt;Sem data marcada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 08 de Conto Romances&lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;versão de 30/09/200 a partir da versão de 30/03/07 calcada na versão de 27/03/07 calcada na versão de 26/03/2007 calcada na versão de 25/12/2004 calcada na versão de 12/02/1997.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-357915536381521914?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/357915536381521914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=357915536381521914' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/357915536381521914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/357915536381521914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/08-divas.html' title='08 &lt;strong&gt;Divas&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6FvA4UIGI/AAAAAAAAABM/EAnj84dTTBM/s72-c/divas-v01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-1123689648939928513</id><published>2007-12-01T12:12:00.001-08:00</published><updated>2008-12-08T23:23:39.936-08:00</updated><title type='text'>010 Rui Raul </title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6F9g4UIHI/AAAAAAAAABU/0RbCOdZ_rMA/s1600-h/raul-v01.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6F9g4UIHI/AAAAAAAAABU/0RbCOdZ_rMA/s320/raul-v01.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5124680717838852210" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Conto Romances Arquivo 010&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rui Raul &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moro barato num quarto de pensão, mobília de aluguel. De meu guardo muda de roupa, paletó xadrez gravata brilhantina e bigode recente a tinta para a noite e saio, desacautelados rumos decidido tomo, para o escuro da noite onde rui o romântico no reverso do romance, no torto do muro no perigo da travessa, no inverso do luar a todos os gatunos vejo pardos. &lt;br /&gt;Pouco mais de meu além da muda, tenho uma victrola para alguns 78 rotações. Mas ela, victrola, das rotações não gira além das 70, toca fanho gira girar e nem gato tenho nem porcelana nem tenho encontros ao quais mudo se assista em meio à difusa luz que se prestasse a clima de tango celebrar passado amor. Joguei fora, a victrola e tudo, menos as lembranças que tão mais agradáveis eram acontecidas mais doem agora amortecidas; os discos riscados guardei como do passado guardo o violino, há muito sem cordas e roto arco, só restaram por tentativa de convencer-me, se necessário for, ter a vida e os sonhos prometidos valor nenhum. &lt;br /&gt;O mais de minha posse, desfalcado de quase todo abecedário pronto para narrativas, aos poucos fui deixando e hoje tenho apenas duplas interrogações seguidas de triplos exclamativos; tento deitá-los fora entre ruínas de muros escuros cantos dobradas suspeitas de esconder gatunos todos pardos ao luar. &lt;br /&gt;Nada mais eu tenho, além de que me cansei dessa vida. Lugar comum, não a frase mas a vida, desinteirada do principal. &lt;br /&gt;Nem todos os sonhos banidos, um bem guardado no peito prendo por premonitório: um punhal afiado trespassar-me, o cabo em mão armada na madrugada. Desde então quisera da quimera o realejo de um dia no último suspiro ver realizado sonho meu. Pertinaz o persigo. Ele foge de mim. &lt;br /&gt;Brancos de dia e de dia os negros também, pardos nas sombras da noite iguais. Se os vejo na rua o sol em plena luz nada digo e desvio os olhos para vitrinas de roupa e eletropeças domésticas panelas apagado quebra-luz, ofertas do comércio que nunca aceitarei. Na pensão onde barato moro, barato moram alguns. Trato-os com polidez e até comento algumas idéias suas enquanto palitam nos dentes a carne que jantaram. Penso que, à noite gatunos todos eles, guardam para mim o punhal que se recusam cravar-me. &lt;br /&gt;Solitário, à noite saio. Saio para a solidão maior do escuro. Mistérios. Las. Los. &lt;br /&gt;Meu nome é Raul. Carrego de tintura meu bigode fino desenho preenchendo cantos e dobras,bigode torto por mais que fio por fio na tesoura ou pinça rabisco de lápis ou retoques de pincel eu horas ao espelho dedico-me a mim. O espelho lembra-me dela tão linda nele refletida; se perto de um espelho, seus olhos jamais se voltavam para mim. Meu bigode quero escuro; o cabelo agora embranquecido recebe o loiro da tintura que antes era oiro e puro. Brilhantino estrelas nas ondas raras que persistem, gelatina onde onda de mar prata congela-se convexa crista côncava queda; às vezes salpico negro pó. Meu espelho nem tudo mais reflete e minha cara sofre leproso papelão no vidro pardo onde o adamascado de mim deveria estar. Meus olhos, aqui eu vejo a cor que tiveram se posso esta catarata chamar de azul. &lt;br /&gt;Cansei-me desta vida. Mas não foi de uma vez. O que rui no tempo desprega-se em tênue pó. Meu espelho, a prata negando seu reflexo em opaco papelão desprendeu-se poro a poro sob meu olhar, como a catarata garço a garço esgazeando o azul rútilo de minha visão. Mas antes da ruína plena tudo percebi e me cansei primeiro, vendo nos olhos de meus filhos que as promessas da vida não passaram de ofertas de fugaz ocasião. Os olhinhos tristes puxados em sorrisos de rugas forçando a abertura da rima que o desencanto teimava em fechar, tanto queriam ver e sorver de tamanha oferta enorme redibir. Defeitos. Desarranjos. Desapuros. Desarrimos. Desatinos. Desarmonia: que ânimo mantém vida e abertos olhos se a esperança não é senão um rictus plantado a pregos no amargo da boca lambida de desejos mas sufocada em fel. &lt;br /&gt;Meus filhos não morreram mas eu parti. &lt;br /&gt;Abandonados eles e minha mulher. Dirão: mas que canalha! Sim, existe gente como eu, prova viva do que eu dizia há pouco, e muito! Posso ver em olhos de estranhos rediviva desilusão, em olhos outros posso ver e suportar. Olho, confirmo e gosto. Sou ruim? nem pouco nem mui. Mas nos olhos de meus filhos, não neles!, a desilusão causada por mim não posso constatar. &lt;br /&gt;Busco o real. Gosto de ver pardos reflexos na vitrina misturados a faqueiros aparelhos de jantar porcelanas de chá e café, muitos cristais. Não sou visto a ver o efêmero passar. A cara no fundo de um prato. Dentes enfileirados nos cabos da simetria das colheres. Batedeira no peito, simétrica ao coração. Do ferro elétrico o cordão é colar de voltagens sem fim. Aspirador um poeta de nariz solto no ar. Orelhas pares de pires. Olhar dentro do oco da xícara, vide o vazio. Dissimulato, à noite gatunos como de dia nas vitrines somos todos parvos. &lt;br /&gt;Sem luar, afasto-me para perto do recanto malfalado da virada da tocaia do perder de vista morada de ninguém. Talvez, na solidão deserta de sua meia luz esconda-se quem irá por mal tirar-me a vida, inda que por meu bem. &lt;br /&gt;Desconsolato volto mistério para o barato quarto de minha pensão. A vida teima em não me deixar. Não me canso de cansar, tento sem esmorecer a única coisa que na vida paga a pena: a hora de morrer. O mulato com canivete desdobrável apara as unhas dos pés, a cutícula não cessa dia a dia de crescer, carne morta acumulada ao redor da garra disfarçada em adorno. Dedos achatados as unhas brilham por entre o pardo pálido dos pés. O mulato ergue o olhar e pendem os lábios num cumprimento habitual. A manhã vai começar e uma malícia de esguelha no amendoado olhar. Desdobro rascante desprezo mais cortante o meu silêncio a seu sorriso afável que a dureza de suas unhas ou seu afiado canivete.&lt;br /&gt;O dia passa solitário, passo eu junto ao dia no cavo desta solidão, dormindo eu e o dia frios em cobertores esgarçados, como a vida cansa. &lt;br /&gt;Meu bigode no espelho demandatura de nova tinta. Amanhã? Saio. Pelas ruas ruindo o reboque os tijolos porosos em cruas carnes expostos e os cachorros, corroídos cupins, dos telhados por desabar vou indo sem saber, ali onde sem sombra de luz, eu Raul inverso luar, inverso do sal, inverso do sol. &lt;br /&gt;Essa noite, quem sabe, aberto o peito na ponta de um punhal repousará meu coração. &lt;br /&gt;Las. Los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 010 de Conto Romances&lt;br /&gt;Paulino Tarraf  06/03/2004&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-1123689648939928513?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/1123689648939928513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=1123689648939928513' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/1123689648939928513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/1123689648939928513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/010-rui-raul.html' title='010 &lt;strong&gt;Rui Raul &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_dRJf91Acy-k/Rx6F9g4UIHI/AAAAAAAAABU/0RbCOdZ_rMA/s72-c/raul-v01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-5813557725267688691</id><published>2007-12-01T12:10:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T12:11:13.568-08:00</updated><title type='text'>011 Amandio, doce memória</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 011&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amandio, doce memória&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Damiano, cônego, pensa com seus botões muitos do saio ao colarinho clerical: um dos jazigos na torre da Catedral com certeza eu mesmo compro e os ossos de Amandio para lá trasladaria não fosse a circunstância pouco cristã de seu passamento. &lt;br /&gt;Amandio, não teve em mim o amor à altura de sua renúncia. Morreu para salvar-me; creio Deus todopoderoso faça justiça e repouse aquela alma criança no colo santo de nossa mãe, ambos no paraíso como ele queria; interditassem embora as leis canônicas de aos céus alçar, maior é Deus em Amor e Sabedoria. Farei empenho aqui na terra tenham os queridos ossos de meu irmão jazigo no mais alto da torre da Matriz, de onde pelos séculos dos séculos contemplará a Cidade, cidade que ele almejava tivesse ela um belo jardim cultivado de cima a baixo, sucessão de praças, da capela da redentora à paróquia da Maceno. &lt;br /&gt;Assunto preferido de Amandio na barbearia, na farmácia, na praça, nas ruas do comércio, desde antes falecesse a mão amorosa ouvinte de seus sonhos mortos pelos homens práticos. Que se implantasse para a Cidade um traçado de concepção ousada: perfilados quarteirões de ibiraobis sapupiras sibipurunas um bosque onde não faltassem a majestade do guapuruvu e da espinhosa paineira o fruto macio sedosa paina, que acima de todos crescesse a tambe´mbuya madeira leve ouro que no azul flutua aipê.; águas em fontes aos jorros, algumas delas ao natural quantas bicas vertidas pois sendo a Cidade mesopotâmia, lado a lado Heborá de mel o fluido leito e Canela de cheiros do oriente, correndo ambos para o rio mãe colo das variadas cores conforme o céu em ânimo resposta ao amor dos filhos complacente azul contrariado pardo muitas vezes preto tanto sofrido o coração, sem dúvida era questão de procurar os olhos nascentes borbulhões e, ao invés de tapá-los com tijolos e cimento facilitar escorresse, como quando os índios daqui antigos moradores bebiam o mais puro cristal; muitas fllores, quero crer você não acha, Damiano? &lt;br /&gt;Damiano não acha; preocupam-no as almas, nem tanto os viventes. &lt;br /&gt;Assunto preferido na barbearia de Amandio, onde somente Damastor o ouvia; os fregueses outros vinham à busca de uma sonata indulgente para os percalços do dia no conforto da reclinada cadeira. Ele falaria sem descanso de seu sonho de arborizar. Duro aprendizado de calar-se tanto advertido por Damiano, cônego. Entendeu seu ato de muito falar como falta grave, verdadeiro pecado se o requestava um padre das mãos abençoadas por Deus, com direito de desligar na terra desligado ficar no céu. Boca fechada obediente; os olhos reviravam nas pálpebras, os lábios em mussitação. Inquirido responde: converso com minha mãe que está no céu. Para gáudio de Raphael, aprendiz de alfaiate, ao ver em Amandio poderes mediúnicos por se desenvolverem. Enquanto a tesoura de Amandio brande barbeiro no ar Raphael alfaiate, gaio, pensa espírita quantos benefícios das mãos de Olga adviriam ao ficar ele enfim livre de seus obsessores. Mas Damiano, consentir jamais. &lt;br /&gt;Voltava ao assunto do querer das mãos de Olga o aprendizado de visitar sua mãe. Pois a mãe o perdoava quer nos sonhos, como em vívida presença perdoara-o, quer em vislumbrada visita derramando sobre ele olhar de azul benevolência, embora o castanho dos olhos dela lembrassem tâmaras passas. Passageiros os visos retornam oníricos ao limbo apagados; resta a sensação de um estar, bem ou mal. Nas mãos da mãe quanto queria a face colocar repousada e os jardins do mundo em frescor aquietarem-lhe o espírito: tantas vezes assim fizera, a mãe sentada as mãos postas enxugadas lágrimas. Quem sabe Olga; implorava para o irmão. E penitências impostas por Damiano, ajoelhar-se frente à Imaculada Conceição; e os olhos da Santa em tâmara passa perdoava-o azul. &lt;br /&gt;Voltava ao assunto do jardim quando das oportunidades aparecidas. No farmácia do Jaime, sobre o balcão, os jornais do dia amarrotados de tanta leitura cediam suas adormecidas notícias para acalorado discutir a guerra iminente. Repente introduzia Amandio: como seria belo transpondo o Canela saísse da praça alameda arborizada em fícus direto para o Cemitério uma Avenida da Saudade; ou na calçada enquanto concentrados no jogo de damas apenas assentiam com a cabeça quanto ao assunto insulso, na espera de chegar o padre que o carregasse. O duro olhar de Damiano cerrava a boca de Amandio pondo seus olhos revirados e em Raphael, gaio, a certeza da presença da mãe. &lt;br /&gt;Na casa dos 2$000, em frente às vitrinas expostas louças e panelas do sábado à tarde, um grupo disperso logo formado assim derivasse ele do assunto da guerra vigente para o lindo nascer do sol seria se, cercando a estação de trens de ferro necessária à civilização, aipês flutuassem amarelas primaveras. &lt;br /&gt;Voltasse ao assunto as pessoas devagar saíam para afazeres repentinos, Damastor não. De bom grado lhe abria a alma, como palmas fossem das mãos.&lt;br /&gt;Até hoje Damiano é grato a Damastor, quanto sente remorsos de abandonar Amandio ao fio da navalha. &lt;br /&gt;Único freguês na barbearia a permanecer atento enquanto Amandio aparava-lhe o pé do cabelo, abrindo mão de discutir conseqüências da guerra finda ou o preço do café para fazer perguntas de quais árvores acreditava ele ficariam melhor no bostelo do alto da Adamaceno a ser visto da estação quando floridas alegrias dos passageiros dos trens: sem duvida paineiras altas rosas em outubro; quaresmeiras roxas em março; vermelhas eritrinas aquecedoras do inverno. &lt;br /&gt;Toda semana Damastor cuida do cabelo basto, a brilhantina para manter a risca branca divisa ao meio no corte valentino, necessita banhos esmerados e constantes fricções. Perícia de Amandio. Amord’em’graça. &lt;br /&gt;Se cobra, sejam bastantes uns poucos réis em paga. Gratífico Damastor retribui. &lt;br /&gt;Também a Raphael, aprendiz de alfaiate é no corpo perfeito de ginasta contumaz que o corte e a costura têm seus erros perdoados no baixo preço cobrado, tão pobre nesta época balconista de charutaria Damastor encontrava neles única maneira de ser elegante de bolsos vazios. Hoje rico, Damastor reconhecido, paga pródigo os ternos de casimira importada fazenda e sobejamente dele receberia Amandio vivesse e em suas peritas mãos os cabelos tivessem o trato merecido, brancos no entanto bastos ainda. &lt;br /&gt;Passado o tempo não esquece a Raphael a rigidez de Damiano; permitisse o padre ao doce irmão uns passes, Olga de poderosas mãos, e o vexame de seus encostos não o levariam à morte. &lt;br /&gt;Em Damiano o tormento agora: &lt;br /&gt;Os ossos de minha mãe, reservo uma gaveta na torre da Matriz e, o mais alto jazigo ao lado dela reservo à espera de Amandio amados ossos, quem sabe Damastor influente também nas eminentes esferas da Igreja o perdão à insensatez do golpe infeliz obtenha. Perdoado por Deus levado aos céus, indultado pela Igreja irá jazer na terra plantando palmeiras esguias e frondosas árvores o quanto permitam os anjos sonhar uma alma menina. &lt;br /&gt;Sai à procura de Damastor. Hoje na Cidade, deve estar na alfaiataria. &lt;br /&gt;A título de esclarecimento, escreve Benedito Rui em suas memórias escritas sem fito de publicação, raro voltar Damastor à Cidade. Investidor, desde comprar algodão e café nas terras da redondeza e, na fazenda em Borboleta cultivar a cana para cachaça e açúcar, até financiar filmes nacionais na Capital, viaja constante no corredor Cidade Capital. Damastor jamais quiscréditos não fossem os das contas bancárias; portanto nos filmes não figura seu nome como produtor por avesso a qualquer filme nacional, no que partilho com ele escreve entre o chilreio do lápis a deslizar no papel e o zombazombar de seu riso o Benedito Rui. Outrossim,que fal Damastor abomina filmes falados; compartilho eu novamente extensivo a qualquer sonoridade que atrapalhe as imagens em movimentos que falam por si. &lt;br /&gt;Então, os pensamentos presos em Amandio foi Damiano à procura de Damastor em dois diferentes tempos calendários: uma vez há pouco, sem registro nos originais de Benedito Rui, quando a Catedral já saindo da prancha do arquiteto e, rica de financiamentos, derrubada a original azul os alicerces prometiam gigante abarrotar a praça de cimento e vidros coloridos de mártires sanguessantos, livre das árvores e canteiros de flores. Nas torres imensas projeto de abrigos do sono eterno da população. Foi pedir que o cerealista, os cabelos cendrados, instasse com o Arcebispo revogar proibição de jazigo para Amandio na matriz. &lt;br /&gt;Os registros originais de Benedito Rui em pormenores contam: há muitos anos quando ainda de Damastor negros os bastos cabelos e jovem aprendiz de magnata; quando ainda de Raphael aprendiz na alfaiataria da confecção de ternos faziam-se derradeiros os remendos, quando ainda de Damiano tão somente padre as ambições de Cônego não almejavam ser Monsenhor, mas frente aos fatos susto da morte vivia estupor e insistentes lágrimas, já cogitava Damiano compensar para Amandio a Igreja não ter aceito o féretro nem a bêncao do caixão sequer o dobrar funéreo dos sinos: engendraria com tudo a seu alcance  fosse ele enterrado em solo sagrado seio da Catedral. Demolidas sejam as cruéis portas barradas ao corpo casto e imperfectivo de meu doce irmão! Segredo apenas em sonhos e preces revelados, não mais suporta seja a Catedral pequeno azul na praça enorme. Seja ampla o quanto comporte o largo ser ela senhora sem fronteiras, seja alta o tanto rasgar o cimento às nuvens possa, eis minha reverência ao eterno. Jazigo para Amandio, eis meu projeto para o eterno. &lt;br /&gt;E na alfaiataria encontra sem camisa, perfeito manequim na camiseta branca bíceps à mostra e parte do peito pela cava regata, o sorridente Damastor com régua torta na virilha e, a seus pés, empunhada fita métrica Raphael, alegre com moderação, das coxas mede o diâmetro e na barra o comprimento das calças. &lt;br /&gt;Rapahel, a boca cheia de alfinetes a rolar nos lábios, dirige a Damiano o cumprimento que antes votava a Amandio: Si vales, bene est; ego valeo. Assim mastigando latim e alfinetes copia Cícero, enquanto de soslaio contempla, majestoso, o semblante contraído do padre, tanto a saudação machuca lembranças do irmão. Por remorso! pensa marcado brio Raphael. &lt;br /&gt;Que dor! mortifica-se Damiano; e adia o pedido que faria a Damastor, pois teme o alfaiate confirmasse espírita os maus pensamentos que tem sobre mim, se agora falo nos ossos de Amandio e quanto almejo repousem eles em campa santa. &lt;br /&gt;Caluda. &lt;br /&gt;Amandio esteve comigo esta noite, e descarnado sofre na outra dimensão a injustiça dos homens não darem aos dele restos carnais sepultura à altura de sua bondade; Raphael alfinetando a barra. &lt;br /&gt;Sonhou com meu irmão? &lt;br /&gt;Eu não disse ser sonho a diáfana luz a preencher minha insônia! Amandio ali na minha frente, pincel e navalha nas mãos, navalha em sangue tinta e o pincel vermelha espuma de ensaboar, mas o sorriso sem tirar nem pôr o sorriso dele. &lt;br /&gt;Benedito Rui escreve para as cinzas, alimenta de memórias o passado como futuro alimento para o fogo: desesperva-se Raphael de ser pianista ou de trilhar com música o caminho de filmes, plasma de luz a cada instante espíritos desfeitos sonhos. &lt;br /&gt;Esplendor de filme, Macho&amp;Fêmea se Deus os criou, é no título que buscara Raphael o enredo musical a compor. Victrolas emprestadas, uma de Damastor outra do Alfaiate, entende ser Wagner imperial ao lado de Stravinsky, pois no alvorecer da alma são os sons calcados em acordes desarmônicos recordos, fatias de espíritos faltos de luz, sujeita aos arroubos da natureza a matéria primeira do homem percorre, entre bestas feras aos percalços, a trilha da perfeição, e alcançada embora, a vida tornará a oferecer ocasiões de abrutamento. E de sublimidades: Gounot e sua Ave-Maria. &lt;br /&gt;Esplendor de filme. Fiasco musical. Dia seguinte faz Raphael na barbearia o ponto de encontro para consolo entre amigos; os cabelos de Damastor nas mãos de Amandio cheias de espuma. As palmas abertas seguram na fronte o peso do fracasso. O público, que mudo queria ao filme assistir em silêncio, explodira em vaias e gargalhadas, assuadas ecoam ressoantes ainda hoje na buzina dos carros apitos de sorveteiro assobios esparsos realejos da esquina debandar da molecada. No relembrar dos fatos remoem-se misturados o eclodir das vaias com acordes de Wagner a fustigar walquirias quando na tela brilhava a Atriz em serena paz a receber perfumado chuveiro no corpo vislumbrado. Ou, era rugoso o mar quando plácido cantava uma pastoral o piano sob tremidas mãos, ou o mordomo matava a fera enquanto um archanjocaruso entoava Aves a Maria. Se poderia ter acertado na escolha das músicas, errara Raphael no tempo de execução; e na dessintonia o desafino.  &lt;br /&gt;Não o consola Damastor, quanto grato seja de seus préstimos de alfaiate é sincero amigo no admoestar; assim reclama de haver emprestado a victrola e os discos; soubesse para qual fim, eu jamais o faria. A sinfonia de luz maravilha sem necessidade de adornos. Gosto de viajar nas emoções ricas de imagens despidas das conseqüências repelentes do dia-a-dia: escreve Benedito Rui, fazendo das suas as palavras de Damastor. &lt;br /&gt;Contornos escuros gestos ágeis na tela branca os espíritos em evanescentes aparições, fui roubado de meu prazer de contemplar, espectador assombrado, os olhos expressivos parece querendo falar.&lt;br /&gt;Apenas Amandio gostou, recorda-se Benedito Rui mordendo a ponta do lápis conforme decidisse dentre as inverdades as melhores mentiras. Gostei da música e de vê-lo prestíssimo Raphael, esforçando entre o piano dedilhado a custo e o regador imitação de chuva, nas cascas de cocos secas cavalos a trote ou passos de homens em soalho de madeira. Mas do filme Amandio pouco entendeu: de sabor romântico, às idas e vindas do amor em melodrama prefere as correrias engraçadas da polícia contra vagabundos espertos. Teria mais sucesso Raphael se numa fita assim comédia, e não complicado drama, deixar correrem os dedos no passo apressado de melodias singelas, feito dança de salão. &lt;br /&gt;Amandio consola-o: e Olga, a gentil namorada, o que falou? a tesoura, uma no cabelo duas no ar. &lt;br /&gt;Olga disse-me que sim num tom vago. &lt;br /&gt;A propósito de Olga, disse Damastor, hoje a encontrarei para um passe que preciso tanto carregado estou; e suas mãos fazem-me bem. &lt;br /&gt;Não o saiba Damiano, perigo de excomunhão, católico soltar-se em mediúnicas mãos. Pensa Amandio a experimentar o fio da navalha. &lt;br /&gt;Mas o episódio esgotou-se com a vida de Amandio; o enterro dias depois do acontecido, mudos sinos silentes lágrimas; esquecido Raphael aproveitou para vender o piano e alugar um salão onde a máquina de costura era a música contraponto ao assobio solo. &lt;br /&gt;Damastor, e mais freqüentes eram os passes, abençoadas mãos, também a Olga grato. Foi padrinho do casamento, Raphael Olga e seus amores, cerimônia simples na igreja simples da Aparecida da Boa Vista. &lt;br /&gt;Damiano não foi alegado luto, escandalizado porém aceitasse a igreja abençoar espíritas e negar-se planger os sinos no enterro de Amandio, o caixão fechado na escadaria da Matriz, vedada porta, direto para a Saudade, avenida para além do Canela, rio do esquecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 011 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão de 27/02/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-5813557725267688691?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/5813557725267688691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=5813557725267688691' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5813557725267688691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5813557725267688691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/011-amandio-doce-memria.html' title='011 &lt;strong&gt;Amandio, doce memória&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-1974874694360345459</id><published>2007-12-01T12:09:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T12:10:12.488-08:00</updated><title type='text'>012 Vina, expressivo olhar </title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 012&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vina, expressivo olhar &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bastou um susto; se um susto foi!, porque Vina nunca mais falou e jamais souberam o por quê de muda ser embora eloqüente olhar. &lt;br /&gt;Desde os três anos. Pareceria da própria voz não gostar. &lt;br /&gt;Nenhum som, contudo faz-se desnecessária voz: diz silenciosa o que pensa tanto calma por comedidos gestos de harmoniosas curvas, ou desenhos traçados resumos no ar; quer apontem indicadores dedos quer as pálpebras assintam ou desaprovem cerrados lábios de cantos contrafeitos, todos entendem o quero e o não. &lt;br /&gt;Atenta do alheio ao riso e à dor, compartilhadas alegria e lágrima, nada lhe escapa dos gestos e falas das gentes. Deleitam-na das frases compridas nas conversações os agudos e graves decrescentes, pausas titubeios lapsos reticências cicios murmurantes, encantam-na de certas palavras os vários timbres. Os íntimos sabem quais palavras essas e Abadiah, a dona da fazenda com carinho de mãe, de propósito repetia beija-flor queixume queijo-cura machuchu e pingo dágua. Incandescente olhar acende inteira a face: pelo aceso sabe-se dos gostos da menina; também se sabe do amuo, do desespero em desmesurados gestos do andar rápido dos volteios sem saída sabe-se dos desgostos; mas é raro o descontentamento dar-se. Nas oblíquas trilhas o claro de seus pensamentos. &lt;br /&gt;Cresce em graça nos carinhos de Abadiah no apalaçado da fazenda, dentro dos olhos da mãe em reservada distância no casebre dos colonos; e nos cuidados de Gertrudes, ama-seca prenhe de amores jura dedicar-se à menina, casar sequer ou abandoná-la enquanto vida eu tiver e nem morrer, desde proveitosa ela ainda me sinta e eu seja. &lt;br /&gt;Gertrudes não foi a única, de serviçal utilidade e cega fidelidade, em estabelecer-se no paço onde outros lhe fazem a corte, obedecidos desejos como se pensamentos fossem cetros da rainha menina. Principal vassalo um comprador nas fazendas de café e algodão colhidos, abonado gigante do comércio pois abastado nas empresas ao arraial das Borboletas vem deleitar-se em explorar a terra, plantar e colher pelo prazer de assim o fazer, em fabrico dos próprios insumos ver crescer o bezerro a flor desamarrotar-se em coloridas pétalas o grão enraizar-se ereto caule, pois a alegria de vender para mais comprar tem na Cidade o comércio pleno e agora docas para o mundo abrem-se na facilidade da radiotelephonia eléctrica. &lt;br /&gt;Perguntado o nome, mexidos lábios como se um beijo e depois como se um sorriso, respondeu num sopro Vina. &lt;br /&gt;E os dentes em troca de idade, faltos dois e os outros lindos, mostraram-se na gargalhada sem som quando ele disse o dele. &lt;br /&gt;Tocaram-no os impressivos olhos sugaram-no, e outra luz não teve ao redor senão o brilho a soltar-se deles, estrelas de grandeza maior. E, dentre todos os vassalos foi o satélite de maior fidelidade; por conseguinte de ser o de maiores posses. &lt;br /&gt;Resolveu dotá-la. &lt;br /&gt;E célere, comerciante dos bons, passou de vassalo a régulo; sem dispensar a ama-seca, tarefa, percebeu, impossível quanto persistente se mostrou Gertrudes de inescusável experiência. &lt;br /&gt;Resolveu dotá-las; aditada ao séqüito Gertrudes logo percebeu quanto um defeito, como tal aceito, pode ser útil e deve ser mantido, as regalias de sobejo compensadoras. Sabedoria, acreditou, cabedal também da menina Vina. Muda deixasse de ser, não deixaria de parecer: concluiu Gertrudes por malícia. &lt;br /&gt;Não desacreditava Gertrudes da mudez de Vina. Mas quem sabe a malícia tenha inserido o germe que desta época cresceu da incerteza certa para a certeza incerta, escreve Benedito Rui em rascunho riscado por ele e recuperado por sua diligente Mãe. &lt;br /&gt;Um proveito próprio a não ser subestimado, anteviu Gertrudes no protetorado a benesse por vir. Vina não ser muda, quão bom seria fingisse ao menos. Só não gostou de trocar a fazenda Borboleta pela Capital. Mas soube gostar, afilados proventos. &lt;br /&gt;Homem de admirável agilidade com freqüência aparta-se dos negócios na Cidade e vem ao Arraial, não a trabalho inda por pouco tempo seja, mas para tê-la nos seus joelhos assentada, e passa horas no prazer de propor-lhe enigmas em pantomimices resolvidos. Ou então, inda ao colo, ela acende o charuto que na boca chupa fazendo barulho como se comediante fora provocando risos, em sopros de fresco hálito a menina apaga o phosphoro incandescido e bochechas inchadas na satisfação, tal acolhesse a brisa da vida. Ao deixá-la, lágrimas. Dele!; o lenço de cambraia pronto nos dedos de Vina, e o pente risca certeiro nos cabelos densos da brilhantina o corte valentino, perícia da menina. A palheta e o adeus sentido. Dele! &lt;br /&gt;Ele volta. Carregado de presentes. Mas o maior regalo é para ele mesmo, Vina comprazer-se argila de esculptor e, de menina a moça, ditar-lhe-á os modos e as vestes figurinos de paris em confecção na Capital os tecidos das Índias de Inglaterra nela tomam forma a seda antiga e fazendas de moderna indústria. Despede-se. E volta. &lt;br /&gt;Carregado de sonhos, assim com sonhos preenchidos serão os trabalhos e os dias, catapulta no presente o sucesso venturo, os pormenores tecidos no caminho para o fito único de vencer: Vina meu estímulo. &lt;br /&gt;Ela aguarda a volta, como coisa da vida, conformada. Por decorrência aprendeu o bom de ter sumiços, malicia Gertrudes. &lt;br /&gt;Volta um dia com a Noiva. Linda mulher à altura dele gigantes, ricos ambos, somada crescerá inda mais a fortuna dos dois em moeda sonante e bens imóveis, prestígio na Junta Comercial por ele presidida, mais negócios à vista. &lt;br /&gt;Noiva toma-se de paixão por Vina, agarra-a no peito preme às bochechas mordisca, quero comer quero comer esta menina! Mas ele afasta-a por premeditado de não expor a menina ao comum da vida, Vina tão especial, no Arraial das Borboletas escondida do comezinho humano, se quiser vê-la, Noiva, nem é o Arraial tão longe que uma charrete não alcance ou no cômodo fiat conversível ao sol de abril é passeio a se não depreciar escreve Benedito Rui, compostas memórias. &lt;br /&gt;Seguidos anos em outros sítios oculta. E na reclusão toma forma o quanto latente prometia. &lt;br /&gt;Primeira vez aparecera ao público, para ela os suspiros molhados olhares presa nos peitos a brisa, Vina brisa das brisas, quiseram-na para sempre reter, Vina fugaz. Da vez primeira e, em outras tantas, Vina brisa leve soube dissipar-se para vívida reaparecer e, de pronto, no vapor do tempo voltear-se. &lt;br /&gt;Primeira vez aparecera ao público no casamento dele; e Vina dama de companhia, cauda e véu imenso cintilante das lentejoulas a linda Noiva, para ela menina os olhares da Noiva e convivas por fascínio voltaram-se. &lt;br /&gt;No entanto Borboleta arraial pequeno demais recursos de menos, nem serviria o vilarejo para as letras primeiras do grupo escolar quanto mais uma educação esmerada prover senão a Capital, metrópole a crescer sem parar, promove para a vida intensidades outras. Que crescer em Vina, latência promissora, ainda não encontrara a plenaforma. &lt;br /&gt;Metrópole de milemil modernidades sem licença entraria à força estivessem os olhos amplamente fechados. Gertrudes queria de volta o Arraial recuperado, belos pôr-do-sol refrescantes verdes límpidos regatos o pó da terra molhada de chuva, contrapostos a ruas de paralelepípedos, a gasogênio em chaminés de vehículos às centenas martinellis em vertiginosos andares o povo apressado mulheres de chapéu os homens ternos de gravata lojas iluminados risos de manequins solícitos tudo isso Vina gostou quando chegou mas a Estação da Luz jamais esqueceu, Vina desmesuradamente mais queria quanto olhasse e assim se passaram dez anos. &lt;br /&gt;A menina em crisálida cresce, mãos e cuidados dele gigante sem descanso, na Cidade cura prosperem os negócios e freqüente pelos trilhos vai à Capital visitar Vina, de vôo dirigível iria houvesse algum em rota comercial, riqueza consolidada compro aeroplano para idas e voltas Cidade trabalho Capital. &lt;br /&gt;Em casulo de seda, aurélia guardada dos maus tempos, revoluções passaram com voluntários em marcha e ouro pelo bem do estado, Vina guardada não viu, tiros ferem as paredes e o barulhão das balas os ouvidos dos pacíficos, Vina entre sedas não ouviu, passam anarquistas italianos embrulhadas bombas em jornais e grevistas dobram as ruas cruzados os paletós nos braços operários, Vina guardada entre sedas livrou-se dos estilhaços, os crimes acomodam nas malas as adúlteras em migas multiplicadas, aviões sobrevoam baixo as soltas bombas confirmam medo antigo de caírem os céus sobre cabeças, viu sequer ouviu em seda envolta Vina um dia retornará a Borboleta confinada ainda. Assim acreditou ele, assim acreditava eu, pensa Gertrudes, mas desenganei-me de que fosse boba a menina; e, boba que não sou, calo-me. &lt;br /&gt;Vina meu segredo encasulado; no entanto ele quer para a menina a admiração de todos os olhos em fascínio, completa Benedito Rui em seus rascunhos. Seria estrela de cinema, a vida reservados fragmentos ao público, não houvesse o som invadido as salas, primeiro a música a impor seu compasso para o ritmo da luz-em-acção e agora a fala a traduzir pensamentos por mentiras qual no real cotidiano coisa outra não fazem as pessoas mais se esconderem no simulacro de se revelarem, anota Benedito Rui em suas memórias destinadas a cinza comporem-se efêmeras. &lt;br /&gt;Ademais, acrescenta a malícia de Benedito Rui, Vina cresce bela a cada dia; ele pigmaleão, ao cabelo aprimora o corte aos passos no andar corrige a postura ao sorriso modula nos lábios a rima e Vina, carnalidade plástica e dom natural, por mais arranjos houvesse em cada gesto ou obliqüidade do olhar, ainda assim ninguém diria não ser a graça e o meneio reflexos de um íntimo de virginal pureza. &lt;br /&gt;Os dentes, corrigidos tártaro e mordedura ao formato de cada um branqueamento, manteve nas gengivas desenho de fino recorte e brilho rosa, a fenda entre os incisivos se era graça quando criança corrigida fez de seu sorriso de moça a perfeição de pérolas requerida pelo poeta. &lt;br /&gt;As orelhas, os lóbulos de maciez e recorte delicado não sentiram do cirurgião a leveza de suas mãos, entanto demais separadas e avantajado tamanho, qual ventanas também as asas do nariz, rearranjaram-se ao deslizar do bisturi; sequer uma cicatriz testemunhou não fosse a natureza mãe de acertos totais e falha nenhuma. &lt;br /&gt;A natação, os esportes em voga nem por isso menos corretores das falhas nos humanos prenhes, os ombros subiram e arredondados firmaram a altivez no porte assim como o dorso perdeu uma possível curvatura desigual. &lt;br /&gt;Professoras de postura, conduta à mesa. Como em nenhuma outra o salto sublinha o torneio da perna, a meia de seda ressalta a graça da pele, o chapéu emoldura a bela cabeleira. &lt;br /&gt;Na mudez não interveio. &lt;br /&gt;Adendos ao inato de seu próprio ser, as ofertas pródigas da indústria e arte pela modernidade conferidas encontraram no gigante do comércio feição natural a desenvolver-se. ASSIM, arrola Benedito Rui as qualidades dele quando ainda, carregado de admiração pelo vencedor, foge do estilo para tecer as loas no livro que pretendia biografia. Cada frase escrita, onde o elogio se estampa, anos mais tarde completará o significado com o matiz advindo da decepção: &lt;br /&gt;Desde moço o espírito empreendedor, numa sociedade de romanos o melhor é ser pagão que na arena cristão padecer entre feras, desculpai-me padre damiano, escreve benedito rui nas memórias não suas mas dele, conquanto não autorizadas pouco importa pois destinadas elas sim aos dentes das labaredas, desculpai-me mas prefiro ter funcionantes as garras. em roma, ser romano:&lt;br /&gt;É gigante na zona cerealista e tem do algodão o melhor preço na compra ainda melhor na venda. &lt;br /&gt;Não foi em vão penar os solavancos do lombo de mula. primeiros sucessos melhorou para um alazão. agora, quando mais abastado, ao volante do fiat tem motorista de óculos de vidros em amplos aros feito máscara quepe de lona azul a borboleta brancas luvas e botas, se o permitem as erosões da estrada não encravar nos buracos dos enxurros chuvosos, atravessa o sertão em busca do produtor da safra encalhada. &lt;br /&gt;Os cereais forram de seus armazéns o fundo falso e nos porões sob a porta alçapão, aguardam na carestia o lucro compensador. &lt;br /&gt;Livre tráfego nas docas. Empilha sacas em Santos, armazém à espera do mercado. Quando visita a menina, ilha de Santos praias de São Vicente a fria areia o sal do mar, e na Capital, os três: ele a Noiva e ela, abertas as portas do teatro dos cinemas descerram-se as cortinas das grandes telas exposto Male&amp;Female brilha, o ondular das plumas sugerem um farfalhar melodioso ao andar insinuante da Atriz Secundária, preferida do Pharaó, as mesas reservadas de elegantes restaurantes aguardam decisão entre caças e massas italianas ou viandas francesas de maturadas carnes; escondido delas desliza às joalherias e ao diamante no broche empalado quando não um colar de esmeraldas compra presente em gratidão por saber o quanto se apraz Olga com o precioso das pedras e para os discos de Raphael tem o sexto sentido na escolha dos carusos em discos veroton sem chiado e uma electrola é a novidade ainda não vitrina das Jóias Duque do comércio modesto da Cidade para onde volta contente com a vida abonada que se Deus lhe negasse ainda assim agarraria. &lt;br /&gt; Trespassadas com alfinete e juntadas ao original de Divas, folhas de almaço rasgadas e remendadas com tiras de papel e cola no verso, a lápis e rabiscadas, frases para sempre sepultos em borrões,  trechos sublinhados e comentários de aproveitar; nelas o seguinte texto: &lt;br /&gt;  Cidade, Arraial, Capital, por onde passa o seguem os murmúrios da admiração. Quer pelos elegantes gestos, ou o alinho das roupas, ainda a retidão de caráter, a pé ou de carro, foi um dos primeiros a adquirir a barata conversível, embora não despreze fazendeiro o puro sangue sonador, com o mesmo aprumo tratados o jaez das montarias a leveza do passo o brilho do pêlo balouçante da crina. Não mais distingue se Vina o impulsiona ou Vina de seu pulso nasce, prêmio ao mesmo tempo vitória. &lt;br /&gt;Se cresceu a menina, também a Cidade. Despida de suas vaidades, na força do progresso conquanto a modorra quem sabe o sol talvez a quente praça o coreto calmo a banda largado dobrado de fagote e flauta, a vida no diminutivo e superlativa saudade. &lt;br /&gt;Os Noctívagos, descrentes de um dia outra coisa acontecer senão a lua desnudar-se prata na tela negra do céu de mudas nuvens e os palitos decidirem o pagador das cervejas, ganha-lhes novo sabor a vida. &lt;br /&gt;Terça-feira, noite de sessão comum, do cinema em semana inaugural, a gigantesca tela contém a grandeza de Male&amp;Female, Female de corpo inteiro em berço de cachoeira fluente pelos recurvos do vestido justo a água prestes a delir sedas e pérolas e jóia rara a pele rósea brilham dos homens olhos diamantes, o melhor amigo da mulher, se loira preferem-nas embora carreguem as morenas ao altar. &lt;br /&gt;O gongo. &lt;br /&gt;Silêncio, do soprilho os sussurros, o perfume antecede e promete, a passos vinte-e-quatro quadros medidos por segundo o casal acende olhares e entre fogo caminha, ele em terno creme e ela rósea, na platéia os lugares reservados, círculo vazio à volta no centro Vina cercada por torrentes de paixões. &lt;br /&gt;De rosa pedras pelo vestido descolam-se dela desenhos de folhas e flores, dele os cabelos brancos brilhantina valentino repartidos a gravata em seda fina, o casal de braços dados arrasta-corações. &lt;br /&gt;O gongo, grave, a penumbra s’insinua e a cortina vermelha corre lenta a desnudar a tela, Vina cercada de sombras, a luz muda em teimoso facho a mover-se indócil na tela, nos olhos desabrigados as chamas agora cinzas de persistente rosa. &lt;br /&gt;O celulóide, riscado de tempo em branca tela negros arabescos brincam intrometidos nas cenas de maior emoção fazem-se flores de assimétricas pétalas, pulo brusco a scena muda de quando em vez, ocres pedaços de emendas no filme queimado, quem liga!, esperam acendam-se as luzes para a Diva em adoração contemplar, oh não! &lt;br /&gt;Antes do fim projetar-se esperança na tela, de braços Vina e Damastor são recolhido sonho fugace aguardando no escuro acender-se o facho, castos corações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 012 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão 07/10/2007 sobre a versão de 21/02/2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-1974874694360345459?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/1974874694360345459/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=1974874694360345459' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/1974874694360345459'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/1974874694360345459'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/012-vina-expressivo-olhar.html' title='012 &lt;strong&gt;Vina, expressivo olhar &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-6374489604320722807</id><published>2007-12-01T12:08:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T12:09:13.998-08:00</updated><title type='text'>014 No Sebo</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 014&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No Sebo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfileirados, nas seguidas prateleiras com seus nomes desbotados, jazem os livros à espera de serem, se não levados pela febre de leitores devotos, esquecidos a descobertos no mau tempo, carcomidos. As estantes estreitas e tortas, pesam os grossos volumes e neles a poeira assenta-se como reparo de retornarem ao pó os quantos vivos se proclamaram eternos um dia. &lt;br /&gt;Christiano, é fundo perdido o dinheiro nos sebos, sem rostral de capas rotas folhas amarelo quase-esfarela, traços de visita nos buracos as tíneas devoram analfabetas das letras, indiferentes às frases mais lindas gravuras as mais singulares engenharias, em seqüências de páginas constroem galerias bonitos de ver os vazios do saber; é fundo perdido os gastos em bobinas de filmes tanto devoram uma refeição ao dia e entre livros passeia Christiano quando não as casas de velha alvenaria pedem foco nos arabescos de suas telharias, nos frisos de suas cimalhas. &lt;br /&gt;Phothographo, a câmara poliphemo implante cravado no corpo, não à testa feito terceiro olho, é primeiro visor contudo, tão vital quanto respirar é sentir dos sais de prata urinitratos-quase o cheiro, quarto escuro de vermelho tinto e na bacia aos poucos sobressai-se o reboque de um muro o cão de uma calha no beiral de um telhado a virada de esquina o beco como saída e no ruído fundo vulto escuro do luar inverso os solitários clamam pelo punhal redentor, as gentes anônimas sempre nas photos inanimadas para o desconhecido vão ou para o desconhecido voltam, e Christiano afiadas lentes requer mais potentes sejam elas além de penetrar e captar o momento, quer viajem atrás no tempo desrefolhem as vidas passadas, Príncipes e Marquesas perdidos no leito entre as delícias do pecar ao trair redimidos por amar. E saber, por deceptivo, que os retratos retratam nada assim como a memória é o vago luzir de um ângulo escolhido e deformado pelas lentes d´alma. &lt;br /&gt;As lentes impotentes. &lt;br /&gt;Quem há de a vida fixar. Ávida de futuro ri-se ao célere passar. &lt;br /&gt;Nos sebos livros recheados de gravuras, sobras esquecidas das traças, em espaço amarelurina: o tempo marca-se nos estragos deixados, imperativo, mais um pouco e nem estrago sobra. &lt;br /&gt;O valor da photographia é o fato na photo nascido; da escrita o ato de escrever. &lt;br /&gt;Nos sebos os livros, pobres textos crédulos de fazerem, eles sim, os registros; haja poesia quando mortos os poetas restam os crânios vazios das febres com que um dia, insanos, tinham a certeza da verdade fixa. Nem poetas nem poesias, nem imperativas as lentes ou o sujo da caneta cheiro acre de tinta lembrando dos cadáveres a putrefactavicta. Lentes, focos oscilantes. &lt;br /&gt;Gravuras lindas inda assim distorcidas; o presente derruído, o passado célere a derribar futuros, memória do por vir sem se consumar. &lt;br /&gt;Resta andar, sem parar, aguarda Christiano ao final da madrugada, aurora, o sol em risos despontado, color-de-rosas o jardim do dia nascituro. &lt;br /&gt;Resta-me andar e procurar as marcas belas por entre as ruínas da cidade, cicatrizes tecidas nas hesitações do progresso, cidades sob cidades desconstruídas, sem parar. Sem parar. &lt;br /&gt;Aqui ali uma cornija de friso clássico e a data que situou o edifício na modernidade hoje atesta mais de século passado. &lt;br /&gt;Ladeiam as ruas avelhentadas casas, entre outras encerradas, opulentas outrora agora o portão enferrujado convida a deixar a esperança fora: &lt;br /&gt;A Marquesa no leito solitário da Consolação. &lt;br /&gt;Cidade eterna, mais que roma, dos ciprestes a prumo e as cruzes e os jazigos a paz enganadora pois inertes os corpos na morte afligem-se as almas dos vivos se por suas alamedas percorre o medo de não saber-se a hora última mesmo naqueles a pedirem antecipe Deus o sofrimento deste mundo fica interrogado o que no mundo além os espera. O medo renasce. &lt;br /&gt;Marquesa num quarto escuro sem frestas por janelas, quedos os rumores vizinhos num leito sem alvorada um corpo dorme para o medo da morte, quieto de sonhos, vazias órbitas dão mudo testemunho de que, ao longe, nos prédios por sobre os muros destacados, a vida febril destabocada e célere caminha para cá. &lt;br /&gt;Campo dos desencontros e equívocos, quantos, desenganados da vida suposta cornucópia, choraram em desespero seus mortos agora aguardam eles os que os choram mortos. &lt;br /&gt;Museu de vidas sem registros. A quantos o punhal rasgou doendo a carne hígida, a pólvora às entranhas sedenta queimou ardida, o veneno corroeu no sangue o brilho vítreo que corria. A quantos a própria vida em pacto com a morte traiçoeiras realizaram dos sonhos apenas os disfarçados pesadelos neles embutidos fragmentos. &lt;br /&gt;Christiano quis photographo registrar do passageiro da vida o que eternidade for; comprovante de serem suas laicas lentes impotentes para dominar do passado a presença constante no futuro lançado em frescor, entre nafta da luz escondida na gaveta amarela a photo, que também tem vida por si envelhecida, carcomida, esvanecida, morrida. &lt;br /&gt;Á frente o túmulo de Militão. Troca as lentes num rodar da objetiva, engatilha o foco e rouba a luz que sobre a laje pairava entristecida no cimento marcado dos rastros do tempo, quebradiços na lisura irregulares ranhuras tijolos desnudos entre eles a grama que se infiltra em persistência distraída, o vaso caído as flores de plástico a água derramada sobre o pó redesenha-se uróburos em riscos cabalísticos; uma após outra a esmo vai batendo as chapas que sabe, de antemão destinadas, como nadas, ao desprezo. &lt;br /&gt;Quem vem lá? &lt;br /&gt;Os amores da Marquesa, em algum lugar desta Cidade, em leitos solteiros dormem saciados da vida em noite eterna, jamais interrompida pela aurora de rosa vestida. &lt;br /&gt;Sair pelas ruas em determinado rumo à procura de os encontrar, da Marquesa os amores passageiros. &lt;br /&gt;Ficaram os amores e a vida passageira nos séculos passados, haja gaveta e nelas espaço, os repletos baús, quão longe estarão pois tão perto ainda minha cansada vida em apenas uns anos vivida tantos fragmentos perdi; não há photogravar ou memóriapinçar senão que os fatos esparsos, trocados personagens dos dramas sempre iguais. &lt;br /&gt;Quem vem lá: Um alfaiate cercado de música e solidão pontuada por sua machina a cantar na costura os diversos fatos; se acredita nas vidas passadas sem nunca ter vivido outra que não as remotas pretendidas, sobre a mesa branca da memória a agulha perpassa a linha; Christiano batiza-o Raphael, e dele vale-se para os romances contar, retalhos cerzidos. &lt;br /&gt;Quem vem lá: Um frade de esgarçada batina empoeiradas sandálias, o cordão fieira de nós o rosário da cintura pensos, parece de longínquas datas egresso o tempo sem mistérios para os olhos que viram dos fatos os relevos e das emoções as tessituras, monge de alquímicas sabedorias percorre os séculos para redimir n´alma os pecados supostos. Ao frade desconhecido Christiano batiza Fra Lopo e pretende com ele pelos séculos perambular em repassados passos, sem rumo a construir a Imperial Cidade e delas os romances. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 014 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;Data versão de 21/10/2007 sobre a versão de 03/12/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-6374489604320722807?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/6374489604320722807/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=6374489604320722807' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6374489604320722807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6374489604320722807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/014-no-sebo.html' title='014 &lt;strong&gt;No Sebo&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-5517951383853811240</id><published>2007-12-01T12:06:00.001-08:00</published><updated>2007-12-01T12:06:38.116-08:00</updated><title type='text'>016 Ama</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 016&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ama&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se chamassem Gertrudes, Julieta viria. A contragosto, viria. Meu nome prefiro Julieta, nem dessegredo do batismo o verdadeiro para não incitar humilhações dos contrários. É Julieta florido leve brisa perfumadas juventudes, lembra graça no andar meneado em risos, coração contidos romances de trágicos amores. Nada disso contém Gertrudes, fadiga e fardo, nome dado por Benedito Rui autor ao graphitar rascunhos sobre ela. Talhados rascunhos minudentes despedaços dedica-se escritor ao texto, almaços de página inteira, com sabor de obra-prima pela qual gostaria de ser lembrado. Não fosse Flaubert fazer-lhe sombras com o coração simples de Felicité, nascida e morrida empregada em Três Contos. Adoraria, Benedito, dizer Flaubert c’est moi; não pôde e Gertrudes recém-nada foi para o balde de zinco postado como lixeira para seus escritos. Ciosamente a Mãe recolhe o almaço, lido gosta e guarda. Leitora única, tão bem engavetou o texto sobre Gertrudes, que nele ninguém tocou dele não se fez leitura e no esquecimento amarelou; fosse Benedito autor desse Único Conto ninguém dele se lembraria; se alguém se lembrou. &lt;br /&gt;Nem de Gertrudes, vida dedicada a Vina, ela sim menina de olhos violeta, perfeita julieta das primaveras frescor de brisa sorrisos, amores nenhuns, e os meneios graça de gestos postura leve das mãos encanto silente, assim dos lábios sem som fluem imagens advindas nos sopros do sorrir, sonatina de delicados acordes, suave harmonia ricas tessituras singela melodia. &lt;br /&gt;Muda não surda, Vina, animados encantos gentis movimentos, perscruta nas falas espontâneas na irresolução das pausas nos descuidados gestos das gentes manar dos corpos o calado profundo, para além das falas os contraditos desopressos escuta. Dos humilhados e ofendidos sabe as necessidades no cascão do orgulho incrustadas, Vina, muda não fosse ainda assim, cala-se. Mas supre. &lt;br /&gt;Gertrudes, sob constante sonda dos agudos olhos de Vina, mantém segredo nenhum, transparente sente-se. Contudo, quanto pode, oculta ser Gertrudes contida Julieta. &lt;br /&gt;Se por dentro Julieta às voltas inteiras dos ponteiros na dança das horas é, nas horas vagas põe-se Gertrudes de travestida Julieta ao espelho de corpo inteiro. E vagam os ponteiros nas ausências de Vina, misteriosas ausências de quem até então conhecia inclusive as divagações de pensamento, assim presumido. &lt;br /&gt;Vina desaparece no silêncio e, repetidas vezes, recolhe-se em seus aposentos horas inteiras, dias quando não semanas. Gertrudes sabe o perigo de incomodá-la. Vertem serpentinas chispas as verticais pupilas, rubor na face lábios de ira, melhor morrera que desamada quem ama sem fronteira. Então aproveita, quando Vina se tranca, abre Gertrudes as portas da liberdade para ser Julieta. &lt;br /&gt;No espelho. Frontal. Despida Gertrudes recompõe-se Julieta. &lt;br /&gt;Desde Vina criança gostava a Ama de usar, escondida, os adereços da menina. Contentava-se com as fitas de cabelo entrelaçar aos seus, cós de cintura feito lenço no pescoço acocha, colar faz de conta ser pulseira enrola, anel do indicador só no mindinho cabe. &lt;br /&gt;Gertrudes vira Julieta revirada Vina. &lt;br /&gt;No espelho. Mira-se Gertrudes Julieta refletida Vina pretendida . &lt;br /&gt;Hoje Vina corpo de mulher, servem no corpo as roupas com reparos de improviso, ajustados busto e cintura no gancho de alfinetes, Julieta roda a saia sem a graça com que se mira. Os sapatos segredam-lhe ser de cinderela a desajustada irmã, mas tão lindos saltos dão-lhe a sonhada altura, esquecidas dobras no calcanhar. &lt;br /&gt;Afinadas convivências, Gertrudes sabe quais dias da semana tranca-se Vina por mais tempo em seu apartamento recolhida. Geralmente quintas entra noite pela madrugada na sexta não vê o sol das manhãs quiçá das tardes. Após o banho de demorada imersão, ressurge Malvina amante da vida no frescor desenvolto dos gestos, nada quebra o silêncio selado pelo lindo sorriso. &lt;br /&gt;A rotina altera quando da Cidade chega o patrão Damastor à Capital, a Senhôra de braços, mala de presentes, certeza de passeios. Se viajam a São Vicente para banhos em Chora-Menino, na Capital Gertrudes fica Julieta ao espelho ou de gabardina de lã saia e casaco justos de apertada cintura luva de renda descalças nas mãos de grosseiros e menores dedos colbaque na cabeça, Julieta passeia demorado pelo Arouche ou Barão, vai ao Municipal e não entra, percorre nas Casas Americanas os departamentos experimenta calçados chapéus e sonda nos perfumes a fragrância para a melhor hora do dia e nada compra, porém mostra-se senhora de fino-gosto preciosa origem e bom-trato. Sonha passear no Triângulo, não fosse tão longe e o bonde, democráticos assentos, impõe-lhe operários por companhia. &lt;br /&gt;Fora isso Vina pouco muda. Exceto uma vez, segunda de manhã, ficou recolhida e por três meses mais freqüente no apartamento conjugado trancava-se quando uma carta deixou por baixo da porta da parede-meia, e nela disse escrito que viajaria por três dias instando segredo e, lidas estas linhas rasgue empós; ao voltar nenhuma pergunta admitirei, caso de vida ou morte, de tua morte Gertrudes!; portanto, caluda!. &lt;br /&gt;Esbaldou-se em ser Julieta. E o Triângulo receberia suas vistas, iria a pé de braço com a felicidade. &lt;br /&gt;Foi, na casa, patroa dela mesma e sentiu na pele a ruindade em pessoa. Nunca limpou com tal esmero, o escovão no assoalho encerado brilho de apelo comercial. As panelas, fulgor de alumínio conseguido com areia de rio. Lençóis lavados a mão, perfumados estendidos na cama vazia de Vina, pensou que jamais fora mãe e, se algo acontecesse à sua menina a morte não lhe daria o descanso merecido para quem viveu tanta faina. Onde andará!, proibida de falar pedir ajuda, aguarda esgotem-se os três dias; lava passa esfrega brilha, não cozinha pois não come e, água, em goles descidos com dor contricta garganta. &lt;br /&gt;Para compensar as tardes corriam lentas na Dulce Confeitarias, chocolate no ar açúcar em cristais, o violino derrete-se em romances, lugar onde uma senhora desacompanhada não é mal-vista e o broche de pedras confirma boa procedência. Não lastima o desacompanhada, desde não serem os homens príncipes a fazerem da companhia um ameno divertimento. Jamais ser mãe. Inda fosse de Vina não teria tolerado, passiva a um homem submetida, a indecente posição a ferir o decoro de uma mulher, pórtico aberto para a brutalidade masculina, fardo e fôlego, a fazerem de um corpo delicado a seara para sementeiras de cheiro duvidoso. Damastor, quem sabe nos braços dele quebraria o rigor de minhas carnes. Ele, entanto, mal vê quem não seja Vina. Sua virgínia, aurélia em casulo de seda, solta borboleta quanto menos dela suspeita seu protetor. &lt;br /&gt;Vina ficara fora um dia a mais. Tanta dor arruinou-se em ódio. Suspeita não ser muda a menina; o traço que se descrido inutilizaria nela a honestidade. &lt;br /&gt;Assombram-na os pensamentos vindos a pouco e pouco, mal feche os olhos na tela escura estouram fachos de luz e toma forma por conta própria o enredo narrativo; sucessão de eventos remetem a uma Vina heroína do amor reviço no tédio cura para a sensaboria da rotina, Vina de múltiplas vidas, enfermeira da cruz vermelha, bailarina em casas de baixa moral sítio lamacento de desajustados, cortesã de alto luxo explora nos ricos a avidez pela carne, grãa fina da nata social de elegantes cigarreiras em cujo cristal as carreiras de cocaína concedem sonho e energia na aspiração gulosa por novas fronteiras, e o éter na vertigem da cidade entre tangos e mentiras o fascínio dos perigos; mulher caridosa a percorrer as ruas nas frias madrugadas munida de cobertores e sopa socorro dos desabrigos, florista de bela voz a explorar a ingenuidade de vadios, amiga de anarquistas a lançar bombas caseiras ameaça a pacacidade de cidadãos bem-postos, oradora em praça pública por ombrear homens e mulheres; Vina, entre luzes e sombras muda na face as exigências do papel; e a persona cria-lhe superposta nova alma. Gertrudes passiva contempla com emoção desmedida a força do desenrolar dos episódios. &lt;br /&gt;Tenho certeza, diz alto para o espelho despindo o chapéu em alfinete preso e a blusa, Malvina fala!: &lt;br /&gt;Finge-se muda para prender Damastor em aranhol de finos fios, para o nós ela é império do recato; embora e muito! nos meandros da cidade não é distinta entre os anônimos de encoberta leviandade. &lt;br /&gt;Presumo. &lt;br /&gt;Calo-me. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 016 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;Versão 10/10/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão de 29/09/2007 sobre a versão de 01/07/2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-5517951383853811240?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/5517951383853811240/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=5517951383853811240' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5517951383853811240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5517951383853811240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/016-ama.html' title='016 &lt;strong&gt;Ama&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-396412754002807606</id><published>2007-12-01T12:04:00.001-08:00</published><updated>2007-12-01T12:04:37.765-08:00</updated><title type='text'>017 A Batina </title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 017&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Batina &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desabotoada a batina do colarinho ao saio, exposto o peito mulato ao sol e brisa, barco sem rumo meu corpo num rio voga à deriva minh’alma enseja renascer, no entanto o bem estar cede e a luz, cendrada se tanto como em sonho sói, clausura faz-se repente breu. &lt;br /&gt;Voz clerical do alto púlpito côa-se pela nave e abóbada: &lt;br /&gt;em dimensões outras, reinos etéreos de luz, vigem lucífluos desencarnados homens. Livres dos pesados corpos gozam da bem-aventurança. &lt;br /&gt;Filosofam as luzes com sabedoria: &lt;br /&gt;todos nasceremos um dia. &lt;br /&gt;Ao arrepio lucilante dos mais medrosos, tranqüilizam-nos os Lúcidos Espíritos de Límpidas Auras: &lt;br /&gt;mas, purgatório dos passados, &lt;br /&gt;a vida &lt;br /&gt;não é eterna; &lt;br /&gt;logo, &lt;br /&gt;retornamos &lt;br /&gt;expiados males &lt;br /&gt;das dissipações contraídas &lt;br /&gt;quando matéria inferior. &lt;br /&gt;Damiano acorda num pesadelo. O quarto não era o mesmo requintado onde padre secular mora mas franciscana cela, de braços crucifixos pende mortalha escrito Ação em góticas maiúsculas de vermelho vivo. Navalhas despedem-se do Christo contra sua barba e aos gritos de Amandio, gritos vívidos num recanto esmaecido do sonho, desperta de vez do pesadelo resta o amarescente das indigestas sensações. &lt;br /&gt;Volgo num rio quando num rio se voga. Feito quisto a frase crucia-lhe o dia desde a missa celebrada às pressas. &lt;br /&gt;Céu ou Inferno, a Deus compete a decisão após a morte. Contanto, vivo no inferno! &lt;br /&gt;Jejua, não por sacrifício sequer por renegada a gula: tomado de fastio; com certeza morrerei em pecado; conquanto não se dê à luxúria, os seis pecados capitais restantes avantajam rasos no inteiro da alma. &lt;br /&gt;Confessor que não sabe perdoar sem ira, conseqüente sofre o rigor no julgamento de seus próprio atos, tolhidos passos pela ameaça constante da sentença estremada, acometido pela dor que desponta nele ao notar quão livres correm os homens em busca de tesouros terrenos. Vir Dives, em particular Damastor parece ter riqueza emanada do céu, a vida plena de conforto goza do amor compraz-se no respeito de todos. A mim cabem-me os deveres cumpridos no hábito programado. Cumpro? Minto! ninguém tem balança fiel dos próprios atos, ou possui o metro confiável de seus próprios valore: a mentira é a unidade de medida. &lt;br /&gt;A Boa Vista é bairro numa colina vis-a-vis à Cidade. Pela segunda vez vem à alfaiataria; por trás da porta verde, se encontrará Damastor, também ali Rapahel se encontra. E Olga. E vida nova. Num inferno vívido. &lt;br /&gt;Rapahel alfaiate acredita ressuscitar o espírito em nova carne nova vida e prega a boa ação. A dor será tirada pela ação, vocaliza de pronto Raphael. &lt;br /&gt;Oração, eis o pão das almas; sussurra padre Damiano em contraponto, as postas mãos. &lt;br /&gt;A singer costura ao som dos guizos de suas correntes. &lt;br /&gt;: Falar em caridade de espírito é fazer tinir um moedeiro falso de avaros moedeiros, palavras dadas a quem tem fome, senhor padre. &lt;br /&gt;: Não só do pão vive o homem, digo, quem dá aos pobres empresta a Deus; é falácia transformar em investimento econômico um preceito sábio. &lt;br /&gt;Nessum Dorma, diz baixo cantante Raphael agravada voz; vencerei, vencerei! parece dizer. Encerra com triunfal marcha os calcados pedais roleiras correntes sibilante agulha a furar o pano e Olga surge no umbral, Celeste Linda.&lt;br /&gt;Num rio voga-se. O sonho vem à lembrança de Damiano; aguarda pesadelos. &lt;br /&gt;Volga rio ruço &lt;br /&gt;das almas mortas &lt;br /&gt;aos pedaços &lt;br /&gt;sombras fortuitas &lt;br /&gt;flutuam feito glomos pardos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padeço nos minutos a eternidade. &lt;br /&gt;onde o rio do esquecimento, é pergunta calada no peito. &lt;br /&gt;Tremem pernas, especa o corpo no espaldar da cadeira, não só, arrepios no coração e não só, os olhos verdes de Olga jamais desceriam para mim como os meus glissando atrevidos pelo decote, cintura e abaixo, DeusmeuDeus!, navego desatrelado no rio do sonho meu, inferno meu, a barcaça alcança da luxúria o ameaço, o rio de sangue do cordeiro Amandio, irmão de minha ruína. &lt;br /&gt;Se de Raphael nada cobiçei, Olga dos olhos verdes, por ela acrescento a cobiça ao capital dos pecados meus. &lt;br /&gt;Atrás de Olga surge Damastor, os suspensórios caídos nas laterais; e diz com voz vinda de além do sono: nada sublime obsessão tolda-lhe o espírito, parece-me senhor padre. &lt;br /&gt;Ombreia-se com Damastor, até então o ciúme pecado vivido nos relatos filtrados pela treliça das confissões. &lt;br /&gt;A voz articulada num bocejo, filho mais da elação que pelo sono provocado, tanto agigantado se encontra, Damastor sem piedade: um passe de Olga eu indicaria ao senhor Damiano padre, o poder catártico de suas lindas mãos transcende das religiões o discurso das meras disputas. &lt;br /&gt;Alfinetes na boca, crescendo fortíssimo estileteia Raphael, olhos enviesados para Olga, pombos ambos de recente esponsal: a imposição das mãos de um padre, com poderes de desligar e religar terra e céu, pouca valia às mãos de Olga ele deve atribuir. &lt;br /&gt;As mãos de Olga sobre a tonsura jamais pensara, seja como bênçao por contrário à própria fé seja como toque de pluma em licenciosos gestos, das mãos de Olga adivinha-lhes o calor a percorrerem seu corpo casto. Figuras colorem agitadas os pensamentos partidos, rápidos férvidos caleidoscópios, incitam-no indisciplinados juntar-se à lúbrica mulher. &lt;br /&gt;Amandio, doce Amandio, quando me perdi? Inocência de meninos, medroso dos trovões, era minha cama o ninho de sua coragem, o corpo colado ao meu sacudia-se no barulhão da tempestade. Amandio das perguntas tolas, inventor de teorias gêmeas do absurdo, irritante quanto crédulo temia os fatos na mesma facilidade de criá-los e, logo mais, feliz com as soluções nascidas no nada. Obediente quanto eu turrão. Queria ser cantor não popular de rádio mas no palco óperas recheio de dramas revestidos de enfeites, pilotar aeroplanos negando o medo de altura impedir subisse em árvores: quanto quis que ele morresse e um dia obediente morreu: &lt;br /&gt;padeço nos minutos a eternidade. &lt;br /&gt;Etiam tum, etiam tunc Amandio, se preferido de nossa mãe, eu o escolhido de realizar no sacerdócio o quanto devota era da Virgem. De menino eu fazia alarde de minha vocação, e o brilho nos olhos momentâneo embora obscurecia à volta o encanto doce de Amandio; assim em meus empenhos a sonhada carreira na Igreja, quem sabe no fundo acreditava-me papa e morto santo quiçá. &lt;br /&gt;Amandio santo por certo, fossem outras as condições de sua morte. A bondade de Deus reside em atenuar nas conseqüências o mal na origem de nossos atos: morreu Aparecida Preto e não sofreu o impacto dos filhos, nós, serem no futuro o pesadelo tornado dos amenos sonhos no seio gerados. &lt;br /&gt;Os pensamentos de Damiano enquistam-se agora nos verdes olhos de Olga. Percorrem feito dedos anéis de seus cabelos, feito luvas curvas do colo, feito boca úmidas cerejas entreabertos lábios de sorrir ao mundo, rir de mim? Quanto exprobrou Amandio por querer a cura contra tormentos, de ouvir Olga receber dos mortos luminosas mensagens, espírita falar a espíritos, poderosa e bela, saber notícias da mãe, declarar saudades e breve retorne na rica natureza em flores encarnada água de fonte remanso de rio efêmeras aurélias ou revê-la se Deus quiser o menos tardar em dimensões filtradas de todo mal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padeço nos minutos a eternidade. &lt;br /&gt;quero a pax de seu regaço &lt;br /&gt;eflúvios &lt;br /&gt;Expes. &lt;br /&gt;Non modo Amandio sed etiam Peixoto queria das mãos de Olga a salvação para os males do atordôo. &lt;br /&gt;Peixoto, a pacatez do dia no porão, a distribuir entre cadarços de anafaia as scenas das fitas para breve estréia; efundida noite no cubículo de projeção jorro num salto de luz, vidas em branco e preto, alimento das emoções. Compraz-se Peixoto nesta vida de passamanes, passafilmes, confinados limites. &lt;br /&gt;Nestas reticências Amandio risca um travessão. Presenta-lhe Raphael, desde então a vida pacata não mais. &lt;br /&gt;Amandio doce Amandio barbeiro navalha em punho espuma na tigela, Peixoto meticuloso Peixoto no porão do cinetheatro as photos silenciosas dos filmes metros mil de sonhos sem fim, Raphael aprendiz alfaiate tem no acorde musical o elo universal. Vai casar, se precisa de dinheiro Peixoto de pianista o bondoso Amandio é núncio dos interesses comuns e, de Damiano, núncio do amor de perdição. &lt;br /&gt;Non modo Amandio sed etiam Peixoto sofria no opróbrio de aceras críticas a cotio lançadas. Vociferante Damiano, não só nas treliças do confiteor, é púlpito a cadeira de Amandio barbeiro navalha em punho espuma na tigela, nave o porão do cinetheatro Peixoto ouve e distribui no cartaz dos filmes silencioso as photos em meticuloso limite. Aqui ali Damiano não se cansa de exorcizar das almas o demônio incubado. Almas gentis não sabem do assédio do mal, desamparadas. Não sabia Damiano então, agora é tarde! Atrás dos desavisados, perdeu-se Damiano. O mal de viés, na trilha da salvação veio, grasso ficou. &lt;br /&gt;Não se casou a música de Raphael solta no ar com as imagens de Peixoto nos limites da tela; mas uma amizade firmou-se e, para desespero de Damiano Peixoto, católico praticante, a cada vez lança-se na dança dos espíritos abençoados; e descrê no tártaro castigo quanto anseia purgar no palco da vida o imperfeito de sua alma renascida. &lt;br /&gt;Me misererum, perdidissumus sum. &lt;br /&gt;O casamento de Olga, não soube se sol ou chuva temperou a tarde, dia de cama pespegada gripe de coriza intensa ardente a testa lavado em febre pegajoso suor, acreditava ainda assim não ter ido às bodas por ressentido com os franciscanos da Boa Vista ministrarem casamento a espíritas, no altar conhecida benzedeira de mesa branca Joanna dos Anjos mãe de Raphael, mas recorda-se, em seu quarto entrava a noiva de branco esvoaçado véu a cauda em leque bordados em madrepérolas mil olhos sobre ele e os de Olga verdes pudicos de virgem reverente ao chão baixavam-se, assim foi o dia tarde e noite de sobressaltos, recorda-se e hoje sabe, era o encanto que pelas bordas lhe comia a alma e, se pecava em pensamento? do turvo fez-se um claro impossível de negar, hoje soube. &lt;br /&gt;Resta a Damiano aconselhar-se com o Senhor Bispo: a cabeça repousando nas palmas das mãos idosas, o cheiro de castidade tocado do suave vinho consagrado. &lt;br /&gt;A portas fechadas do Palácio, o amplo salão depois dele o gabinete fechada a porta da cela, reverente pede a D. Libânio ouvi-lo em confissão. E tem na alma do Bispo a bondade abrigo que jamais abriu a seus penitentes. &lt;br /&gt;: Deus, disse ele, é o Perfeito Matemático operador das equações intrincadas dos sentimentos, deles tudo sabe. Se nossa vista simplifica cansada com o sinal de igual os movimentos díspares, para Ele o simples é teia multiplicados nós, como se desenham entre a folhagem aranhados fios nas manhãs orvalhadas pela tecelã percorridos e, não se perde ela no meio deles, nem Ele se confunde, Senhor dos Caminhos. Assim, amar não é pecado; se é amor, como nomeamos simplesmente, o que de intrincado o amante sente. &lt;br /&gt;Mas a Igreja tem suas leis e, Deus Infinita Sabedoria dá o arbítrio livre ao homem para que ele possa, preso às leis de seus iguais, se transgressor, pecar. Assim, filho de minha Diocese, o senhor pode amar uma mulher, mas não unir-se a ela marital, sequer receber de suas mãos as bênçãos, prerrogativa da Madre Igreja. Esse escândalo meu coração não aceita; dolorido por proibi-lo, dolorido se desobedecido. &lt;br /&gt;Um bom filho, se pelo intenso da vida alicilente a brilhar exausto do calor do século aborrecido, pródigo um dia à casa torna. Maria boa mãe, coração de perdão. Vai, dobra os joelhos na igreja devota a ela Aparecida pescadora de fiéis, peça um tempo de repouso em seu manto abarcador. &lt;br /&gt;Tenho eu também no senhor um bom filho: reservo-lhe ser cônego em minha catedral; e desde já assim o considero. Não seja por regalias sua batina mantida: antes que no escândalo se abrase, então renuncie. Filho meu será, quer clérigo seja ou leigo. &lt;br /&gt;Dá-lhe o anel a beijar. &lt;br /&gt;Ao longe na avenida um frade franciscano vai protegido por preto guarda-sol aberto no azul do meio-dia; que se abrasador o tempo qual agora ou quanto a chuva tardar, não lhe caia o céu sobre a cabeça. Coroinhas em bando correm a seu lado, os risos de alegria solta &lt;br /&gt;exista neles a felicidade, dói&lt;br /&gt;os grampos no peito cravados &lt;br /&gt;longe vai minha ingenuidade &lt;br /&gt;e os bens que ela presenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A batina ao vento, os indecisos passos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 017 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Data 17092007 baseado na versão de 22022005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-396412754002807606?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/396412754002807606/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=396412754002807606' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/396412754002807606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/396412754002807606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/017-batina.html' title='017 &lt;strong&gt;A Batina &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-223615509600183219</id><published>2007-12-01T12:02:00.001-08:00</published><updated>2007-12-01T12:02:42.358-08:00</updated><title type='text'>019 Frui Raul entretítulo Laslos</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 019&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Frui Raul entretítulo Laslos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juvenal inverso do sol. &lt;br /&gt;Laslos, dele falou Olga ter roubado do sol cremosas cores das primeiras horas, do dourado da aurora apurados excessos, os remanescentes na pele fixos deixam ínvidos os olhos tanto queriam as pupilas ter o dom do tato; a luz dá promessas e nega delícias. &lt;br /&gt;Antes de ter assim apetitosa a pele para gulosos olhos Raul da vida simples fruía o amor da mulher e os seguidos filhos, o futuro assentado em presente trabalho. Quem o levou até Raphael, hoje na alfaiataria estabelecido entre cortes de pano e elevada música, foi o violino. Raul, amante dos arcos sonoras cordas, do violino aprendiz sem grandes virtudes, o som por mais belo fosse ao próprio ouvido, no alheio repercutia ruidada desarmonia. As gravações, importados virtuoses, na alfaiataria em alto-falantes de fiel ressonância enchia o pequeno cômodo e na calçada o sequioso ouvido de Raul seguiu os acordes sonantes do Ravel da Tziganie Rapsodie. Entrado, deixa fora a vida simples do dia-a-dia fruir. &lt;br /&gt;Novo horizonte de brilhante raiar, comistos ouro e carmim, os olhos de Olga ousaram verdes à porta mesmo instante os dele, envolto pelas cordas de delicados sons, nela pousam encarnada música. &lt;br /&gt;No portão esperavam-no os filhos, a mulher escondida a meio no batente brilhavam os ardores de revê-lo e, se não saia ao encontro, era por não ser digno mostrar-se casada que era aos olhos da vizinhança. Amor incondicional, conhecida como Mulher do Raul, não tinham empregada tanto era fácil o serviço caseiro por ajudá-la na dança das horas os passos em prestos compassos a espera do marido, já no Ângelus, de banho tomado perfumada as crianças limpas as mãos e o sabonete na pele de cremoso dourado exalavam da glicerina e alfazema a limpeza que o pai abraçava e beijava; hoje não! &lt;br /&gt;De pronto fecha-se no quarto, o arco tendido em cordas afinadas desliza mas o som, o som, raspa de metais acordes encobertos ruídos de melodias quando na partitura é doce a harmonia, o som dos pensamentos raspas do passado pelo presente assombrado, quão pouco estudei do muito que pretendia ser concertista na volta ao mundo brilhar em palcos de consagrada música da gente selecta na platéia culta, essa mulher dos olhos fundos nos meus a revirar-me e eu, e eu!, quão pouco alcancei em minha vida truncada por um amor apressado, ser jovem aberto para conquistas equipado e, mais rápida soma que acertada a matemática, afoito coração num momento de enlevo enredo-me e tudo larguei para afundar-me na mediocridade de ser feliz. &lt;br /&gt;E era belo Raul entre os que vigorosos gozavam a plena juventude dos sentidos. De todos quem mais cedo conheceu as mulheres, queriam as mulheres conhecê-lo de suas mãos receber agrados guardar dentro delas os licores do amor quanto mais cedo!, recônditos sonhos dele conceber; e sob o quente luar vagavam Noctívagos amigos pelas ruas empoeiradas dos bairros afastados, as luzes do meretrício feito feitiço a piscar azul magenta violeta verde os nomes Índia Marina Zíngara Cleuza padroeiras, e proibido fosse ao de menoridade nas paróquias do prazer entrar, davam um jeito as filhas da noite de madrugada finda terminar o comércio do amor sendo mestras venusianas para Raul imberbe, imagem de cupido nos caracóis dos cabelos corpo núbil de salientes intenções, adormecer nos braços de uma quando não outra o roubava aluno no gozo de ensinar. Chamavam-no meu filho; e ele cara de bravo era assim para elas mais neném querido, cansadas dos homens brutos escorregavam notas de cem em seus bolsos que calavam a origem, tanto anônimo é o dinheiro quanto mercúrio reparte-se e rejunta-se descarado ao passar de mão em mão. &lt;br /&gt;Cansou-se um dia. E parou. &lt;br /&gt;Também o gimnásio; do diurno para o noturno, depois mais nada. Música em contraponto no compor dos pensamentos: áridas matérias enfadonhos professores, quanto posam de sábios vão aquém das aulas decoradas do dia: fora melhor aluno e, para sua mãe, era um gênio a tornar-se um dia doutor em leis; falta-lhe um pouco de paciência próprio da idade e alguma aplicação. &lt;br /&gt;Se manda que à mãe Cale a boca! é por costume. &lt;br /&gt;Calada, completam-se pensamentos na mãe: Gênio difícil. &lt;br /&gt;No violino repassava antigas lições, os mesmos solfejos, de conhecidas sonatas os primeiros movimentos. Não encontra um professor à altura, comenta desconsolada. &lt;br /&gt;Fecha a boca. Cala as besteiras. Pura asneira. &lt;br /&gt;Aprendeu com o pai. &lt;br /&gt;Contudo, não era grosseiro o senhor Laslos. O dia na sapataria, ocupavam-no retoques de meia-sola, aprumos de saltinhos, raros sob medida ponto-por-ponto cosia para fregueses menos exigentes; conserto do couro por remendos brilho e graxa; quem olhasse não diria, ao desvestir o avental de couro, tão limpas as mãos e as roupas em esmero cuidadas pela mulher, ser ele sapateiro. Nem diria acometessem-no o morbus comicialis. &lt;br /&gt;Por comemorativos: os sinais apresentados, mal estar matutino, alegria repentina de ser o mundo maravilhoso dom de Deus para contemplação dos homens, lembranças fortuitas de cenas e certeza de certas frases em seqüência pronunciadas agora antes com clareza já ouvira, e um perfume celestial a envolver o ambiente: neste dia não sairia de casa, não ficava sozinho, todos atentos ao grito repentino a seguir-se de queda não o segurassem, e convulsão protegida a língua. A dor de cabeça e esquecimento dava continuidade ao dia; e o alívio de mais um mês sem surpresas. Por respeito à dor do pai o violino permanecerá na caixa no decorrer triste das horas, o raiar de nova manhã. &lt;br /&gt;Redobrados estudos, então: serei concertista dos sons celestiais; do pai quer o amor, apenas. &lt;br /&gt;A sedução pela noite, andar vagando pelas ruas escuras entre raros postes o luar quase apagado na lentidão das nuvens, nos bairros afastados, atraem-no o silêncio dos quintais desertos o despovoado das horas mortas, assim um fundo musical a ordena-lhe os passos, de memória a partitura à qual os dedos não obedecem nas complicadas seqüências. Feliz diminui o andamento para saber da vida intensa na inércia aparente, para melhor gozar da noite o perfume pimenta do calor que sobe da terra e beija as plantas. &lt;br /&gt;Morrer sem antes provar da vida o sabor intenso, nunca numa noite assim, diria o poeta. De uma casa de luz mortiça do fim da rua vem música seguida dos estalidos do rádio, vulgar estorvo para a linda melodia e complexa harmonia que trazia em mente. Embora de pouca monta, é vida em variações da emoção. A casa e sua luz amarelam ao longe. Não sabia ainda, mora ali a moça com quem se casou. &lt;br /&gt;Conheceu-a de dia, normalista de volta das aulas. E a namorava à noite no portão. Ela provou com ele o gosto do beijo, e sentiu o prazer de, a pouco e pouco, romper-se num abraço apertado a resistência de tornar-se mulher. &lt;br /&gt;Grávida casaram-se. E os seguidos filhos mostraram para Raul que a beleza da vida era o lar, o valor do trabalho, o ganho parco mas a rotina segura de voltar para casa na saudação do Ângelus e o sorriso das crianças, a virtuosa mulher pelo batente encoberta. &lt;br /&gt;Ela, sequer saia de casa desacompanhada, na rua mesmo com ele a cabeça mantida baixa, por ser a mulher do Raul. No começo estranhara, mas acabou acostumada com o Cala a Boca, ser dos homens na família a última palavra, por costume, assentara a sogra. &lt;br /&gt;Ter rádio em casa deseducaria das recônditas harmonias o ouvido das crianças no repertório popular, tornadas alvo fácil do reclame comercial. Assim, ela canta velhas melodias enquanto lava passa cose e cozinha, enquanto ele não chega e as crianças estão na escola, tangos e modinhas de solteira, a solta voz e algumas lágrimas. &lt;br /&gt;Ópera na venda do Abel, da meia dúzia presente três ouvintes encostados no cheiro da válvula do rádio, as vozes sumidas na eletrostática quando não a orquestra em dramáticos uníssonos encobria do dueto o pianíssimo ou o som desaparecia no ar quão misterioso até ali chegara: único dia a se ausentar e, na volta com hálito de cerveja, o disfarçado mau humor. &lt;br /&gt;As crianças dormem cedo; e todas as noites o ranger da cama e abafados gemidos, provas de amor e certeza de não necessitar amantes quem pelo marido faz-se bem servida, tantas mulheres conheceu na bohêmia da juventude com afrontes ao casamento, juventude que se não vai longe relegada ao esquecimento volta, delével, sem saudades; mas guarda no corpo, aprendido das profissionais por amor em graça que sem dele nada cobrar ensinaram-lhe, as sutilezas requeridas pela delicadeza feminina no ministério do prazer. &lt;br /&gt;Hoje foi o amor malfeito, tantas voltas dava o pensamento longe do corpo, os gestos mecânicos os beijos ressequidos e, se a música ao violino comandava os movimentos, era em Olga os abraços de olhos fechados que em sua mulher fingia. &lt;br /&gt;O jorro líquido do amor a coroar a entrega na posse, tanto ela gosta deste momento!, hoje não veio: nunca segredou envergonhada as delícias de sentir-se vaso de seu prazer; hoje não veio e, ainda assim, envergonhada não sussurrou decepção no falso final: conhece dele as convulsões os entrecortados suspiros e cansado jogar-se para o lado em profundo sono que hoje veio em seu lugar o virar-se agitado respirar fatigado olhos abertos o peito suado; nada perguntou envergonhada por saber como resposta manter calada a boca de besteiras. &lt;br /&gt;No escuro Olga luz na mente, estrela em tela de brilho próprio encarnada música de primeira grandeza ressoa compartilhados sonho e vigília; meu futuro despenha-se no esperdício do tempo, encontrasse musa de inspirada harmonia na verdura de meus anos meu talento dilatado a que alturas Olga não me alçaria. Meus filhos, barragem de meu fluxo, minha vida amesquinhada contraposta à ventura prometida. &lt;br /&gt;Por trás de um grande homem, uma grande mulher, brinca a Mãe lendo sobre os ombros de Benedito os rabiscos a lápis no almaço amarfanhado pelos pendimentos de escritas anteriores. &lt;br /&gt;Fosse Olga grande mulher, Raphael teria pela frente sido grande pianista. Conclui Benedito; e rasga de vez seu rascunho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 019 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Data  14/01/2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-223615509600183219?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/223615509600183219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=223615509600183219' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/223615509600183219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/223615509600183219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/019-frui-raul-entrettulo-laslos.html' title='019 &lt;strong&gt;Frui Raul entretítulo Laslos&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-485217610933619024</id><published>2007-12-01T11:59:00.001-08:00</published><updated>2007-12-01T11:59:57.011-08:00</updated><title type='text'>020 Tempos Modernos</title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 020&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tempos Modernos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cais nunca é bonito, por mais que porto seja colchete de união entre continentes, seguro para os navios trazem estes no convexo as sujeiras do mundo e aqui, os músculos tumescidos na faina dos sucessivos dias, não escondem as caras tristes a dor da fome, os interrogativos dos incertos dias, os estivadores. A Menina salta para dentro do caixotão de madeira e, rápida de volta pula, escondida baixo do saiote a lata de biscoitos corre que, os pés firmes e o pensamento limpo, matar a fome de um menor não é roubar. &lt;br /&gt;A Menina, muda de olhos grandes, busca pelos arredores o Vagabundo que a proteja. &lt;br /&gt;Quebra-se a ponta do lápis e, enquanto com lâmina afina outra diminui, nele escritor, o afã de escrever sobre a Menina e o Vagabundo em balanço de comédia dos tempos antigos da cinematographia. A Ama Gertrudes não scismava ainda falsidades na Menina mas, tais a vitalidade e presença de espírito em Vina que, entre fronhas e cobertores de seu apertado quarto de empregada no apartamento duplo, não era difícil supor tantas meninas numa. &lt;br /&gt;Seria lícito escrever sobre o devaneio, no qual Vina Menina tem proteção do Vagabundo do Porto, não fosse ele desenrolar-se num tempo fora de calendário; nada mais justo, no entanto, ligá-lo como primórdio das desconfianças da Ama contra a menina, o passeio ao litoral da família de Damastor, o olhar satisfeito de senhor dos negócios de exportação, sua Senhora com novas pérolas no colar de duas voltas, Vina criança de rebrilhantes cachos e Gertrudes maravilhada com a vez primeira a ver o mar e contrariada de, num dia de tanto sol, perder precioso tempo entre homens de pescoço curto cabeça chata e costas largas carregadas de sacas de café subidas pranchas em Santos, a Menina de mãos pequenas entre gigantes dedos a lançar curiosidades ao derredor. Se ela quisesse iriam molhar os pés em Chora-Menino porém, e parecia peguilho de Vina, quanto mais queria a praia Gertrudes mais atenção dedicava a Menina aos pormenores desprezíveis dos caixilhos das clarabóias, das âncoras incrustadas de crustáceos, dos cordames de complicados nós, cheiro de peixe óleo queimado calor sem brisa madeira podre ferrugem metal. &lt;br /&gt;Malvina quer!: Damastor provê. Quisesse ela areia fofa ondas marulhando aos pés, proveria ele. &lt;br /&gt;Assim, a ponta do lápis quebra o enredo de A Menina e o Vagabundo, mas, confirma no Autor suspeitas de complicadas tramas nos sentimentos em dissenso da Ama Gertrudes, por todos conhecida como Julieta; acrescidas desavenças no tempo, aprimoradas no ódio, como quem coze em fogo brando e, por pausas, retira do molho escumas de gordura com colher de rasa imersão os excessos mas mantém o gosto, conforme cresce Malvina em beleza e independência é possível requintes nas histórias de começo aquecidas no calor da minúsculas cama de Gertrudes, depois creditadas pelo próprio comportamento da moça. &lt;br /&gt;A Mãe de Benedito Rui, Autor, gosta da alusão de retirar do ódio com escumadeira o excedente de gordura e, madrugadeira, apaga com borracha o traço em que o filho rabiscara a frase por considerá-la de mau-gosto, reescrevendo sobre o sulco calcado do lápis recupera-a, embora também depreciasse a comparação; ela nunca gostara de cozinhas e cheiros afins. &lt;br /&gt;Contudo atiça-se no Autor a gana de explorar escritor as suspeitas das complicadas tramas. E o comportamento da moça. &lt;br /&gt;De menina a moça tomam corpo as medidas da perfeição. Era notório o amor da Ama por VinaMenina MalvinaMoça. Acostumada a servi-la aprendera incontinente executar os comandos com rapidez traduzidos do cenho. Nunca o imperativo direto, mas a subordinação no complemento. Na infância semblante súplice, lábios caídos rosto contraído; ou afogueada se por demais quisesse um mimo. Os cachos louros, as negativas encontravam nos balouços deles a confirmação do desagrado. De costas, os braços cruzados, não havia como demover-lhe o amuo. E, dias seguidos, sofria a Ama a ausência de seu doce olhar. Ausências que se firmaram em requintes no tempo escoando: fechava-se por horas seguidas no quarto; adulta por seguidos dias. Quando se mudaram para a capital era nos cômodos para ela reservados que, trancada, dela sabia Gertrudes não estar morta porque, nas horas altas, beliscava das refeições deixadas na copa a roupa usada na cadeira aguardavam limpeza o dinheiro contado na fruteira para as compras; e não se ouvia no apartamento contíguo qualquer som indicativo de presença. Este comportamento, e a total independência, deixaram Gertrudes solitária; e povoada de suposições. &lt;br /&gt;Seria pouco original atribuir a afitos malévolos os enredos da Ama, e tingir de malvadezas os pensamentos que inocentes povoavam as noites insones longe dos olhares de Gertrudes: Vina demora nos claros abertos pela ausência. Em noturnos tecidos, fictos de Gertrudes para alívio das preocupações, neles Vina protagoniza principal, pessoa de bem servir ao próximo, a grandeza moral emoldura seus feitos mesmo que para o vulgo carecessem do lugar comum dos atos aceitos numa sociedade de rígidos preceitos. &lt;br /&gt;Os inventos noturnos de Gertrudes trazem à scena Malvina, ora terrorista pela anarquia ora, quando não freira de ilibada virtude a serviço de Cristo casta esposa tal devota de Santa Cecília teria sido mártir vivesse na terceira centúria cristã de uma Roma de rito pagão, era enfermeira da Cruz Vermelha a inspirar romances a prazo e preço fixos aventurosos nos bocejos crepusculares de vidas comedidas ou vigarista a fingir-se cega florista para extorquir dinheiro do Velho Rico em simulada cirurgia e beneficiar o pobretão perdido entre as correrias do populacho de uma metrópole atropelada em buzinas de esfumaçados ares. &lt;br /&gt;Como todas as manhãs na rua atrás da igreja, à porta do palacete, Gertrudes já resolveu o rumo a tomar; se à esquerda reza rápida em Santa Cecília caso estivesse Vina em dias de humores delicados, à direita Arouche caso Vina desaparecida de suas vistas sabe Deus onde andará a sapecar enredos em histórias curtas; hoje saiu para moroso passeio. Parou na casa dos cristais, a vitrina mesma uma jóia de madeira e vidro abaulado, copos e compoteiras vasos e fruteiras desigualados chanfros os centros de mesa cestas de esmeradas tranças ou barcaças a vagar translúcidas, os brilhos deslizantes no movimento do olhar. &lt;br /&gt;A Escola Normal, e na praça as normalistas de azul fita em laço nos cabelos, brancas blusas e meias rodeio acanelado da canoa dos sapatos aos joelhos em três quartos, gravata e caderno de escudo ao peito esconde e mostra, sorriso franco rosto encantador fingem nos olhos distrações. &lt;br /&gt;Também Gertrudes finge distraída colheita na manhã do sol os raios brincalhões de solta alegria. Minha Vina jamais entre elas, canteiro de graciosas flores, surgisse minha bela de frescas pétalas, emurcheceriam. Quando bem sei, não se misturaria altiva às pequenas lolas quando muito, posto que bem recordo Lola, mulher dos equilíbrios incertos em Borboleta dizia-se andaluza mas quando muito lusa e, recordo-me bem, de sotaque copiado axilas peludas buço oxigenado e percutisse castanhetas o som rachado feito matraca de semanassanta ainda ouço bem quanto bem recordo sedutora não era, quando muito carmen de matutos pito de palha fumo fétido. Vinha com o Circo, a Lola Malabares, se chovia as carroças no barro atoladas, da lama não se distinguia a bailarina conquanto bem recordo no palco reinava vestida de várias saias múltiplas franjas multicores sem salpico de qualquer vergonha, as pernas à mostra no volteio das danças no sapateio enérgico do flamenco. &lt;br /&gt;Bate o vento, debalde o peso da lã a saia mostra mais do que queria a normalista. Riem as meninas. Minha Vina reflete da educação das antigas o pudor na compostura da roupa o recato dos botões presos nas casas, com dignidade de dama um broche encerra no colo os segredos de moça. As pequenas lolas não! Por baixo da gravata desabotoada camisa a pele insinua-se alva. E mostra atrevidas saliências. Minha Vina, da mesma idade, têm-nas vetadas ao profano alheio. Meus olhos velam-se no respeito, quando a secundo desde e sempre o faço no trocar de roupas, se resvalo a pele cor das rosas da auréola de seus pomos virgens encrespam-se e, inocente púbere, abre em sorriso os risos mais acanhados. Qual voz teria Vina, quais os sons de minha menina. Seu rosto ilumina alegria em argentino silêncio. Assim como não precisa de voz a feição da contrariada. &lt;br /&gt;Além de bela superior inteligência, nunca freqüentou escola condição de muda ser: para ela Damastor reservou aulas particulares, professores os melhores em cada área, cultas matérias. O catecismo e o temor nos dez mandamentos de Deus e nos cinco da Igreja contidos, pela bondosa Donine ministrados em casa. Admirava-se a Ama que, durante cada reflexão nos ensinamentos, Vina fechava os olhos contricta para imbuir-se da Graça; vale dizer não pensar assim acrescidas novas experiências: tenho certeza continha o riso a dissimular o descrédito. A Primeira Comunhão obteve em cerimônia só para ela, a igreja enfeitada e, qual num casamento entra Malvina vestida virgem de branco delicado terço de pérola livro de orações em madrepérola: nunca dantes dada a público, corrige Benedito Rui que entendia ter sido no casamento de Damastor apresentada aos olhos maravilhados dos convivas: loira de cachos, o coração só de Jesus. &lt;br /&gt;As primeiras letras nasceram da paciência mestra do consumir-se iluminando de uma Esther de Seixas; Dona Penita Spíndola simplificou-lhe as Matemáticas, Don´Ana Bernardim do Valle o Desenho com as gregas simples cruzando-se em compostas e a Álgebra contou com os prestimosos ensinamentos de Dona Tita. Sylvia Mendes declinou com ela, do Latim, os apaixonantes casos as complicadas regências. O que para outros seria alfabetização para ela o gimnasial, a continuar-se aqui com renomes nacionais. &lt;br /&gt;As moças bando em flor, trios pares quartetos, fazem hora pala praça. O cigarro escondidas entre livros as baforadas, redesenham as bocas de vermelho, a pinta preta na face o pega-rapaz curvo na testa. Os moços chegam devagar, postam-se em fila, e elas, para cima para baixo exibem-se aos elogios sussurrados. Aos poucos a praça guarda-lhes o vazio. Algumas, de menor cabedal, levam-nas o bonde da São João rumo à Barra Funda, o circular avenidas para a Liberdade; as do Campos Elísios aguardam venham buscá-las os pais, as governantas, os motoristas em reluzentes carros. &lt;br /&gt;Eu, a Praça, a Escola Normal, os raros passantes. Hora de ir embora. &lt;br /&gt;Perto do lago uma bela mulher e enorme susto: florista de roupas simples duas cestas de flores aos transeuntes, acompanhando os som dos passos, num gesto oferece violetas e camélias em maços. &lt;br /&gt;Pensara ser Vina, tanto eram seus os traços do rosto morena tez escura cabeleira por diferença, os olhos do mesmo azul agora opacos atravessam cegos Gertrudes e seu espanto. Confirma não ser Vina ao escutar a bela voz cantora a oferecer no vazio: &lt;br /&gt;senhor senhora compra-me violeta &lt;br /&gt;precursora de feliz primavera &lt;br /&gt;frágil camélia &lt;br /&gt;das belas damas &lt;br /&gt;fascínio &lt;br /&gt;em flor. &lt;br /&gt;Também o sorriso, dirigido a quem pegar, não tem a vida de sua Menina. Refeita segue caminho rumo à Barão, atravessada a praça. &lt;br /&gt;Certo de que cega a Violeteira, um vagabundo dela em silêncio se enamora, sentado a reservada distância admira-se que não possa ver quem tão bela lhe enche de alegria a vista. TempoModerno, apenas da Violeteira é assim por esse nome conhecido, em segredo por ela batizado, a única que o vê na Cidade de rara trégua no intenso movimento, calor intenso tempestuosa chuva horas mortas no sllêncio, por todos tida como cega, se a ele deu o nome de TempoModerno jamais teria visto alguém com vestes tão antigas o colete sem botões as calcas largas por um cordão franciscano amarradas, o paletó no frio ou no calor recebe um lenço de branco alvor no bolso e uma camélia na lapela, a pétala do bem-mal-me-quer por partir. Retoma o caminho para Santa Cecília pensando que nem é cega a florista sequer muda minha menina, quiçá uma e outra mesmas atrizes para diferentes enredos; com certeza não sou eu a cega embora muda para os segredos que requerem tumba. Eu, eu não preciso ver para crer; creio e calo. &lt;br /&gt;Violetas. &lt;br /&gt;Violetas e Camélias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 020 de Conto Romances&lt;br /&gt;Paulino Tarraf  &lt;br /&gt;Versão de 21/11/2007 &lt;br /&gt;Sobre Versão de 10/10/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Original de março de 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-485217610933619024?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/485217610933619024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=485217610933619024' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/485217610933619024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/485217610933619024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/020-tempos-modernos.html' title='020 &lt;strong&gt;Tempos Modernos&lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-6308906859697696885</id><published>2007-12-01T11:58:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T11:59:01.282-08:00</updated><title type='text'>021TempoModerno </title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 021&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;TempoModerno &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os arcos retorcidos do aço inglês na platibanda em brilho prata, floritura metálica de quase-flor a brotar em fieira, lançam-se em vão do Mosteiro para Santa Ifigênia, o bonde no estrídulo da roda nos carris, acima o céu celagem rosa embaixo Anhangabaú, filete d´água em canal coberto, luta para não morrer. &lt;br /&gt;TempoModerno os andarilhos pés, conforme o bonde rilha nos trilhos o zurro dos burros o clangor das buzinas o clamor dos pedintes a indiferença das gentes, compassam dança na tarde livre de garoa do dia quente. Tanto faz se o pespega chuva, nem muda os passos nem evita as poças, se calor o pilha não despe o casaco de lã grossa de preto sujo do frio. Algumas roupas gastaram-nas o uso, conserva contudo por gosto o chapéu colete e bengala das antigas décadas em que aos bondes puxavam os burros por estreitos carreiros e, a linda Menina Cega Florista se o apelidou de TempoModerno, vem daí o apelido. &lt;br /&gt;A pão e água, metam-no a pão e água! Gertrudes, feliz que Vina esteja longe, rumo à rua da Boa Vista exercita seu dia de rica e vai às lojas como quem vai às compras e, compraria, se não estivesse vazia a bolsa de couro caro. Na outra calçada TempoModerno. &lt;br /&gt;Ele não sabe mas seu nome é esse. Ninguém sabe que seu nome é esse. A cidade nem o vê, ou a seu andar desocupado, a bengala ponteiro único de um relógio a girar em sentido anti-horário. Somente pela Florista visto na cega escuridão. Para Gertrudes, dele sabe com a certeza de quem não carece ver ouvir, existe TempoModerno com esse nome. &lt;br /&gt;A ponte leve sobreleva-se viaducto, robustas patas a fincá-la saurópode no arenoso vale, com risco de ser tragada pelo terreno leito no passado de caudaloso rio temem os antigos, obra de altiva engenharia desde que erguida é aqui de TempoModerno a morada. &lt;br /&gt;A pão e água, metam-no a ferros. &lt;br /&gt;TempoModerno desvia-se pela escada lateral desce ao Vale e, vagaroso, percorre as casas que sob o viaducto os donos teimam ter sido ali sempre a nossa morada portanto não mudaremos, pois nem vai a chuva levar-nos de aluvião nem cairá construção de vigoroso aço da Monarcchia Inglesa, por mais que sobre ele em viação transitem bondes e carros e carroças e charretes, viaturas a tração de cavalo de gente vehículo automotriz. TempoModerno concorre com os cães a comida deixada nas soleiras pelas criadas preguiçosas; das sobras quer apenas o sal nelas contido para a sopa de raízes e legumes. Come pouco conquanto muito ande e a cidade sua horta onde cata o de comer: nas andanças pela zona cerealista batatas esquecidas germinam verdes gemas, no mercadinho da São João hortaliças murchas bordas centro de fresca verdura tomate de poupa vermelha sob a pele envelhecida cenoura flácida e mandioca dura comporão caldo grosso com asa de frango e osso de tutano e talhos de carne colhidos no matadouro público da longínqua Villa Mariana onde irados caninos na bocarra imensa tornam os cães de rua tomados pela ofensiva fome quase-feras, mas ele artimanhoso ganha. &lt;br /&gt;Atravessa anhangabaú-recoberto-em-rua, sobe a rampa aos pés do viaducto, sumindo por entre os desvãos da ponte entre as robustas patas, intrincados meandros tortuosos recantos das ordenadas pedras em paredes, acende fogo e na lata velha que de panela serve para janta ferve a feira catada no avanço do dia. Deita-se e dorme, livre de a chuva livre de o vento desarrumarem o justo do sono. O silêncio das horas mortas. Raros transeuntes no leito das ruas, temerosos dos bandidos, se passa um cavalo é disparado, o motor do carro rápido ronco rápido chega rápido parte e fica da gasolina o cheiro em rastro, para espanto do ladrão o guarda-noturno apita a garantia do salário: nada disso a TempoModerno perturba os sonhos, mas no antedia o leiteiro tira do paralelepípedo com a ferradura da mula a cadência que na infância não existia. Acorda e salta para o dia: &lt;br /&gt;A pão e água, metam-no a ferros! &lt;br /&gt;Calendas nonas ou idos, não têm marcas os dias, passam os meses sem nome embora o atraia a palidez da lua; despedem-se do dezenove e festivos saúdam os homens a sonoridade do século vinte pelas tantas luzes de felicidades que cruzarão nossos horizontes e nas marcas dos produtos nos cartazes dos anúncios passadas décadas ainda persistem as alegrias de uma nova era, não mais confirmada. A febre veio um dia em descarnado amarelo e passou como passara a guerra e os tempos em carro de ceifadeiras rodas sobre todos terão passado: beba Caxambu. &lt;br /&gt;Nunca iguais os dias, embora tenha fronteira seu percurso: não ultrapassa o Arouche desconhecida Santa Cecília e o bairro novo que Elisíos se anuncia e Hygienópolis que a febre ameaçara aos abonados desde os miasmas das inundadas várzeas até finda guerra os ventos de andaluzia influenza nefasta; a Luz é seu limite do norte ao sul não atravessa o largo da Pólvora, o caminho de carro para Santo Amaro pega a pé quando ao matadouro vai na Villa Mariana e volta; o Brás para ele não existem bairros que valham a pena e, se no Carmo não reza, do convento reverencia as grossas pedras da parede calabouço: a ferros! a ferros! No Piques recosta-se ao paredão quando o impele o descanso e mira para onde o vértice do obelisco aponta, banha os pés na bica limpa boca e dentes, enxágua as axilas e, nas horas mortas aproveitando o medo das gentes, demorado lava-se pudico, pouco importa quão, frio ou quente esteja a água, ou o tempo. Não gosta de cheiro de gente, o seu, leva-o águas correntes. A ponta do obelisco no vértice do infinito. &lt;br /&gt;TempoModerno segue andarilho entre as apressadas gentes, muitas pedras das ruas carregam a impressão de seus passos, nem sempre as mesmas pedras conquanto revolvidas para calço dos trilhos, o cheiro dos estrumes mistura-se com a gasolina os relinchos abafam-se nas explosões as ferraduras em trote ritmado nos paralelepípedos descompassam entre roncos e os cavalos desafastam-se para os motores com pressa, a taipa sucumbe à alvenaria as casas aos Palácios, para fora da vista as torres babel tão altas se agigantam que por vingança cairão sobre nossas cabeças de Deus as justificadas iras, vaticinam profetas homens e mulheres do passado século, TempoModerno atento tudo nota sempre sobre nada fala, civilizado aguarda na calçada o sinal do guarda, se a eletricidade toca o bonde nunca entrou num mas sabe do aperto do lado a lado incômodo passageiro fede anônimo, o estalo do chicote a desafinada buzina tilintar de sinos risos e falas, permanentemente presente clamar mendigo dos desvalidos, nunca esmolou se quer roupas pega-as quando esquecidas num varal ou postas fora a desoras entende como suas ali deixadas pelas criadas preguiçosas e, cuida no uso nunca acabe as próprias em casimira o paletó de ultrapassado corte e o amarrotado brim cáqui, cirze com agulha e linha tidas não se lembra desde quando, sem precisar de ninguém com ninguém conversa da própria voz não traz acústica memória, e não se sente solitário com tanta cidade ao derredor, conquanto jamais recebeu um abraço um afago e dele rápido desviam o olhar em pouso por acaso. &lt;br /&gt;Subida a escada lateral ruma pela Boa Vista ao Triângulo, centro de sua circunscrita geografia. Lamenta de progresso é o aburacar das ruas abrir valas soerguer postes cruzados fios assentados trilhos, a cidade nunca pronta para uso cabal, derrubam-se igrejas alargam-se praças onde antes corredor é rua onde rua avenida cavucadas saídas em becos viaductos unem colinas porém, parecendo assim maior, cada vez menor em greis repartida, e tantas vezes mudou TempoModerno seus restritos trajetos tantas novidades barraram-lhe os novos caminhos. &lt;br /&gt;Um mar de gente, expressão preferida de Gertrudes desde que conheceu de Santos o porto e além o mar, atropela-se desconhecida uma da outra; fixos nas lojas os caixeiros, nas mesmas esquinas os mesmos pedintes, varredores de estrumes atrás dos eqüinos, portanto com as lojas com as esquinas com os estrumes varridos confundidos, envelhecendo anônimos desaparecem um dia sem que se lhes sintam a falta como uma fachada pintada de novo uma parede derrubada o carro que passa se movido a burro se tem fumaça. Tudo isso pensaria, se com isso se ocupasse como se ocupa Gertrudes: passeia os pés pelas ruas imperturbável quanto se o molha a chuva ou suor pinga-lhe da testa. &lt;br /&gt;E o Triângulo, se o percorre TempoModerno desocupado de notar mudanças será outra a feição de cada rua que compõe seus lados irregulares para quem às compras vai em religioso fervor, nada devemos a paris diz Gertrudes com orgulho para as luvas apertadas nos dedos grossos. Gertrudes sai às ruas com destino certo quando Vina, como é seu hábito, toma por uns dias ignorados rumos. O destino certo de Gertrudes são as lojas onde tudo apreça e nada compra: vestida nas roupas de Vina a ama-seca da Menina agora-moça sente-se feliz Julieta; mas se acredita a Menina que nada se sabe de sua vida, não há ponto obscuro nos enredos das vidas que para ela Gertrudes engendra dos miúdos conhecidos.&lt;br /&gt;As lojas, abertas as portas delas emana o calor do comércio o apelo das compras, o curtido couro e graxa embelezam sapatos as polainas afinam traços o algodão do brim e brilho da seda acariciam corpos a casimira macia ao tacto basta ver para sentir quanto seria melhor viver neles confortados, reis e rainhas alvos de refinado trato senhores e senhoras entram nos sorrisos perfilados dos caixeiros prontos para servir pouco devemos a londres e suas galerias diz Gertrudes para o broche a brilhar no ufanado peito; nada disso atrai TempoModerno além de um passageiro olhar. &lt;br /&gt;Passa TempoModerno, os dançantes passos uma gardênia na lapela, em Gertrudes não esbarra tal o asco lhe causaria o contato com as gentes em ninguém esbarra. Gertrudes lembra-se dele, que no Largo do Curro lançava à Florista olhar enamorado; e pronto volta a convicção de que outra não é a Florista de linda voz senão Minha Menina Vina disfarçada e, tenho certeza desde criança a fingir-se Muda para iludir Damastor, o Rico dos Cereais. A Menina, fora há três dias, quem sabe TempoModerno caminha para a Sé cair de fascínio por ela, em pobre Florista travestida. Com certeza, a certeza de minha intuição, mancomunada com algum mandrião pretende Vina que ele roube, sensibilizado pela cegueira da bela, o dinheiro necessário para a cirurgia. Vina, se me enganou um dia, esperta que sou muirto mais esperta teria de ser ela, não mais me engana quanto os anos em mim acumularam sabedoria. &lt;br /&gt;Não vi, não preciso ver para ter certeza! Primeiro o atraíra a voz a oferecer gardênias, senhor senhora precursora da primavera; dos sons o mais lindo a voz humana, fora como se ouvisse pela vez primeira, ar modulado em melodia, inspira profundo para desde então nunca ter mais o mesmo ser. Não à gardênia dirigira o olhar, mas à branca tez sedosa coma, uma rosa pudica empresta-lhe cor às faces, os olhos impérvios à luz doces ao dia que os alumia; as plantas enfeitam-se com flores várias cores, as folhas esmaecem verdes em amarelo rendilhado ocre e assim os enfeites diversos cantam as belezas do universo, TempoModerno vê beleza pela vez primeira ao vê-la. &lt;br /&gt;Pomo proibido é a Florista desejado mimo. &lt;br /&gt;A Sé doravante paraíso e, se eram estreitas na cidade suas fronteiras, o infinito instalou-se num ponto do quadrado da praça. &lt;br /&gt;Não desprega da calçada o olhar, experimentado à cata de toco de cigarro caça perdidos vinténs por algum descuidado e, lamentando os cobres vistos outrora desprezados por desnecessários, junta fortuna em réis para comprar uma gardênia. Fixa na lapela na lapela murcha mantém-se seca até se despetale. &lt;br /&gt;Bela e cega. Ao reconhecer insensível às luzes da cidade os amendoados olhos, se compartiu a dor por ela, regozija não ser visto nos andrajos pobres assim entre as gentes tão rebaixada classe; presente dos céus! corajoso agora aproxima-se dela e mudo compra o perfume vago a falsa compleição da branca rosa, o direito de sonhar ser amado de sonhos alimentar-se, conhecer na insônia audaciosos devaneios, ser o corpo desejo de outro corpo; clareia o dia e ao largo da Sé corre para, em reservada distância, confiante na cegueira das apressadas gentes como sempre não ser visto nem por ela. &lt;br /&gt;Mas nada escapa de Gertrudes, ávidolhar. Era sonho, sozinha, ir às compras no Triângulo Comercial, sem coragem de acordada lançar-se à aventura. Longe do Arouche, além da Barão atravessado o Chá. Uma senhora desacompanhada na europa da cidade. Atreveu-se quando brilhante iluminou-se a idéia de usar o broche, um cavalo de cara diamante olhos rubi crina esmeralda, na lapela do casaquinho. Melhor companhia não há, que uma jóia rara reforça a dignidade estampada em minhas feições gestos elegantes observações inteligentes. O casaquinho esconde os grandes alfinetes compensadores de sua cintura centímetros a mais na saia de Vina. &lt;br /&gt;O Triângulo, se não é preciosa pedra estrangeira engastada na mesmice nacioanal: Au Printemps. Au Louvre. Au Palais Royal. La Pendule Suisse, La Grande Duchesse, coiffure. Ali não entraria, quão caro sairia seus cabelos duros em delicadas mãos: revelariam a origem humilde a custo ocultada. Mas não perdeu oportunidade de provar vestidos, luvas para todas as estações, jóias e relógios; o experimentar sai barato, o cavalo brilhante passaporte e montaria. &lt;br /&gt;Maravilhou-se no Werbendoefer, impressionada com o forro de vidro por telhado o céu azul acima da cabeça tange rebanhos de nuvens sem ventos nos cabelos o gracioso chapéu de Vina firme permanecer enxuta se chovesse: atravessada a Galeria descortina-se a Boa Vista: desinteressada de ver paisagens, em Borboleta tão lindo o horizonte amplo tão estreita perspectiva da vida quer, de volta para a Quinze, extremo ousar no Grande Hotel de La Rotisserie Sportsman um demorado lunch comer entre trabalhadas vidrarias, estremece: O broche desapareceu! Tenho certeza, roubou-o TempoModerno, na intenção de pagar cirurgia para Vina pressuposto muda e agora por fingimento cega. &lt;br /&gt;Prendam-no! &lt;br /&gt;A pão e água metam-no a ferros. &lt;br /&gt;Quando Gertrudes reencontrou o broche engastalhado nas dobras da roupa já era tarde: nas mãos de dois soldados a liberdade fugira dos pés de TempoModerno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 021 de Conto Romances&lt;br /&gt;PaulinoTarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17*02*2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-6308906859697696885?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/6308906859697696885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=6308906859697696885' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6308906859697696885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/6308906859697696885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/021-tempomoderno.html' title='021&lt;strong&gt;TempoModerno &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1475070861125796588.post-5967411515262015015</id><published>2007-12-01T11:57:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T11:58:01.764-08:00</updated><title type='text'>022 Tirando Fita </title><content type='html'>Conto Romances Arquivo 022 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tirando Fita &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voar. Sobre pneumáticos, correr no ar. &lt;br /&gt;Um céu tão lindo, assim colorido o fundo prússico nele desemparceiradas nuvens desarredam em bandos desiguais conforme o carro sem capota veloz de cinqüenta pontos aproxima-se do horizonte mais longe sempre. As árvores tragadas umas pelas outras na rabeira em ondas o poeirão, vacas e pasto giram, e gira o roceiro no cavalo mal-cumprimenta já-some num sorvedouro, Amandio assustado magica o que seria a vertigem de voar tal a tonteira de numa estrada correr, promete ser última a primeira vez, sofrido gozo. Na cabeça um capucho de couro qual motociclista os óculos de grandes vidros recobrem os olhos azul de infinito, por não terem cor nenhuma carecerem de escudo contra a inclemência de tanta luz; a pele de branco leite também desprovida dos benefícios da cor contra os dardejos dos céus no unto de cremes ganha proteção; sobretudo de brim ao lado de Damastor conductor do fiat velux, às rédeas soltas os quarenta cavalos do potente motor, importado d´Italia pelo Filho do Prefeito da Capital a mim revendido em ótimo estado, diz ele sorrindo para os negócios que lhe sorriem ser veloz o caminho para a Fortuna, Damastor de-ficar rico mais perto cada vez. &lt;br /&gt;Comprar nas fazendas algodão e café, armazenar e na revenda para o porto de Santos remetido redobrar o capital, eis um homem amante do progresso pelo progresso amado; mas hoje não comprará dos frutos da terra, se não que presto vai rever a pequena Vina. E, diriam as mentes de maldade infinda, negociará a compra da Menina: &lt;br /&gt;Na fazenda Borboleta. Vizinhas dela, as maiores, Borá e Campo perdidos de vista os horizontes verdes de café e branco algodão; cana de açúcar para consumo de rapadura e alambique. &lt;br /&gt;Borboleta, nela o pouso de Damastor, onde Vina demora nos braços carinhosos de Abadiah, mulher de Alberto Andaluz. &lt;br /&gt;Os pais de Vina, colonos meeiros, tão pobres quanto mirradas aves da ciscada onde come afoito o fornido garnizé; tão magros quanto os pobres proventos recebidos na meação da lavoura, pesada na balança do dono a reclamar prejuízos, tão remendados quanto tristes as roupas atritadas nos anos de serviços e, é deles a menina tão linda quanto os cachos descem louros aos ombros, tão linda quanto matreiro seu olhar brilho ligeiro nas rosadas faces, tão linda nos delicados gestos respostas por rápido entendimento, nem tal riqueza é deles sendo filha pois, tomados de amores os senhores da fazenda Alberto e Abadiah, sem benção de maternidades, recolheram-na como se deles fosse leoninos a parte em ouro nesta meação. &lt;br /&gt;Recebe-os Vina por padrinhos de batismo, pois natural imposição é o apego à menina desde o berço, acomodado no quarto deles; ama-de-leite por natural a própria mãe contratada vem, amamenta-a e pronto!, do casarão ladrilhado ao chão batido da choupana de sapé volta. Por ama-seca recebe Julieta natural apego, dela tanto gostar jurou jamais casar-se, do berço ao túmulo servi-la, enquanto vida eu tiver. &lt;br /&gt;De bondosos corações Alberto e Abadiah Andaluz. Crentes católicos de fervor arrebatado, atestam os colonos: &lt;br /&gt;Em volta da venda do Apolinário, distante da fazenda poucas léguas em charrete, cresce praça povoa-se arraial e de pau-a-pique um igrejó se alevanta em louvor de São Sebastião das Borboletas. Padre para missa e batizados uma vez por mês, pagam-no os Andaluz da Borboleta, devotos. &lt;br /&gt;As terras da região regem-nas variados donos com poréns, venerando verdadeiro senhor das terras São Sebastião é, daqui a Jaboticabal no recanto dos lares qual seja tamanho do lugar oratório igreja capela de ocupar praça inteira coberta de telha sapé paredes em tijolo madeira o chão batido ou vermelhão de cimento cru faz-se dele orago por merecida piedade: vinte de janeiro é festa com missa fogos batismo e homilia. &lt;br /&gt;Para esta festa veio Damastor, em seu fiatvelux, no banco ao lado Amandio veio, dolorido luto pela mãe. Tristes trâmites: &lt;br /&gt;Houvesse contenção para tantas lágrimas, olhos por queimar peito por sufocar, negror na alma que queria finada quanto o corpo mortal, não reencontrasse a mãe num dos dias incontáveis da eternidade. &lt;br /&gt;Visitar, montado na modernidade da carroceria metálica energia da gasolina conforto dos pneumáticos, as terras milenarmente produtivas, agora pela mão do homem domadas para, fábrica fosse, gerar naturezas em cálculos industriais. Homem prático este Damastor, pensa Amandio no que lhe resta de cabeça recheada de dores. Ter a pele branca desprotegida, albino quanto o irmão padre tem-na protegida: quis Deus fosse Damiano tão igual à mãe na cor da pele parda e ainda padre ter caminho aberto para os céus onde um dia a reencontrará, ela imenso amor retirada do meu convívio e eu pecador, nada me redime e corro o risco dela ficar separado na eternidade. Custou aceder ao convite de Damastor: &lt;br /&gt;Barbeiro, o salão para ele nave de igreja sagrado dia-a-dia permanece fechado casulo, Amandio dentro imóvel, a pele branca eflorescentes feridas, envolto em lençol feito alva a descoberto o rosto e carapinha em fio de seda qual enrolados caracóis grossos lábios narinas amplas de asas chapadas Damiano, irmão e padre, grita irritado que volte à vida ser pecado entregar-se assim a um luto é não enxergar nos fatos os desígnios de Deus doutro modo insondáveis. &lt;br /&gt;Amandio sonda. Por certo existem para além dos corpos almas, delas o corpo crisálida a romper-se rumo à vida de plena luz. Sonda Amandio, e na harmonia universal não encontra onde esta luz tornadaforma demorar possa. Joana dos Anjos, benzedeira, diz migrarem ao interior das fêmeas quando, nas carnações que delas emanam, fetos sementes e cristais, alojam-se em busca de renascidas à perfeição alcançar. Assim, num grão de areia na rocha incrustado, na libélula efêmera de vôo fugaz incerto pousar, no desmesurado animal no ínfimo limo, viceja o futuro. Raphael seu filho, letrado nos evangelhos segundo espíritas, professa apenas nos Humanos criaturas Dei-símiles modeladas, buscarem as almas cada vez mais luz no sofrimento suportado. Assim, do rei ao mendigo vivemos nas provações o resgate da ofensa pregressa a nós, caridade expressão soberana do amor, redime. Damiano, irmão versado nos dogmas da Igreja, a tudo anatematiza como crendice por Satan engendrada para confundir-nos: temos numa vida, não mais, o tempo para ganhar o Paraíso e, sem a Graça Divina, espera-nos o abismo do pecado onde anjo-polutos, qual Lúcifer, nele caímos eterno inferno. &lt;br /&gt;Ao apelo de Damastor descansa a afiada navalha de seus pensamentos a repassar-lhe feridas; no perder de vista das estradas descansado teme o sol rachar-lhe a pele qual puera ensanguessida. Óculos de vidros esfumaçados, e no horizonte desponta a fazenda definição de seu destino. &lt;br /&gt;No terreiro come, às vezes insetos por sorte gordas minhocas, o garnizé afoito por machear as fêmeas de galos desprevenidos. &lt;br /&gt;Abadiah. Com a mão afasta do rosto o suor, escorre a palma pelo moreno do pescoço debaixo da blusa desliza lentos contornos dizendo Uahllah que calor. &lt;br /&gt;Quase viúva. &lt;br /&gt;Abadiah Batisse Násrida Andaluz, dentes grandes lábio joliz riso solto, olhos orbitam desinquietos redondos, pele negra do sol filha do deserto, só o travesseiro testemunha molhado de lágrimas a saudade sufocada do oriente, figos suculentos uvas graúdas premidas na boca doce vinho mel de verão e, no árido das encostas o brancos das ovelhas, aqui na imensidade o algodão extravasa macio o capulho coriáceo, campo de neve fosse. &lt;br /&gt;Entre Abadiah e Alberto houve um grande amor: o amor dele por ela. Amor no leito enfermo junto com Alberto morrendo, hoje. Amor em gentil retribuir, resvalo da gratidão, Abadiah de generosos sentimentos. &lt;br /&gt;Por respeito virgem.&lt;br /&gt;Se Alberto foi bonito, e foi!, quando se casaram ainda lembrava a beleza antiga no rosto orgulhoso de não ter rugas nem tanto o pescoço com flácidas carquilhas e mágoas do sol, os membros com poucas das vigorosas carnes não diziam do homem capaz de ganhar na queda-de-braço dos melhores na venda do Apolinário, capaz de domar cavalos bravios e capaz de vencer na corrida, a pé, quem mal-intencionado viesse desafiá-lo; do lugar ou de lugares fora. &lt;br /&gt;Casaram-se; e eram outras também as fraquezas, nada que beijos e calores entre os lençóis não proporcionassem a Abadiah alegrias de viver; as lágrimas no travesseiro corriam movidas pelas saudades da terra distante. Turca diziam os colonos, a solto riso serem os turcos inimigos do seu querido povo sírio corrigia ela. Alem de que católica maronita. Uahllah. &lt;br /&gt;Chega Damastor. Uahllah, quem chegou! Como sempre, portador de novidades além dos bons negócios regateados de praxe. Na varanda, entre sucos principiam regateios os abastados da fazenda vizinhos, Vina no colo de Damastor a brincar. &lt;br /&gt;O sol acena vermelhos horizontes, mais clemente, e Amandio sob a parreira de uva admira as lagartas em pupas revirarem-se, os casulos pensos, parecem ter boca, feitos na manjedoura um infante-jesus. Poderiam contar-me das dimensões onde há mistério por sondar-se. Sombreiro e camisolão branco compõem desasado anjo em Amandio, os passos lentos as mãos ao longo descaídas. Sob o olhar de Joana Benzedeira a vaticinar ruína. Que não é da conta de ninguém; a arruda murcha na medida dos passos arrastados na paixão, lentos como cortejo de procissão. &lt;br /&gt;Palheta na cabeça andanças pelo arruamento dos pés de café Damastor, mais os donos juntos os capatazes desabados chapelões, entre o verde das folhas o vermelho dos frutos promessa de rica safra; os colonos no sol a sol cuidam de não haver lagartas no capulho do algodão as máquinas nas costas aspergem veneno, o chapéu de palha desgastada. &lt;br /&gt;Bons negócios, festejam todos contentes; Damastor silencioso vencedor. &lt;br /&gt;Quermesse à noite, ao redor da venda do Apolinário em benefício dos fundos para levantar igreja de São Sebastião das Borboletas, a imagem doada pelos moradores em andor enfeitado risca de vermelho o azul do céu. &lt;br /&gt;Divertem-se, o correio elegante para os letrados, quem analfabeto faz de Julieta escritora e leitora, compensação de que ninguém se lembra dela como alguém com peito batendo à espera de um amor. Vina pela mão, escreve, entrega, traz respostas e lê. &lt;br /&gt;Damastor trouxe novidades: &lt;br /&gt;Ligações no acumulador do Fiat, o projetor a postos aguarda o povo a magia dos tempos modernos. Cinematographia. &lt;br /&gt;Fiat lux. Damastor gira a manivela. Na parede o lençol estendido, branco molhado feito tela, e nele deitam-se os claro-escuros das gentes movimentando-se rápidas graças à electrochimica emprestada do carro: um prolongado espanto derrama-se uníssono da boquiaberta assistência. &lt;br /&gt;Mais alto, regalado e rasgado nas beiras é a voz de Abadiah, grita Shaitan e em cruz invoca o nome de Sahib, senta-se de novo e amplamente abertos os olhos engolem o jovem em branco e preto na tela cheio de vida jogando água de uma mangueira de borracha e todos se protegem de não se molhar. Quando tem letreiro é Julieta, a voz carregada de trovões do drama, quem faz leitura. &lt;br /&gt;Refeito o susto, de novo o escuro, pelo lampião desfeito. Damastor desliga e outro rolo retira da lata; curiosos pegam na fita, estarrecidos que tão pequenos e fixos os homens pudessem ganhar vida, os quadros entre si parecidos. &lt;br /&gt;Pedem mais da mesma mágica. Damastor bondoso muda a fita. Sem cansaço passariam a noite não fosse a lâmpada muito quente necessitar a pausa que se recusavam dar. &lt;br /&gt;Na pausa, Damastor ao lado de Abadiah: corada do riso das novidades, das novidades Damastor sempre pleno. &lt;br /&gt;O riso do povo quem agora atrai é Vina. Imita os apressados gestos há pouco vistos. Tal graça de corpo, sem som é perfeita coreografia. &lt;br /&gt;Todos pedem para Vina, muda e linda, tirar fita dos conhecidos; e ela, graciosa imita-os arrancando risos derramados em lágrimas: &lt;br /&gt;A luz do Fiat sobre ela incide e primeiro imita o Senhor Apolinário recusando-se servir bebida ao Parício; agora ao Parício de passos bêbados e língua mole empresta o corpo e atrai mais risos. Tirar uma fita. Desta feita copia Damastor andar com gigantes passos e palheta a girar das mãos à cabeça: às lágrimas risadas Damastor revê-se na Menina Querida; então imita Abadiah, a mão na cintura desce aos quadris a boca alarga-se como quem satisfeita da vida revira os olhos em direção a Damastor em disfarce até então imperceptível. Sem som, com muita vida, divina Malvina. &lt;br /&gt;Cada um pede que ela, estrela da noite em festa, tire dele uma fita: então ela se recusa! senta-se entendendo Damastor ordens para reiniciar a projeção. &lt;br /&gt;Refiatlux. &lt;br /&gt;Na tela as iluminuras: &lt;br /&gt;Como narrativa épica de perfeita reconstrução histórica um Rei uma Rainha um Malfeitor; a rainha déspota enraivecida grita sem som; e o letreiro intercala scenas: &lt;br /&gt;Prendam-no. &lt;br /&gt;Metam-no a ferros. &lt;br /&gt;Julieta lê para a platéia: &lt;br /&gt;A pão e água; metam-no a ferros!!!&lt;br /&gt;E Vina repete, lábios silentes de compassados movimentos: &lt;br /&gt;Put him in jail, until he dies. &lt;br /&gt;Olhos presos na vida intensa a brotar na tela multiplicadas emoções choram comovidas as pessoas, insistindo cesse o drama volte a comédia. &lt;br /&gt;Damastor, atrás da presa assistência, a mão gira a manivela atento no foco do projetor, a seu lado Abadiah. Com jeito, mão na mão na manivela, logo ela aprende e sente o poder da luz que dela emana, a vida que se agita a um simples toque de seus dedos. &lt;br /&gt;Viúva e virgem. &lt;br /&gt;Amandio, os olhos voltados para Damastor, muito perto de Abadiah a sussurrar em seus ouvidos: &lt;br /&gt;Ama-me. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sussurros de volta: &lt;br /&gt;Casei-me por amor, não importa seja ele velho.&lt;br /&gt;Á beira da morte, ainda assim farei dele um homem honrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insiste Damastor, negócios do coração: &lt;br /&gt;O futuro a Deus pertence. Ama-me agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enlevada, a custo se nega: &lt;br /&gt;Sou mulher intacta. &lt;br /&gt;Intacta permanecerei, por direita em meu caráter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Damastor, a voz num fio de sons, mais alto ressoa no peito o pulsar contido: &lt;br /&gt;Um dia volto nas tantas voltas da vida, caso-me com você de branco, Vina será dama de companhia, por amor para sempre nossa filha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chora Amandio; única testemunha das scenas mudas desta fita de amor ao vivo. Nunca vira tão próximos um homem e uma mulher. Nunca soubera da força varonil, presente no gigante Damastor entrevista nos convulsos meneios de corpo de Abadiah colada em Damastor. Os olhos entopem-se na torrente de novidades. Sobram-lhe nos ouvidos os gritos do projetor a girar os estrondos da respiração a ralentar. E a certeza intima de que, por jamais ter sido além de pupa, jamais terá vida fora do casulo. Amandio decide-se; somente não sabe a data. &lt;br /&gt;O carro, o girar da manivela. &lt;br /&gt;Haverá outros janeiros. &lt;br /&gt;Vina acena para Abadiah do colo de Julieta. A mãe na soleira da porta soube que a filha, levada por Damastor para novos horizontes, iria embora lhe disseram agora. Consentimento de Abadiah. &lt;br /&gt;Amandio indiferente, a cara exposta ao sol pronta para feridas, é comum que se não for a morte é a vida quem carrega para longe e rompe laços, pouco importa ligassem amores atassem desafetos. &lt;br /&gt;O carro parte. O Fiat, sem cavalgar na força de seus quarenta cavalos, leva a Menina Malvina colados os olhos no cinema da janela em que o mundo corre passado em troca do aceno de novidades. &lt;br /&gt;Abadiah entra no quarto de Alberto. Corado anda sem dificuldade. Valem os ditames de Deus. &lt;br /&gt;Uahllah!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquivo 022 de Conto Romances &lt;br /&gt;Paulino Tarraf &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Data *23*03*007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1475070861125796588-5967411515262015015?l=paulinotarraf.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/feeds/5967411515262015015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1475070861125796588&amp;postID=5967411515262015015' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5967411515262015015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1475070861125796588/posts/default/5967411515262015015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://paulinotarraf.blogspot.com/2007/12/022-tirando-fita.html' title='022 &lt;strong&gt;Tirando Fita &lt;/strong&gt;'/><author><name>Paulino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06744805737355222699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
